Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro e Eusébio da Silva Ferreira — dois génios eternos - Foto: Imago
Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro e Eusébio da Silva Ferreira — dois génios eternos - Foto: Imago

Eusébio ou Ronaldo? Os dois!

O privilégio de 'ver' jogar Eusébio, que hoje celebraria o 84.º aniversário, através das palavras de António Simões, o «irmão branco» do Pantera Negra. 'Hat trick' é o espaço de opinião semanal do jornalista Paulo Cunha

Certas perguntas atravessam gerações, resistem às estatísticas, sobrevivem aos títulos e teimam em não ter resposta definitiva. A uma delas, com maior ou menor convicção, já todos respondemos — quem foi o melhor jogador português de sempre, Eusébio da Silva Ferreira ou Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro?

Se olharmos para os registos, CR7 domina em número de golos, de troféus, Bolas de Ouro, recordes internacionais, longevidade ao mais alto nível. Mas, se formos além da matemática, o king continuará a reinar com uma multidão de súbditos aos pés.

Nunca vi Eusébio jogar, exceção a alguns vídeos a preto e branco — quase todos — por entre inúmeros relatos com tanto colorido que parecia estar a assistir ao vivo às proezas contadas por quem testemunhou o poder do Pantera Negra. Já a carreira de Ronaldo segui logo a partir do final da formação no Sporting, quando começaram a surgir os primeiros sinais públicos de genialidade recompensados com a chamada à equipa principal dos leões pela mão do treinador romeno Laszlo Boloni.

Antiga glória do Benfica e da Seleção Nacional, António Simões, 82 anos, o «irmão branco» de Eusébio, como este o apelidava, foi o ilustre convidado do oitavo episódio do Toque de Bola, videocast de A BOLA, no qual revisitámos a vida e obra de Eusébio agora que comemoraria, hoje, domingo, 25 de janeiro, 84 anos. Ouvi-lo falar de um «familiar próximo», olhos a brilhar, uma viagem no tempo em que o futebol foi apenas uma etapa numa longa, longa caminhada lado a lado, emocionou quem o ouvia. Simões evocou um homem simples, generoso, obcecado pela vitória sem querer ser a estrela que indiscutivelmente era, um futebolista que carregava um país inteiro nas costas.

Descreveu-se uma época, uma identidade, um sentimento coletivo que hoje é difícil de replicar, pois, tal como frisou, «Eusébio era um produto da sociedade daquela altura, tal como acontece com Cristiano Ronaldo nos dias que correm».

Eusébio foi o rosto de uma nação que precisava de heróis que trouxessem luz ao período sombrio da ditadura. No Mundial de 1966, em Inglaterra, colocou Portugal no mapa global do desporto-rei, senhor de alegria contagiante misturada com uma fúria que exibia de punho no ar enquanto saltava a festejar como se ainda fosse um menino no bairro de Mafalala, na então Lourenço Marques, hoje Maputo.

Ronaldo, esse, é o produto perfeito da era moderna, profissional até à obsessão, competitivo, incansável na superação dos próprios limites. Eusébio jogou num futebol diferente, num mundo diferente, com regras, contextos e exigências diferentes. Cristiano joga num futebol globalizado, profissionalizado, monitorizado ao detalhe por GPS e outras tecnologias de ponta.

Não precisamos de escolher um entre eles. Precisamos, sim, de agradecer aos dois, porque, juntos, contam uma bela e intemporal história.