A foto que Marc Márquez publicou nas redes sociais exibindo as marcas de lesão no ombro/braço direitos (D.R.)
A foto que Marc Márquez publicou nas redes sociais exibindo as marcas de lesão no ombro/braço direitos (D.R.)

Eu, Márquez sacrificado, vos ameaço!

A partilha de uma fotografia do braço lesionado é vista não só como um ato de transparência do piloto espanhol sete vezes campeão mundial para os fãs, mas também como uma mensagem clara para os rivais no Mundial de MotoGP

Após insistir que não queria mais falar sobre as limitações físicas que o afetam em consequência de lesões causadas por incontáveis quedas durante a carreira, Marc Márquez publicou há alguns dias uma fotografia que mostrou ao mundo o estado debilitado do ombro direito, no que foi claramente uma mudança de estratégia intencional.

A recente publicação, no Instagram, onde o piloto espanhol exibe o ombro e braço direitos, não foi um ato espontâneo. Quem trabalha de perto com o nove vezes campeão mundial sabe que nenhuma das ações que pratica é deixada ao acaso, especialmente no que toca à imagem pública, gerida pela empresa de que é proprietário, a Vertical. A fotografia, que revela as marcas de sete cirurgias nos últimos seis anos, representa uma clara mudança de rumo na comunicação.

A partilha de uma fotografia do braço lesionado é vista não só como um ato de transparência para com os fãs, mas também como uma mensagem clara para os adversários. A imagem revela o estado físico do piloto que, recorde-se, venceu quatro das últimas seis corridas, incluindo três vitórias duplas, e recuperou 66 pontos para o líder do campeonato.

Esta decisão de expor a sua condição física contradiz a postura que o piloto vinha a adotar ao longo do ano. «Quero tentar não falar do meu braço porque é o que é, e tenho de correr com ele», afirmou Márquez em várias ocasiões, numa tentativa de evitar que o tema dominasse as atenções mediáticas. A publicação vai, no entanto, na direção oposta a esse desejo de virar a página.

A imagem de Marc Márquez que tem corrido mundo do desporto motorizado... e não só (D.R.)

A nova estratégia começou a ser delineada duas semanas antes, em Silverstone, um circuito que se tornou kriptonite para super-Márquez. Apesar de ter aproveitado a pausa de verão para recuperar o braço, a resposta do corpo ao regressar à competição no Grande Prémio da Grã-Bretanha foi pior do que o esperado.

No sábado, após terminar a corrida Sprint em nono lugar, a quase 14 segundos do vencedor Jorge Martin, descreveu a sua dificuldade: «No Sprint, normalmente sais e dás o máximo do início ao fim, como na qualificação. Por alguma razão, desta vez não consegui». No domingo, questionado se o sétimo lugar na corrida principal se devia à limitação do braço, Márquez continuou a desviar o assunto. «A razão sou eu; é o que é, e tenho de geri-lo. É uma questão de resistência», afirmou.

Contudo, a verdadeira dimensão do sacrifício só foi conhecida publicamente na quarta-feira seguinte, através de um vídeo da Ducati. Ao chegar à garagem, Márquez confessou aos engenheiros: «Estive perto de cair porque não tinha controlo sobre o braço direito». Questionada sobre o porquê de não ter sido tão explícito com os jornalistas, uma fonte próxima do piloto de Cervera, citada pelo Motorsport.com, foi clara: «Porque o Marc não dá desculpas, especialmente em público».

Foi em Silverstone que Márquez começou a aceitar a nova realidade. A intenção sempre foi eliminar a desculpa física da equação, mas percebeu que a influência do ombro no desempenho é demasiado significativa para ser ignorada. «O Marc aceitou que as pessoas vão continuar a perguntar-lhe sobre o braço e ele quer ser transparente. Quer que as pessoas vejam o que ele vê todos os dias ao espelho e que tenham uma ideia do que realmente existe. Não é uma desculpa; é a sua realidade», explicou a mesma fonte.

Marc Márquez tem reduzido a desvantagem para o líder do campeonato de MotoGP, Jorge Martín

O impacto desta limitação irá variar de circuito para circuito, mas é certo que o potencial do piloto principal da Ducati será reduzido em algumas pistas, um fator relevante na luta pelo campeonato contra adversários como Martín e Bezzecchi, que guiam a competitiva Aprilia.

Samuel Antuna, cirurgião de confiança de Márquez, confirmou a gravidade da situação numa entrevista ao El Periodico. «O braço direito do Marc está muito limitado em termos de força, particularmente na zona do bíceps. Acho que a expressão de que o Marc está a correr com um braço e meio se ajusta à condição atual do seu braço direito», declarou o médico, que também referiu o choque que o piloto sentiu na Grã-Bretanha ao perceber que a margem de melhoria era menor e mais lenta do que antecipara. «Ele ainda está a recuperar e há margem para melhorar, porque a última cirurgia foi há apenas três meses, e o bíceps continuará a melhorar», explicou, citado pelo Motorsport.com.

Marc Márquez venceu com enorme domínio o recente Grande Prémio de Aragão

Apesar de a recuperação de uma lesão ser mais lenta aos 33 anos do que aos 22, Marc Marquez continua totalmente focado em conquistar o décimo título mundial, que seria o oitavo na categoria de MotoGP. A garantia é dada por Antuna, que sublinha a resiliência do piloto. «Não se recupera à mesma velocidade ou da mesma forma aos 33 anos como se recupera aos 22. O Marc vai demorar um pouco mais a melhorar, mas está habituado às dificuldades. Nunca ninguém lhe deu nada de graça», explicou Antuna.

Apesar da ambição, Marquez já afirmou publicamente que está tranquilo com a carreira e que um eventual fracasso na busca por mais um título não seria um drama. O piloto tem reiterado esta posição em diversas ocasiões. «Já estou em paz comigo mesmo depois de ter sido novamente campeão do mundo no ano passado. Mais um título não vai mudar a minha vida», afirmou.

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