Escândalo de abuso e assédio sexual na Argentina já tem oito denúncias
Três novas denúncias públicas juntam-se às cinco que já tinham sido apresentadas à FIFA contra o treinador argentino Diego Guacci. As jogadoras relatam um clima de intimidação por parte de Guacci e da sua esposa, que as processaram judicialmente.
O número de jogadoras que acusam o treinador argentino Diego Guacci de assédio e abuso sexual subiu para oito. Aos cinco casos já denunciados à FIFA em 2021, juntaram-se agora mais três testemunhos públicos, apresentados durante o evento «A voz na primeira pessoa: falam as jogadoras», realizado no Senado da Nação, na Argentina.
OTRAS 3 JUGADORAS HABLARON CONTRA EL DT DIEGO GUACCI Y YA SON 8 LAS MUJERES QUE LO DENUNCIAN POR ACOSO Y ABUSO SEXUAL
— Clarín (@clarincom) May 4, 2026
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Las nuevas denuncias se hicieron públicas en el Senado y suman testimonios de situaciones de abuso sexual, psicológico y hostigamiento. Las… pic.twitter.com/fX3cZYb8VA
Durante o encontro, que durou duas horas, futebolistas e jornalistas desportivas relataram situações de abuso sexual, psicológico e assédio por parte de Guacci, revelou o Clarín. Recorde-se que, há quatro anos, a FIFA decidiu não sancionar o treinador, que na altura orientava as seleções femininas sub-15 e sub-17 da Argentina.
🔴5 futbolistas denunciaron acoso y abuso por parte de su exentrenador.
— C5N (@C5N) April 1, 2026
🗣️"Diego Guacci está casado con Andrea, quien hace campaña contra falsas denuncias de acoso."
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Aldana Videla Quintana, jogadora do Platense, foi uma das que quebrou o silêncio. «Ele assediava-me por causa da minha sexualidade, em cada treino repetia que o meu rendimento dependia de eu estar ou não com a minha parceira. Fazia-me entender que para estar na seleção tinha de ter os mesmos ovários que tinha para demonstrar a minha sexualidade publicamente, como se ser lésbica fosse mau. Mandava-me tomar banho sozinha, longe da equipa, num balneário gigante onde eu tinha medo que me acontecesse alguma coisa», contou.
Outro testemunho forte foi o de Florencia Mercau, jogadora do Morón, cujas palavras foram lidas pela advogada Andrea Lucangioli. «Quando cheguei ao River tinha 20 anos. O Diego Guacci assediava-me, pedia-me fotos nua e, se eu não as enviasse, não jogava. Dizia-me que, se eu contasse alguma coisa, me procuraria por céu e terra para me matar. Tive de deixar aquele clube que tanto amo por medo». A advogada explicou que a jogadora não esteve presente «pelo medo que ele lhe provoca» e revelou que Mercau «teve uma tentativa de suicídio e ainda não recuperou do que ele lhe fez».
Otras 3 jugadoras hablaron contra el DT Diego Guacci y ya son 8 las mujeres que lo denuncian por acoso y abuso sexual https://t.co/ggnc70YX6J
— PRIMICIA VIRTUAL ORIGINAL (@fernandez_17230) May 4, 2026
Mabel Velarde, internacional pelo Equador, também falou: «Decidi falar ao fim de onze anos, faço-o pelas meninas, pelas novas gerações, pelas mulheres. É muito importante que existam processos de reparação, processos restaurativos e que as pessoas que transgridem limites possam assumir a responsabilidade pelas suas ações».
As denúncias originais, apresentadas em maio de 2021 através do sindicato mundial de futebolistas (FIFPRO), continham frases atribuídas a Guacci como «És capaz de te deixares violar para chegar à Seleção», «És uma fracassada. És horrível, gorda» e «Se voltarem a jogar assim, meto-vos nos chuveiros e f#%@*-vos pelo r@5€».
Ya son 7 la exjugadoras que contaron en el Senado lo que les hizo el exDT Diego Guacci, el lobbista detrás de la ley contra las "falsas denuncias" que impulsa la senadora de la UCR Carolina Losada. https://t.co/IGWyhDk5XR
— Gabriela Pepe ⭐️⭐️⭐️ (@gabyspepe) April 30, 2026
Segundo a advogada Lucangioli, apesar de os nomes das denunciantes não constarem no processo, Guacci descobriu as suas identidades e tornou-as públicas. «Ele e a sua esposa processaram quatro delas por danos e prejuízos, exigindo 25 milhões de pesos a cada uma. Não processaram a quinta jogadora porque ela tem muita documentação comprometedora no telemóvel, como fotos e mensagens que ele lhe enviava», explicou, acrescentando que quatro jornalistas desportivas também foram processadas pelo mesmo valor por terem noticiado o caso.
Luana Muñoz, jogadora do Club Belgrano de Córdoba e uma das primeiras denunciantes, afirmou no Senado que Guacci «representava um perigo muito grande» para as jovens da seleção e «para todas as mulheres e dissidentes que queiram participar no futebol profissional».
Acoso y abuso en el fútbol femenino: el crudo testimonio de las jugadoras que denunciaron a Diego Guacci https://t.co/N4kwuJVG3C pic.twitter.com/pNeobdcU3X
— Observa 360 (@Observa360) April 1, 2026
Gabriela Garton, ex-guarda-redes da seleção argentina, lamentou a revitimização. «Em vez de se procurarem formas de castigar as vítimas, é preciso encontrar formas de facilitar as denúncias, facilitar o processo e acreditar nas vítimas», defendeu.
Camila Gómez Ares, jogadora do Boca Juniors, concluiu com um apelo: «A mensagem que estão a passar é triste e perigosa: se falares, vais acabar pior do que estavas. Não podemos permitir que o futuro do futebol feminino seja o silêncio por medo».
Um grupo de jogadoras avançou com processos por calúnia e difamação contra o treinador Guacci, acusando-o de orquestrar uma campanha de intimidação após uma queixa de assédio ter sido arquivada pela FIFA por falta de provas. As atletas alegam que o técnico e a sua esposa estão a usar o caso para promover um projeto de lei contra «falsas denúncias», com o objetivo de silenciar futuras vítimas.
A origem do conflito remonta a 2018, quando várias jogadoras, ao saberem que Guacci assumiria o comando das seleções jovens femininas (Sub-15 e Sub-17), decidiram formalizar uma denúncia devido a comportamentos anteriores que consideravam perigosos. Após o Mundial de 2019, com o apoio da FIFPRO, foram recolhidos testemunhos de cerca de 20 mulheres que relatavam situações de assédio e abuso. No entanto, por receio de represálias profissionais e danos psicológicos, apenas cinco decidiram avançar.
🚫 Varias futbolistas de la selección femenina de fútbol de Argentina han rompido el silencio públicamente para relatar casos de acoso, hostigamiento y abuso que habrían sufrido por parte del entrenador Diego Guacci durante su paso por clubes como River Plate, UAI Urquiza y… pic.twitter.com/uJfHOnSyOA
— Pulso Latam (@PulsoLatam) April 1, 2026
O caso foi inicialmente analisado pelo Comité de Ética da FIFA, que recomendou uma sanção para o treinador. Contudo, a decisão final, tomada pela Câmara Adjudicatória, considerou as provas «insuficientes». É importante notar que as jogadoras não puderam recorrer desta decisão, uma vez que, nos processos administrativos internos da FIFA, não são consideradas «parte» no processo, sendo representadas pelo sindicato.
O relatório final da FIFA, com 40 páginas, ressalva explicitamente que a conclusão não deve ser interpretada como um reconhecimento da inocência do treinador nem como uma declaração de que este agiu em conformidade com o Código de Ética do organismo. As jogadoras e a sua advogada sublinham que, por se tratar de um processo administrativo e não judicial, termos como «absolvição» não se aplicam.
Por sua vez, o treinador Guacci defende-se, afirmando que as acusações fazem parte de uma «rede de falsidades» criada para arruinar a sua carreira e que tanto ele como a sua esposa são «vítimas de falsas denúncias». A sua mulher é, aliás, a principal impulsionadora de um projeto de lei contra «falsas denúncias», apresentado pela senadora Carolina Losada, o que as jogadoras veem como uma manobra para desacreditar as suas queixas.
Desde que a denúncia foi formalizada, as atletas afirmam ter sido alvo de «assédio, ameaças e campanhas de difamação» nas redes sociais por parte do círculo próximo do treinador. Em resposta, as jogadoras Luana Muñoz, Aldana Cometti e Camila Gómez Ares processaram Guacci por calúnia e difamação, por as ter usado como exemplo no referido projeto de lei no Senado e por uma campanha online liderada pela sua esposa.
¿Conocen el caso de las jugadoras de la selección Argentina de fútbol q denunciaron a su entrenador Diego Guacci ante la AFA y la FIFA por “maltrato a menores” e “inconducta sexual”? ¿sabían q hay un vínculo entre ese caso aberrante y el proyecto de denuncias falsas de Losada?👇 pic.twitter.com/TmpJwCxtaz
— Mujeresnofuerontapa (@mujeresquenofu1) May 2, 2026
A jornalista Agustina Vidal também avançou com um processo pelos mesmos crimes, por ter sido acusada de pertencer a uma «rede criminosa» contra o casal. Segundo a sua advogada, o trabalho das jornalistas limitou-se a «relatar o que a FIFA tinha feito e a expressar o seu desacordo».
A advogada acrescentou ainda que Florencia Mercau irá processar criminalmente Guacci por assédio, alegando que, após a sua história ter sido lida no Senado, o treinador acedeu ao seu perfil de Instagram «claramente como forma de ameaça», o que a deixou «em choque» e lhe provocou ataques de pânico.
«Estão claramente a usar o poder para atingir outro objetivo, para que as vítimas que ganham coragem pensem dez vezes antes de denunciar, para que o preço a pagar seja caríssimo», afirmou Agustina Vidal, uma das jornalistas processadas por Guacci e pela sua esposa.