Sabri Lamouchi, ex-selecionador da Tunísia (IMAGO) - Foto: IMAGO

Do 'post' apagado ao pacto furado: a caótica troca de selecionador da Tunísia

Sabri Lamouchi cedeu o lugar a Hervé Renard após a goleada sofrida diante da Suécia

A seleção da Tunísia viveu uma segunda-feira de autêntico caos, que culminou na demissão de Sabri Lamouchi e na sua substituição por Hervé Renard. Uma 'chicotada' rara em fases finais de um Campeonato do Mundo, desencadeada pela pesada derrota por 1-5 frente à Suécia, no jogo inaugural.

O jornal francês L'Équipe apresenta uma cronologia do processo de mudança, que começou logo após o apito final do jogo de domingo, mas intensificou-se na segunda-feira, no hotel da equipa em San Pedro Garza Garcia, no México.

Enquanto os dirigentes da Federação Tunisina de Futebol (FTF) se movimentavam em segredo nos quartos, a tensão era palpável no exterior, com a entrada do hotel vigiada por um agente armado da Guardia Nacional.

A noite já tinha sido longa para Sabri Lamouchi. Além da derrota, o selecionador sentiu-se profundamente magoado ao ser insultado por adeptos tunisinos na tribuna VIP.

A tensão extravasou para a equipa técnica quando Cédric Blomme, preparador físico, e Olivier Pédémas, treinador de guarda-redes, se envolveram numa acesa discussão com adeptos no elevador do hotel, que quase resultou em agressão física. A intervenção do único segurança da delegação evitou o pior, forçando os dois técnicos a usar o elevador de serviço, relata a mesma publicação.

Pelas 10h30 da manhã de segunda-feira, enquanto Lamouchi se preparava para orientar o treino de recuperação, a FTF anunciou a sua saída através de uma publicação no Instagram. O comunicado referia «um acordo» para a demissão do técnico franco-tunisino, e que estavam a ser tomadas «disposições para nomear Mondher Kebaier como selecionador nacional». A notícia foi rapidamente difundida, mas, pouco depois, a federação apagou a publicação, gerando ainda mais confusão. No hotel, o presidente da FTF, Moez Nasri, e o vice-presidente, Houcine Jenayah, mantiveram o silêncio.

Em resposta, oito dos jogadores mais influentes da equipa reuniram-se com Lamouchi, fazendo um pacto: se o selecionador saísse, eles também abandonariam a seleção. Este apoio parecia motivado, em parte, pela recusa em serem orientados por um treinador tunisino. Entretanto, Mondher Kebaier, diretor técnico nacional, aguardava nos bastidores, e o nome de Wahbi Khazri, melhor marcador da história da Tunísia em Mundiais, chegou a ser falado como uma solução interina.

A confirmação oficial da saída de Lamouchi só chegou às 17h15, quando o presidente Moez Nasri comunicou a decisão ao treinador, alegando ter cedido à pressão para salvar o seu próprio cargo. Enquanto Lamouchi informava a sua equipa técnica, Nasri já preparava o anúncio televisivo e, surpreendentemente, já tinha um sucessor alinhado: Hervé Renard. O técnico francês, livre desde que demitido pela Arábia Saudita, em abril, foi o escolhido para assumir o comando das Águias de Cartago, mesmo antes de Lamouchi ter assinado a sua rescisão.

A saída de Lamouchi foi consumada de forma pouco cerimoniosa. O secretário-geral da Federação Tunisina de Futebol (FTF), Oualid Merdassi, entregou o contrato de rescisão amigável no quarto de hotel do técnico franco-tunisino, que assinou encostado à parede. O presidente Nasri não esteve presente para se despedir. Lamouchi, que aceitara o cargo em janeiro por razões sentimentais e não financeiras, ficou sozinho e desolado, questionando a sua decisão de assumir a seleção após a recusa de Pierre Sage.

Sentindo-se abandonado, especialmente depois de nenhum jogador ter cumprido o pacto feito, Lamouchi evitou cruzar-se com a equipa. O seu amigo, o avançado francês André-Pierre Gignac, que joga nos Tigres de Monterrey, foi em seu auxílio: Gignac foi ao hotel e convidou Lamouchi e a sua equipa técnica para irem a sua casa, oferecendo-lhes um refúgio temporário.

Após o jantar, Gignac levou o treinador e os cinco adjuntos de volta ao hotel. O único desejo de Lamouchi e da sua equipa era deixar o México o mais rapidamente possível, evitando um encontro com o seu sucessor, Hervé Renard. Curiosamente, Renard já tinha substituído Lamouchi no comando técnico da Costa do Marfim, em 2014.

Hervé Renard, por sua vez, já está a preparar o milésimo jogo da história dos Mundiais. O facto de o segundo encontro da Tunísia, contra o Japão, estar agendado para 21 de junho, em Monterrey, facilita a necessidade de ter um visto para o novo selecionador. A equipa técnica será composta por Nicolas Baudoin (analista de vídeo), David Barriac (preparador físico) e Gilles Fouache (treinador de guarda-redes). Khazri também foi integrado na equipa por decisão da federação.

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