Ex-médico do Bayern recorda conflito com Guardiola após jogo com o FC Porto
A famosa desavença entre Pep Guardiola e o Dr. Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt, no Bayern, volta a ser notícia, mais de uma década depois, com o antigo médico dos bávaros a recordar o conflito que culminou na sua saída do clube após 38 anos.
O ponto de viragem ocorreu a 15 de abril de 2015, um dia que o médico, atualmente com 83 anos, descreve como «terrível», numa entrevista à revista Spiegel. Nesse dia, recorde-se, o gigante da Baviera perdeu frente ao FC Porto (1-3) de Julen Lopetegui, no Estádio do Dragão, no duelo da primeira mão dos quartos de final da UEFA Champions League 2014/15.
Na opinião do catalão, a culpa do desaire recaiu sobre o departamento médico: os germânicos jogaram na Invicta sem os lesionados Bastian Schweinsteiger, Medhi Benatia, Franck Ribéry, Arjen Robben, Javi Martínez e David Alaba, todos figuras de relevo do plantel do Bayern.
«Fui responsabilizado pela derrota perante toda a equipa reunida no balneário», recorda o médico: «Diziam que tínhamos muitos lesionados e que eu deixava os jogadores de fora por demasiado tempo. Um absurdo total. Não estava disposto a aceitar isso».
A rutura definitiva aconteceu no dia seguinte. Numa conversa que deveria ser esclarecedora, o ambiente tornou-se explosivo. «Guardiola e eu sentámo-nos à grande mesa onde os jogadores tomam o pequeno-almoço», contou Müller-Wohlfahrt na sua autobiografia de 2019. «Acabou por se tornar um escândalo. Perdi completamente o controlo, gritei com Guardiola e bati com o punho na mesa com tanta força que os pratos e as chávenas fizeram um barulho ensurdecedor», frisou o alemão.
Pouco depois, Müller-Wohlfahrt anunciou a sua demissão com efeitos imediatos, juntamente com os seus colegas Peter Ueblacker, Lutz Hänsel e o filho, Kilian. O médico acredita que o desfecho teria sido diferente se o presidente do clube, Uli Hoeness, não estivesse a cumprir uma pena de prisão por evasão fiscal na altura. «Se ele estivesse no clube, não teria havido a rutura com Guardiola, disso tenho a certeza», afirmou.
Na altura, Guardiola limitou-se a dizer que tinha «grande respeito» pela decisão do médico, sem comentar publicamente o incidente.
O conflito, no entanto, terá começado logo com a chegada do treinador espanhol a Munique, no verão de 2013: «O primeiro dia correu bem, o segundo também, mas já no terceiro dia Guardiola veio ter comigo e repreendeu-me do nada: O que se passa aqui? Pensei que vinha para o melhor departamento médico do mundo e temos dois jogadores com lesões crónicas que já deviam estar recuperados há muito tempo. O que é isto?. Disse-o num tom agressivo e acusatório».
A tensão era alimentada pela desconfiança do técnico, que não gostava que o médico não estivesse permanentemente nas instalações do clube, dividindo o seu tempo com o consultório no centro da cidade, a seleção alemã e atletas como Usain Bolt. Segundo Müller-Wohlfahrt, Guardiola queixava-se de que as recuperações na Alemanha demoravam mais do que no Barcelona.
«Não conseguia entender que um treinador, que tinha tantos anos de vida quanto eu de carreira no Bayern, não desse a mínima atenção a mim e à minha experiência», lamentou o médico.
Um dos primeiros grandes desentendimentos envolveu Thiago, jogador preferido de Guardiola. Após uma lesão ligamentar na primavera de 2014, e contra a vontade de Müller-Wohlfahrt, Thiago procurou o médico espanhol Ramon Cugat para receber injeções de cortisona, na esperança de acelerar a recuperação. O resultado foi o oposto: o jogador sofreu uma recaída na mesma zona. Mais tarde, o próprio Guardiola admitiu que o tratamento de Cugat «talvez tenha sido um grande erro».
O antigo médico do Bayern recordou a conturbada saída do clube, marcada por desentendimentos com Pep Guardiola e uma despedida que o deixou «profundamente atingido». O médico, que regressou ao clube em 2017 a pedido de Jupp Heynckes, acabaria por sair em definitivo três anos depois, sem o devido reconhecimento por parte da direção.
Um dos episódios mais tensos ocorreu em abril de 2015, durante um jogo dos quartos de final da Taça da Alemanha contra o Bayer Leverkusen. Após uma lesão muscular de Benatia, Guardiola virou-se para o banco e aplaudiu de forma sarcástica na direção da equipa médica. Na sequência, o treinador classificou a situação das lesões na equipa como «crítica, muito crítica». A deslocação ao Porto para a Liga dos Campeões, na semana seguinte, viria a ser a última de Müller-Wohlfahrt com a equipa.
«O ambiente do mundo do futebol tinha-se tornado cada vez mais estranho para mim, com esses salários e valores de transferência astronómicos que são pagos hoje em dia. O desporto profissional tornou-se mais frio e impessoal. Há menos camaradagem», afirmou.
Müller-Wohlfahrt lamenta a perda do espírito familiar que outrora caracterizava o clube bávaro. «Antigamente, o FC Bayern funcionava como uma família», recorda, acrescentando que já não sentia essa união. No entanto, mostra-se otimista com os desenvolvimentos recentes sob o comando de Vincent Kompany, um «aluno» de Guardiola. «Felizmente, o ambiente voltou a ser um pouco mais familiar, pelo que ouvi dizer. Isso deixa-me feliz», concluiu.
Recorde-se que na segunda mão, disputada na Allianz Arena, o campeão da Bundesliga deu a volta à eliminatória ao golear os azuis e brancos por 6-1. Nessa edição da Champions, os bávaros caíram na ronda seguinte frente ao Barcelona (3-5), que viria a erguer a orelhuda.