Estádio Azteca (agora denominado Estádio Cidade do México), já foi palco de jogos em três edições do Campeonato do Mundo: 1970, 1986 e 2026 - Foto: IMAGO

Bússola da nossa vida

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Duarte Chastre, consultor de comunicação

Existem várias formas de nos relembrarmos de um ano em específico. De como era a nossa vida, onde estávamos, que cargo ocupávamos, se já tínhamos saído de casa ou apenas de um dia memorável. A minha chama-se futebol. É um retrato fiel do meu crescimento, de todas as fases de vida e, invariavelmente, a memória (seletiva ou não) da minha felicidade está diretamente associada a um resultado desportivo.

O Mundial é o expoente máximo desta realidade. A Copa do Mundo, como dizem os brasileiros, trilha a nossa vida de forma espontânea, funcionando como uma chamada de aviso à navegação de quatro em quatro anos. Obriga-nos a refletir sobre a nossa própria evolução, enquanto nos debruçamos em discussões quase filosóficas sobre as mudanças do jogo e as suas implicações. Todos os Mundiais trazem novidades que assustam e trazem ao de cima todos os impulsos de velhos do Restelo existentes no nosso corpo.

Temos aversão em tocar no que para nós é sagrado. Não é a mudança dentro do relvado que nos preocupa, mas sim a nossa conceção do desporto que nos apaixonou no Mundial exatamente anterior.

É a competição da nostalgia, porque não há ninguém que não se recorde do seu primeiro Campeonato do Mundo. É uma marca que fica e que podemos repetir em loop sem necessidade de recorrer à internet. No meu caso, tenho gravado na cabeça a imagem de Zidane a cabecear violentamente Materazzi numa tarde em Berlim, onde ainda não sabia o que era a Alemanha, mas já sabia o que era o desporto-rei.

Este fenómeno que funciona como educador cultural que nos permite desde criança querer saber mais sobre os países organizadores, conhecer as cidades através dos nomes dos clubes e fazer uma associação direta entre 2010 e África do Sul.

Uma paixão que encontra sentido global durante um mês e nos ajuda realmente a avaliar o estado de maturidade da nossa vida. O Mundial das vuvuzelas coincide com o início da minha consciência desportiva e política.

Na verdade, sempre as associei e para mim vivem de mão dada. Era a crise internacional que chegava a Portugal, Jorge Jesus a revolucionar no Benfica e a minha professora de Inglês — a sul-africana Miss Diane — a fazer-me mergulhar na cultura do país de Mandela, pincelado pela primeira vez que ouvia falar no apartheid.

O golo de Siphiwe Tshabalala — esse nome tão difícil de pronunciar e impossível de esquecer — que me entrou nos poros como um grito de um país tantas vezes neglicenciado. O primeiro não se esquece. Da busca incessante do golo de Ronaldo à Coreia do Norte à mão kamikaze de Suárez ao Gana, ficam momentos icónicos vividos sob o véu da idade que temos quando os assistimos.

É ela que molda a nossa perceção e a intensidade com que vivemos cada momento, como aquela tarde de 11 de Julho de 2010, onde vi aquele golo de Iniesta num campo de férias de surf na costa alentejana. A vitória espanhola custou-me ainda mais depois da dolorosa eliminação da nossa Seleção às mãos do pico do tiki taka, que teve de se socorrer do fora de jogo do golo de Villa.

É no Mundial que vivemos o sabor das primeiras injustiças. Recordo-me sempre do meu pai me contar desde cedo de como o país — quando chegar lá era uma miragem — sofreu com o Brasil de 82 e com a picada mortífera de Itália, que afastou uma das melhores seleções da história da glória. Puxando a fita 4 anos à frente, é o teletransporte para uma vida que não vivi e para o Azteca que já visitei sem lá ter colocado os pés.

Quando o vi no jogo de estreia desta edição, a cabeça foi imediatamente para a voz de Victor Hugo Morales a relatar o tricotar de Maradona pelos jogadores ingleses num golo que serviu para vingar uma guerra e confirmar a justiça poética da Mão de Deus minutos antes. Não consigo descrever racionalmente este fio mental que se forma na minha cabeça, permitindo associações que só fazem sentido porque existe Mundial.

2014, 2018, 2022 e 2026 transformaram-se em anos redondos e de significado indiscutível. São adolescência, os primeiros exames nacionais a contar, a liberdade da universidade e, finalmente, o primeiro ano completo de trabalho.

É a minha vida ao ritmo da redondinha, onde os ídolos que escolhi na infância vão também crescendo e desaparecendo, fascinando e desiludindo. São as histórias que nos marcam, onde Vozinha deixa de ser o veterano guarda-redes do Chaves para passar a herói mundial, fazendo-nos coletivamente acreditar no sonho do elevador social que pode ser o futebol.

E, é por isso, que nunca alinhei particularmente naquele discurso que surge ciclicamente e que nos pede para não deixarmos que o Mundial nos distraia dos problemas do mundo. Como se a paixão pelo futebol exigisse uma suspensão do pensamento crítico ou uma neutralidade impossível perante aquilo que nos rodeia. O futebol nunca precisou dessa autorização. A abstração dos 90 minutos é uma das suas maiores virtudes e sempre existirá. Não é preciso pedi-la.

O que o Mundial faz é precisamente o contrário: obriga-nos a contextualizar o tempo em que vivemos. Daqui a décadas, dificilmente nos lembraremos dos vencedores dos agora 12 grupos ou dos marcadores dos oitavos de final. Mas saberemos exatamente onde estávamos. Recordaremos o país que discutia determinados temas, a cidade onde vivíamos, as pessoas que estavam à nossa volta e as preocupações que carregávamos. O Mundial funciona como um marcador temporal, uma espécie de termómetro que nos permite medir a nós próprios.

Em 2030 e em Portugal, quero ser capaz de descrever este Mundial 2026 sem começar pelo vencedor. Quero dizer que foi o Mundial do primeiro ano completo de uma nova fase da vida, de novas responsabilidades, de novas rotinas e, depois sim, da tão esperada conquista. Quero que seja o Mundial que associo imediatamente a uma palavra ou estado de espírito.

É essa a beleza desta competição. Enquanto os jogadores lutam por levantar o troféu mais desejado do planeta, nós vamos silenciosamente construindo o nosso próprio álbum de memórias. A taça vai mudando de geografia. As recordações, essas, vivem em todo o lado. São a bússola da nossa própria vida.

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