«Entra-se num elevador e a conversa é sobre o tempo ou sobre o Ronaldo»
A 75 dias do início do Mundial, Roberto Martínez prepara a Seleção Nacional para os primeiros dois jogos de preparação, frente aos coanfitriões México e Estados Unidos. O técnico espanhol, que lidera uma equipa recheada de estrelas e um dos maiores de sempre, Cristiano Ronaldo, assume a ambição de conquistar o tão desejado troféu.
Inspirando-se numa citação histórica de Otto Glória antes do Mundial de 1966, Martínez adota uma filosofia otimista. «Ele disse: ‘Deixem-nos sonhar’, e eu acho isso adorável. Por que não abraçar a expectativa agora? Construir esperança? Por que não assumir essa responsabilidade? Se as pessoas pensam que esta equipa pode ir longe, vamos em frente com isso», afirmou em entrevista ao The Guardian.
O selecionador mostrou-se fascinado com a cultura futebolística nacional. «Portugal é uma escola de futebol. Dez milhões de pessoas e, ainda assim, enchem os melhores balneários do mundo», elogia. Martínez destaca a mentalidade de «navegador» do português, «pronto para partir, aprender línguas, aberto e a olhar para a Europa», o que contribui para um desenvolvimento que nos torna «ultracompetitivos, mas respeitosos».
O técnico elogia ainda a estrutura de formação em Portugal, que permite um desenvolvimento exemplar de talentos. «A estrutura significa que, dos 15 aos 23 anos, há oito jogadores por posição a seguir a mesma metodologia de elite. Pedro Neto, Vitinha, João Neves e Renato Veiga chegaram todos ao 11 desde que chegámos: esse nível de desenvolvimento é exemplar», explicou.
Cristiano Ronaldo
Roberto Martínez abordou ainda a sua relação com os jogadores e a importância de Cristiano Ronaldo na equipa, sublinhando que as decisões sobre o capitão se baseiam no seu rendimento atual e não no seu passado histórico. Questionado sobre quantos jogadores nomearam CR7 como ídolo, Martínez sorriu, admitindo que alguns o fizeram, embora não se recorde de quem. O selecionador destacou a longevidade e o impacto do capitão.
«É tão, tão especial, único, ter um jogador que deu 21 anos à seleção nacional.» Martínez usou o exemplo de Carlos Forbs, extremo do Club Brugge, que «nasceu em 2004, quando Ronaldo já estava na seleção», para ilustrar como as gerações mais novas se inspiram no que o avançado «dá todos os dias».
Apesar de uma lesão muscular afastar Ronaldo dos próximos particulares, Martínez está confiante de que a paragem de duas semanas não é motivo de preocupação. O treinador revelou que, ao visitar o jogador, quis saber como ele se sentia, notando que, ao contrário de outros jogadores com mais de 30 anos que podem ver as pausas internacionais como um descanso, a atitude de Ronaldo é sempre de total disponibilidade: «'Estou aqui para a seleção, para o que precisares'».
Martínez rejeitou a ideia de que deveria ter iniciado uma nova era na seleção afastando o capitão. «Não, não», afirmou, discordando da premissa. Para o técnico, o debate em torno de Ronaldo é inevitável, mas muitas vezes baseado em perceções desatualizadas. «Temos de aceitar que há um debate, porque só há um Ronaldo, um ícone histórico que mudou o futebol. Entra-se num elevador e a conversa é sobre o tempo ou sobre o Ronaldo», comentou.
«O maior erro que as pessoas cometem é não o analisar hoje. Depois do Euro dizia-se: ‘Portugal não ganhou porque o Cristiano está a jogar’. Ganhamos a Liga das Nações e é: ‘O que fará Portugal quando Ronaldo se retirar?’» O selecionador acredita que a retirada de um jogador é uma decisão mental, não física, e que «a cabeça de Cristiano não tomou essa decisão aos 40, 41 anos».
Martínez vê Ronaldo hoje como «um número 9, na área», fundamental para «abrir espaços e marcar golos», e não como o extremo do Manchester United ou do Real Madrid. Os seus números recentes na Seleção, com 25 golos em 30 jogos, são prova do seu mérito. «Eu avalio o talento, a experiência, a atitude de hoje, e as decisões nunca são tomadas num escritório; são tomadas no relvado, é o futebol que as toma», atirou.
O sonho do Mundial
Olhando para o futuro, nomeadamente o Mundial, Martínez salientou a importância de criar uma equipa resiliente. «Uma equipa vencedora é construída. É preciso gerir momentos difíceis», afirmou, acrescentando que o erro pode ser «não assumir o risco, a responsabilidade». O objetivo é criar um ambiente onde o grupo protege o indivíduo, mesmo perante um erro que «pode marcar uma carreira».
O técnico espanhol afastou a ideia de ansiedade em torno da conquista do Mundial, preferindo falar em «entusiasmo e esperança». «Isso faz com que o povo português se sinta bem», concluiu, reconhecendo, no entanto, a dificuldade da tarefa: «Sabemos que nunca ganhámos o Mundial, isso diz-nos que é difícil.»
Martínez sublinhou a importância de manter uma atitude sonhadora, apesar de reconhecer as dificuldades do futebol. «Sabemos que as coisas podem mudar rapidamente, que o talento por si só não é suficiente, que os pequenos detalhes podem jogar contra nós e, claro, é um golpe duro quando não se tem sucesso, mas deixem-nos sonhar. Acho que podemos. E essa é a atitude que quero que a nossa equipa tenha», concluiu.
Superstições...
Roberto Martínez, selecionador nacional, revelou uma faceta curiosa ao admitir o seu gosto pela numerologia, utilizando-a como um fator de motivação para a equipa portuguesa. O técnico espanhol, embora afirme não ser supersticioso, encontra nos números uma razão para acreditar.
«Não sou supersticioso, mas gosto de numerologia. E isto comigo a nascer a 13 de julho», confessou Martínez, que encara a data, uma sexta-feira, de forma positiva, contrariando a ideia de azar que lhe era apontada em Inglaterra. «Em Inglaterra diziam sempre: 'Uau, que azar!', 'Que dia'. Não! Eu gosto», afirmou entre risos.
O selecionador estendeu o seu raciocínio a marcos históricos do futebol português, traçando paralelos com o número seis. «É encantador pensar no Euro 2016... Eusébio: melhor marcador em 66, Bola de Ouro em 65... 60 anos desde o seu Mundial. 2026. São tudo seis. Vamos sonhar. Por que não?», questionou.