Momento insólito e de boa disposição durante declarações do selecionador nacional. Conferência esteve interrompida durante algum tempo e Roberto Martínez brincou: «Não vou cantar»

Dua Lipa, Mariza e Ronaldo e ainda a raiva, as tempestades e a escolha de Miami (tudo o que disse Roberto Martínez)

Longa conferência de imprensa do selecionador nacional. Foco total no jogo com a Colômbia, sem distrações nem ruídos do passado recente

-Que análise faz a este jogo com a Colômbia, terceiro e último do Grupo K?

- Num torneio como o Mundial, não há caminho certo nem posição certa. O importante é chegar ao melhor nível dentro do balneário, e isso só se consegue atingir depois de ganhar o jogo. Portanto, o foco é respeitar muito a Colômbia. Eles têm um desafio diferente ao nível tático em relação aos jogos que tivemos anteriormente, mas, para nós, o foco é dar continuidade àquilo que fizemos durante o segundo jogo, tentar melhorar aspetos que precisamos de melhorar e utilizar os três jogos, como já falei antes do torneio, para poder preparar o segundo Mundial.

-Sente que este jogo com a Colômbia vai servir de afirmação, depois das críticas após o jogo com o Congo e da goleada ao Uzbequistão?

-Já tivemos tempo para falar disso: o barulho, as críticas... O nosso foco é de muita concentração e responsabilidade para atingir o nosso melhor. Foi muito positivo para nós, durante o segundo jogo, o momento de marcar o primeiro golo; continuámos a controlar o jogo todo, o que no primeiro jogo não conseguimos fazer. Não é só o aspeto tático ou o aspeto técnico, eu acho que o aspeto psicológico de gerir um jogo num Mundial é muito importante, e nós controlámos as emoções muito bem. Com a Colômbia precisamos de fazer isso. Será, provavelmente, o primeiro jogo neste Mundial em que jogamos fora de casa, pois em Miami há um número muito elevado de adeptos a torcer pela Colômbia, então também é um bom desafio para nós sentirmos que podemos controlar o jogo, que podemos ser nós mesmos nesse ambiente e controlar as emoções.

- Luis Suárez, depois de dois jogos como titular, pode não ser titular frente a Portugal. Que altera isso nas suas ideias?

-Primeiro, importa dizer que a Colômbia é uma equipa que acredita muito naquilo que faz. Acho que o trabalho do treinador Néstor Lorenzo, já acima dos 40 jogos, tem uma continuidade e uma clareza de ideias; não importa tanto o jogador que joga, é mais a ideia de jogo. É uma equipa que consegue jogar com bola, com boa posse de bola, porque tem jogadores como o James ou o Quintero, que jogam entrelinhas e que podem utilizar as zonas centrais. Também é, provavelmente, uma das melhores equipas na transição com o Luis Suárez e com o Luis Díaz, e depois há a finalização do Luis Suárez, mas há outros jogadores que o conseguem fazer. Falar da Colômbia é falar de uma ideia, de uma estrutura tática muito bem trabalhada pelo selecionador, e não importa tanto o aspeto de se joga o Luis Suárez ou não. A equipa está apurada e acho que, dentro de um torneio assim, gerir o balneário e o aspeto físico dos jogadores é importante. Portanto, não será uma surpresa se algum dos jogadores que estiveram nos onzes iniciais dos dois primeiros jogos não jogar, mas isso não altera a ideia e o potencial desta equipa.

-A preparação para este jogo terá sido um bocado atípica. Só vai ter um treino a sério hoje, os outros dois não foram bem treinos. E o facto de a tempestade ter afetado o treino de Portugal pela segunda vez leva-o a pensar que a Flórida não foi exatamente o melhor sítio para Portugal estagiar…

- Boa pergunta, mas acho o contrário. A preparação para o jogo da Colômbia já começou em março, com aquilo que encontrámos quando estivemos no México. Já tivemos três treinos em Miami para nos podermos adaptar ao clima. O planeamento antes do Mundial era ficar em Miami para preparar o jogo contra a Colômbia, porque os jogos em Houston, num estádio fechado e com uma relva diferente, precisavam de uma preparação diferente. Fizemos isso para o jogo com a Colômbia. Já tivemos três treinos, três ativações, os jogadores estão preparados para o aspeto físico, e o desafio é jogar numa relva diferente daquela em que jogamos na Europa. Tudo aquilo que planeámos foi preparado desde o primeiro dia em que chegámos aos Estados Unidos. Então, é o contrário: se há um jogo que tivemos tempo para preparar, foi este. As tempestades serviram exatamente o que nós queremos: prepararmo-nos para o inesperado, reagir bem e utilizar o tempo. Não estar no campo de treino não quer dizer não poder trabalhar e preparar o jogo. Fizemos isso muito bem, fiquei muito, muito contente com a equipa de apoio e com as condições que tivemos. Agora acho que estamos perfeitamente preparados para o jogo de amanhã, porque é um jogo que preparámos com um maior número de dias. Não foi começar a preparar o jogo da Colômbia depois do segundo jogo, foi o oposto.

- Tendo em conta as alterações que fez no último jogo e até o impacto positivo da entrada do João Félix no apoio ao Cristiano Ronaldo, podemos esperar um onze inicial mais próximo daquilo que vimos no último jogo contra o Uzbequistão?

-A ideia é ter todos os jogadores preparados. Acho que agora estamos numa altura em que a equipa pode fazer duas ou três substituições ao intervalo e continuar ao mesmo nível tático e ao mesmo nível de qualidade técnica. Essa é a força do nosso balneário: os jogadores estão preparados quando começam no onze inicial para dar tudo, e quando estão no banco estão preparados para fazer a diferença. Na nossa equipa, a palavra ‘substituição’ já não existe. Este jogo é muito importante. Vamos preparar o treino e avaliar como estão os jogadores. Posso dizer que todos os 27 jogadores estão aptos para o treino, o que é muito importante. E a ideia tática precisamos de a ajustar; há aspetos importantes de respeito pelo adversário, mas também o mais importante é podermos ser nós mesmos num ambiente diferente e contra uma equipa diferente amanhã.

- Não há o risco de a "raiva" ter desaparecido e voltar ao nível do primeiro jogo? Alerta os jogadores para esse facto?

- Não. O grupo está num equilíbrio muito bom. Quando falo de equilíbrio, significa que quando estamos juntos no campo de treino podemos trabalhar em tudo, inclusive na parte de ganhar confiança. O nosso desempenho durante o segundo jogo deu-nos isso: muita confiança e muita força para acreditar naquilo que fazemos, e isso é essencial. O aspeto do foco, da concentração, do esforço e da atitude que já tivemos nos dois jogos continua, e não perdemos isso. A equipa está a crescer constantemente. Não é uma equipa que perde pontos fortes ou qualidades; pelo contrário, estamos a crescer. Contra a Colômbia precisamos de acrescentar a capacidade de lidar com um ambiente diferente. Como é que podemos ter a personalidade para continuar a ser Portugal e mostrar aquilo que queremos fazer no relvado quando o ambiente é diferente daquele que tivemos nos primeiros jogos? Mas não há o perigo de perder tudo aquilo de bom que fizemos durante os dois jogos.

(Interrupção insólita na sala: começa a tocar música ambiente nos altifalantes)

- Não vamos cantar, pois não?  Vamos ter fados da Sara Correia ou da Mariza? A Dua Lipa está a torcer por Portugal...

- Falou várias vezes da questão de haver um Mundial na fase de grupos e outro Mundial depois da fase de grupos. De que forma é que isso tem influência na sua gestão já para este jogo, na gestão dos jogadores e na preparação dos jogos? 

- Para nós é importante poder avaliar os três jogos. Então, com a Colômbia, para nós é continuar com aquilo que fizemos durante os dois primeiros jogos: corrigir, alinhar e utilizar aspetos táticos, e também avaliar todos os jogadores ao nível físico. É um jogo muito, muito importante para nós, ao nível interno, para podermos avaliar o nosso nível. O segundo jogo foi muito importante ao nível de união do grupo e ao nível do aspeto psicológico, mas depois, taticamente, foi um jogo muito bem conseguido. Gerimos o jogo muito bem depois do primeiro golo. Para nós, amanhã é um jogo importante porque queremos ganhar e queremos continuar com tudo aquilo que fizemos. É só depois do jogo que podemos avaliar isto.

- Tem-se falado muito na força de Portugal nas bolas paradas. É possível estar sempre a arranjar bolas paradas diferentes?

- Não posso responder a isso em apenas dois minutos. É um aspeto do futebol moderno; o que acontece nas áreas é essencial. E, nas academias, o desenvolvimento dos jogadores é sempre feito a pensar no espaço entre as áreas. A bola parada é a consequência do bom jogo, porque sem bom jogo não há cantos nem situações de bola parada no último terço. Mas também é muito importante trabalhar a bola parada a um nível de estratégia, a um nível de responsabilidade do jogador e a um nível de qualidade, porque, no fundo, a qualidade do cruzamento é tudo, assim como a intensidade de querer chegar à bola. O Anthony está a fazer um trabalho fantástico. É bom poder marcar golos de bola parada, mas o importante é criar oportunidades de forma consistente, e estamos a fazer isso já há muito tempo. Contudo, não somos uma equipa que pensa em jogar bem apenas para poder utilizar a bola parada, nem somos uma equipa cujo foco seja só manter a baliza a zero e utilizar a bola parada para ganhar um jogo. Não é assim. Mas, quando estamos no último terço, ajuda poder utilizar a qualidade individual que nós temos nos jogadores e a estratégia para aproveitar esses momentos.

- Depois deste jogo com o Uzbequistão, em que golearam, houve uma preocupação sua em lidar com um possível excesso de confiança dos jogadores?

- A nossa avaliação depois de um jogo precisa de ser, primeiro, muito honesta e, segundo, muito racional. E nós continuamos com o mesmo foco. O aspeto racional é importante e o aspeto honesto é muito importante, porque o nível dos nossos jogadores já lhes confere a capacidade de perceber aquilo que acontece no relvado. Para nós, a honestidade e o aspeto racional ajudam a equipa a estar alinhada e a poder executar um melhor desempenho taticamente. Portanto, não é um grupo emotivo, não é um grupo inexperiente; é um grupo que precisa desse aspeto racional e de honestidade.

- Portugal tem prestígio dentro da elite do futebol mundial, ao nível da seleção e da sua liga. Mas tem uma conta pendente: a final do Mundial. Esta geração vai dar uma final a Portugal?

- É preciso entender como se pode chegar a uma final de um Mundial. Para lá chegar, o jogador que representa a seleção tem de estar muito comprometido, tem de dar tudo de si por um grupo e tem de ter o talento para poder ganhar às melhores seleções, e os nossos jogadores demonstram isso. Têm totalmente o compromisso e totalmente o talento, mas agora temos de ir passo a passo. E um dos passos é tentar fazer um bom jogo contra uma seleção como a colombiana, que é muito exigente, que é muito diferente daquelas que já enfrentámos. Estamos muito concentrados no caminho. Não falamos de aspetos muito gerais como ganhar um Mundial ou chegar a uma final; isso não podemos controlar. O que podemos controlar é que sejamos capazes de parar as grandes virtudes desta seleção colombiana, controlar o jogo, ser nós mesmos e tentar ganhar a partida.

- Como imagina que vai jogar a Colômbia? 

-A seleção colombiana é uma equipa muito completa. E, quando digo muito completa, é porque é uma equipa que tem uma grande qualidade entrelinhas — jogadores como o James, como o Quintero, como o Jhon Arias, o Puerta... jogadores que têm uma grande apreciação do espaço e do tempo. Mas, depois, é uma equipa que não precisa da bola para causar dano. É uma equipa que tem uma boa transição, que chega muito rápido; jogadores como o Luis Suárez e o Luis Díaz são rápidos e têm uma grande capacidade de chegar ao último terço. Têm também dois dos laterais mais incisivos do torneio, o Mojica e o Muñoz, portanto não há segredos. Isto demonstra que o técnico trabalha com a seleção como se fosse um clube, com uma clareza tática, com uma grande competitividade entre os jogadores. São jogadores que adoram representar a seleção, são um grande exemplo do que são as seleções dentro de um torneio como o Mundial. O nosso balneário tem um equilíbrio emocional muito bom neste momento porque tem um sentido de responsabilidade e de exigência, até porque estar num Mundial e representar Portugal leva a isso. Mas também há muita confiança, há muita concentração no que queremos fazer e no que queremos executar. Esse equilíbrio emocional é muito importante. Ter a experiência de um capitão com a bagagem de seis Mundiais ajuda muito, mas também temos um grupo de liderança muito importante: estamos a falar do capitão do Manchester United, de dois dos capitães do Manchester City, do capitão do Porto, do capitão do Al-Hilal... Temos um grupo de liderança muito importante. Acho que o equilíbrio emocional entre a responsabilidade e a liberdade para mostrar o que temos está num bom momento.

-Que viu da Colômbia neste Mundial?

- Não há surpresa. A seleção colombiana é sempre uma equipa muito competitiva, já tem aspetos táticos consolidados e é flexível, mas mantém os conceitos táticos muito claros. E ganhar ajuda muito o grupo; vamos encontrar uma seleção colombiana com muita confiança e com muita alegria. Mas não há nenhuma surpresa: do ponto de vista técnico-tático, é a seleção que esperávamos. Cada balneário e cada seleção tem os seus pontos importantes e tem de gerir tudo isso. O que é importante é que a ideia da Colômbia não muda; podem mudar os jogadores, mas a ideia não muda nada. É isso o que faz com que a seleção colombiana tenha sido muito consistente nos últimos largos jogos com o Néstor Lorenzo. Para nós é o mesmo: é importante no Mundial ter o aspeto da competitividade. Nunca vi uma seleção que tenha sempre os mesmos 11 jogadores e que sejam esses 11 jogadores a ganhar um torneio; não funciona assim. Há momentos em que a capacidade competitiva dentro do balneário é necessária. Já vimos que não há jogos fáceis; os jogos podem tornar-se um pouco mais fáceis quando se marca um golo e o segundo golo, mas não há jogos que não sejam bem preparados. Portanto, para nós é sempre uma exigência interna. Estamos muito bem, mas respeitamos muito também a ideia da Colômbia, e aquilo que a Colômbia fizer não nos vai surpreender.

-Portugal pode terminar em primeiro, em segundo ou até em terceiro no Grupo K. Há alguma vantagem em terminar em primeiro?

- Não, não há. Provavelmente no meu primeiro Mundial [2018], eu diria que sim. Uma pessoa senta-se, quer planear tudo com base na experiência, quer tentar prever as viagens, quer encontrar o melhor caminho... E depois percebe que isso não acontece nestas competições. Se bem se lembram, em 2018, nós [Bélgica] e a Inglaterra já estávamos qualificados e fomos jogar o último jogo sabendo que o vencedor iria enfrentar o Brasil. Nós ganhámos contra a Inglaterra e sentimos que a equipa cresceu muito ali. Ganhámos o grupo, depois acabámos por defrontar o Brasil e vencemos, terminando mais tarde em terceiro lugar. O que importa é vencer todos os jogos e ter o melhor ambiente dentro do balneário. A complexidade neste Mundial é grande: há três países organizadores, temos de viajar bastante... Portanto, não há uma jornada que seja melhor do que a outra. Temos de aceitar a complexidade e focarmo-nos no jogo com a Colômbia. O foco é tentar dar o nosso melhor e tentar ganhar.

- Que contributo teve o trio de meio-campo, composto por João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes, para o equilíbrio da equipa?

- Quando cheguei à Seleção Nacional, em março de 2023, o Vitinha não estava na convocatória. Foi fascinante ver o talento jovem a surgir. Depois, chegou o João Neves. Isto mostra que a seleção nacional deve ter sempre uma continuidade. É muito difícil preparar um jogo com apenas três sessões de treino e, se continuarmos a mudar constantemente a equipa, torna-se muito difícil conseguir a sincronização e a execução dos conceitos táticos. Mas, ao mesmo tempo, temos de abrir a porta ao novo talento. Portugal tem 10 milhões de pessoas no país e, todos os anos, produz jogadores para o nível mais alto. A capacidade que Portugal tem de produzir jogadores de grande talento é fantástica, e isso reflete-se no João Neves e no Vitinha. Quando temos jogadores inteligentes, torna-se fácil. O João Neves tem um perfil completamente diferente. Estamos a falar de Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves. São, provavelmente, os melhores jogadores nas suas posições, e são todos diferentes. É um desafio conseguir o equilíbrio e dar-lhes liberdade dentro da estrutura, mas a verdadeira força de usar o talento individual destes jogadores na mesma área do campo é algo fascinante.

-Que significa para si, como treinador, ver os adeptos tão dedicados ao ponto de gastarem tanto dinheiro para conseguirem bilhetes?

- É fascinante. Num momento difícil no mundo, o futebol ainda traz unidade, traz paixão e traz inspiração para as crianças. Traz todos os valores que queremos ver: inspira a todos e une os povos. Espero que o futebol venha a inspirar todos os que assistirem ao jogo.

- Está preparado para um jogo agressivo da Colômbia, ao estilo da Taça dos Libertadores?

- É importante estar preparado, porque um dos pontos fortes da Colômbia são os duelos e a competitividade. Nós precisamos de ser capazes de competir nesse aspeto com a cabeça fria, sem perder o controlo das emoções. Para nós, o foco é o nosso desempenho, é aquilo que nós podemos controlar e aquilo que nós podemos fazer. Portanto, o desafio de jogar contra a Colômbia ajuda-nos muito a melhorar esse aspeto mais psicológico, que também faz parte do aspeto tático do jogo.O barulho que vem de fora, as emoções de ser uma equipa que, após o primeiro jogo, parecia não ter mais opções no Mundial ou que depois recupera... nada disso afeta o balneário, não afeta a preparação dos jogos nem o estado anímico. Na verdade, os jogadores estão muito concentrados. Agora estamos mais preparados, após o segundo jogo, porque tudo o que acontece durante as partidas ajuda à união do grupo e à concentração no trabalho. 

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