Paulo Fonseca - Foto: IMAGO

Quatro anos depois, o drama do 29.º andar e a fuga de Kiev

Mulher de Paulo Fonseca é ucraniana e treinador estava na capital quando a Rússia iniciou os bombardeamentos, em 2022

— Agora, quatro anos depois, a frio, quer recordar-nos a sua vida em Kiev, quando a Rússia invade a Ucrânia? A sua mulher é ucraniana e estava na capital.

— Estava também com o meu filho. E continuo a ter uma grande dor sempre que falo sobre isto. Foram dias extremamente difíceis para mim. Inesperados, porque ninguém acreditava que aquilo iria começar e que iria estar lá no preciso momento em que as primeiras bombas caíssem na Ucrânia. Foi um momento de pânico, de algum descontrolo emocional. Estava em casa e vivo no 29.º andar. O impacto é às 5 da manhã e eu tinha marcado voo para as 10 horas. E começa nessa madrugada. Eu e a minha mulher ficámos até as 3 horas a preparar as coisas para virmos para Portugal, o voo era às 10 horas e às cinco e tal começamos a ouvir as bombas a cair. A primeira preocupação foi sair dali, já que vivemos num piso muito alto e tentar sair da cidade em direção à Polónia, à Moldávia. Mas naquela altura foi impossível. Foi impossível sair de Kiev e eu tive de permanecer lá mais alguns dias, até que com a ajuda da Embaixada de Portugal conseguimos sair. Mas foram dias muito difíceis que eu a minha família jamais esqueceremos. Conseguimos trazer a família da minha esposa para Portugal, vivem cá há quatro anos. Acabaram por sair na altura em que nós saímos. Agora temos lá amigos, muitos amigos, e não há dia algum em que a primeira coisa a fazer não seja ver as notícias. Neste momento, há uma capacidade de resposta que não é de ignorar por parte dos russos. A Ucrânia já consegue entrar na Rússia e eu acho que de alguma forma isto pode acelerar o processo de paz. Sonho muito com esse dia, de poder voltar à Ucrânia com a minha família. O meu filho fala disso, o pequenino nunca lá esteve. Não nasceu lá. Vamos regressar, só não sabemos quando.

— Trabalhou com o Diogo Jota no P. Ferreira. Choque tremendo, imagino, receber a notícia da morte dele.

— Tinha 18 anos quando trabalhou comigo. E é um bocadinho difícil falar do Diogo. Não posso dizer que tivesse uma relação muito profunda com ele, mas em Milão tive a felicidade de estar com ele e ofereceu-me uma camisola dele. Recordo aquele entusiasmo que havia até dos pais, lembro-me de que a mãe sofria muito com ele cada vez que ele caía nos jogos. Ele era um miúdo muito inteligente, mas super humilde, bem disposto e fez sempre uma carreira com muita humildade, com muita dedicação. Era difícil não gostar daquele miúdo, era difícil não o admirar. E não é por ter acontecido o que aconteceu. Acho que é a opinião de toda a gente. E, enquanto futebolista, jogador de equipa, era incrível, o que ele trabalhava para a equipa. É um momento muito triste e às vezes até custa a acreditar. Ele e o irmão. É com muita pena que recordo o que aconteceu. Mas eu prefiro guardar dentro de mim aquele sorriso, aquele entusiasmo que ele tinha. Prefiro ter isso comigo.

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