Ex-piloto de caças dá asas ao Bodo/Glimt antes do Sporting: «Quem sabe onde chegaremos»
O sucesso do Bodo/Glimt, que agora defronta o Sporting nos oitavos de final da UEFA Champions League, tem uma arma secreta: Bjorn Mannsverk, um antigo piloto de combate da Real Força Aérea da Noruega, hoje adjunto de Kjetil Knutsen, treinador principal. Para Mannsverk, a chave do êxito é clara: «A nossa mentalidade».
Como recordámos há dias, antes do sorteio, sua chegada ao clube em 2017, quando a equipa ainda militava na segunda divisão, coincidiu com a ascensão meteórica do emblema norueguês.
«Havard Sakariassen [Chefe de Desporto] detetou um colapso mental coletivo e a necessidade de treinar também o aspeto psicológico. Encontraram um projeto-piloto que fizemos no meu esquadrão em 2010 e gostaram», recorda Mannsverk em entrevista ao jornal Marca, publicada este sábado.
Recusa o rótulo de 'mental coach'. Prefere ser visto como um «construtor de cultura», explicando que o seu trabalho vai além do treino psicológico. «A comunicação social adora chamar-lhe assim, mas não me identifico como tal, porque essa é apenas uma pequena parte do meu trabalho. Gosto mais do termo 'culture builder' porque o que tento é criar uma cultura/mentalidade de equipa», esclarece.
Knutsen’s unusual methods include recruiting former Norwegian Air Force fighter pilot Bjorn Mannsverk to work on the squad’s mentality. pic.twitter.com/kKNDBopcX6
— COPA90 (@Copa90) May 1, 2025
O processo começou com uma reunião de grupo para identificar problemas, mas o silêncio inicial foi total. «Não estavam habituados a desafiar-se em público, mas, assim que assimilaram que era algo natural, começámos a construir uma equipa», enfatiza.
Da segunda divisão à elite europeia
Desde então, o Bodo/Glimt regressou à primeira divisão, conquistou quatro campeonatos em seis possíveis e alcançou as meias-finais da UEFA Europa League. O ponto de viragem, segundo Mannsverk, ocorreu em janeiro de 2019, quando a equipa abandonou os objetivos tradicionais focados apenas em vitórias.
«Reuni-me com os jogadores, com o 'staff' e com o diretor desportivo e disse-lhes: ‘Porque não mandam à merda todos os objetivos que definiram para a época e se focam realmente nas coisas que cada um pode alcançar?’», conta.
Mannsverk estabelece um paralelo entre o futebol e a aviação de combate, sublinhando a importância de se focar no que se pode controlar. «A melhor exibição está sempre para vir. O que fazemos hoje deve ser melhor do que o que fizemos ontem. Caso contrário, poderíamos morrer como se fôssemos pilotos de combate», afirma, metaforicamente.
Oito capitães e nada a perder
Um dos maiores triunfos de Mannsverk foi incutir a primazia do grupo sobre o indivíduo. «Um ponto-chave foi quando os jogadores que competiam pela mesma posição entenderam que o grupo está acima dos indivíduos. O sentimento de equipa aumentou muito no último ano», destaca.
Este espírito coletivo é visível num grupo de oito capitães, descritos como «líderes muito respeitados», e na celebração dos golos, quando a equipa forma um círculo: «Isto último foi ideia dos jogadores, mas parece-me muito útil aproveitar o tempo depois de um golo para se reunirem, fazer um 'reset' e focar-se no plano de jogo».
Mannsverk revelou a mentalidade que permitiu à sua equipa eliminar o Inter, destacando a ausência de pressão como um fator decisivo. A equipa norueguesa venceu por 3-1 e 1-2, um feito alcançado apesar de não competir no seu campeonato doméstico desde 30 de novembro.
«No momento em que ninguém acredita que serás capaz de o conseguir, libertas toda essa pressão. Não tínhamos nada a perder, fizemo-lo saber e eles entenderam-no assim: mantiveram-se fiéis ao plano de jogo e deram o melhor que tinham. No fundo, beneficiou-nos», explicou Mannsverk.
No momento em que ninguém acredita que serás capaz de o conseguir, libertas toda essa pressão. Não tínhamos nada a perder
Segundo o treinador, a pausa competitiva foi benéfica. «A paragem foi boa para nós, tanto a nível físico como mental», afirmou. Esta frescura foi crucial para superar o Inter, com a equipa a entrar em campo sem nada a perder. Apesar do bom resultado na primeira mão (3-1), a equipa sentiu que podia fazer mais. «O nosso pensamento era: ‘O resultado da primeira mão foi bom, mas a nossa exibição não foi boa. Precisamos de jogar melhor’», confessa.
Questionado sobre a possibilidade de o Bodo/Glimt vencer a Liga dos Campeões, Mannsverk mantém os pés bem assentes na terra, focando-se no desenvolvimento contínuo da equipa. «O nosso objetivo não é ganhar a Liga dos Campeões, mas se melhorarmos, nem que seja um pouco, em cada jogo, quem sabe a longo prazo, no próximo ano ou no seguinte, até onde podemos chegar», conclui.
Os jogos com o Sporting estão marcados para 11 e 17 de março.
Curiosamente, o próprio Mannsverk admite sentir a pressão dos grandes palcos europeus. «No Metropolitano [casa do Atl. Madrid], em San Siro [casa do Inter]... consigo sentir a pressão mesmo sem jogar. Para mim, é muito mais difícil ser futebolista do que piloto de combate. Imagino que eles pensem o contrário», ri.
Artigos Relacionados: