Exige-se mais
Sem qualquer intenção de desvalorizar os acontecimentos ao redor do jogo frente ao Caldas, irei apenas fazer-lhes uma breve menção. A decisão de mudança de local do jogo a tão curta distância temporal do mesmo, por motivos tão pouco esclarecedores e relacionados com o estado do relvado e com a transição a ser realizada para um estádio com um terreno de jogo em fracas condições, são motivos mais do que suficientes para fazer corar de vergonha os responsáveis pelas estruturas de futebol profissional em Portugal.
Mais um perfeito exemplo do desrespeito que existe pelos adeptos e mais um jogo em que o foco se desviou para o extra-campo, como não deveria ser.
Mudando de tema, longe vão os tempos em que o Braguinha recebia o Benfica no seu reduto sem que o fator casa se fizesse sentir, nomeadamente a partir das bancadas. Apesar da resistência de alguns à sua aceitação, essa mudança já aconteceu e de forma notória, tanto pelo crescimento do clube, como também pelas regras impostas na venda de bilhetes para estes confrontos.
Dentro do relvado, apenas uma vitória encarnada nas últimas seis visitas à Pedreira, e fora dele, um apoio fervoroso que cria um ambiente desafiante para o adversário, contrastando com o cenário vivido há não muito tempo. Apenas o mais cético ou desinformado adepto de futebol não conseguirá admitir isso.
Em relação ao jogo propriamente dito, viu-se uma primeira parte de notória superioridade da equipa de Carlos Vicens, a ditar ritmos, a criar oportunidades e a permitir pouquíssimas aproximações ao adversário, sendo a vitória caseira ao intervalo o único resultado adequado. Contudo, uma segunda parte diferente e um Benfica superior fizeram por justificar o empate registado.
Muitas foram as decisões controversas e questionáveis da equipa de arbitragem ao longo do jogo, que fizeram voltar à tona as dúvidas acerca da imparcialidade e da qualidade da mesma em Portugal. A dualidade de critérios e a falta de coerência, não só dentro de um mesmo jogo, mas também entre vários jogos distintos, são de assinalar e de lamentar.
No fundo, saiu deste jogo reforçada a ideia de que o nível da arbitragem em Portugal tem, obrigatoriamente, de subir, para que a qualidade do campeonato siga o mesmo caminho. A tensão criada por alguns clubes, principalmente aqueles que menos motivos terão para justificar o ruído que provocam, não beneficia os intervenientes, mas… Exige-se mais da arbitragem.
Mais recentemente, o Braga foi à Amadora e vencia confortavelmente por 3-1 aos 64’. No entanto, e um pouco à imagem da exibição anterior, a equipa parece ter-se retraído em demasia e, menos de 10 minutos depois, tinha visto anulada a vantagem.
Muito se poderá dizer acerca das indisponibilidades (Ricardo Horta à cabeça) e acerca de lapsos individuais, mas a verdade é que não mais o Braga conseguiu voltar a ser ameaçador, tendo mesmo chegado ao terceiro jogo sem vencer na Liga e desperdiçado a possibilidade de terminar a primeira volta no quarto lugar.
Fica difícil encontrar justificações para tão bruscas mudanças no rendimento coletivo dentro de um mesmo jogo. Exige-se, portanto, maior capacidade de resposta e reação durante os 90 minutos.
À primeira vista, o balanço dos primeiros 17 jogos é negativo, mas convém relembrar que nesse conjunto de partidas se inclui a visita ao Dragão, Guimarães e Alvalade. Mais ainda, que estas partidas não foram realizadas de forma isolada, mas sim como parte de um calendário preenchidíssimo, do qual resultaram a qualificação para a próxima fase da UUEFA Europa League, a presença nos quartos de final da Taça de Portugal e a participação na final four da Taça da Liga.
Adotando uma visão mais otimista, e sendo inegáveis as melhorias exibicionais evidenciadas neste período temporal, parece-me que, ultrapassado o período de reconhecimento de Carlos Vicens ao clube, aos jogadores e ao contexto, a tendência será de melhoria na segunda metade do campeonato.
Correndo o risco de me equivocar, e porque o interesse pelo futebol reside também na incerteza a si associada, arrisco-me a dizer que o Braga atingirá muito provavelmente a marca dos 60 pontos, registo pontual esse que tem sido habitual e que, inclusive, valeu um pódio em 2019/2020.
Um ajuste de expectativas parece-me necessário no que ao campeonato diz respeito, principalmente numa visão a curto prazo, sem perder de vista as outras competições em que o clube participa e o foco no objetivo último que é a consolidação de um projeto a médio/longo prazo. A começar já na quarta-feira, na disputa da meia-final da Taça da Liga, onde se exige mais e melhor. Só assim haverá crescimento.