O golo de João Silva em casa... no Algarve - Foto: Liga Portugal
O golo de João Silva em casa... no Algarve - Foto: Liga Portugal

Do Olival ao Algarve: a época nómada do Lourosa... em nove casas emprestadas

Leões abdicaram do presente pelo futuro e jogaram longe do próprio recinto durante a primeira época na Liga 2. A incerteza foi fiel companheira... a poucos dias de cada jogo. Presidente promete resultado final «de excelência»

O conceito de casa emprestada integra o glossário do futebol português há largos anos. Da mudança ocasional de estádio a temporadas completas longe do lar, é cada vez mais habitual que os clubes assentem arraiais num recinto alternativo. Dois, no máximo. A última época do Lusitânia de Lourosa hiperbolizou o conceito: os leões disputaram 19 jogos na condição de visitado… em nove estádios.

Na origem da temporada nómada do Lusitânia está a subida à Liga 2, um dos pontos mais altos da história do clube, em maio de 2025. O salto para os campeonatos profissionais obrigou a equipa a meter mãos à obra para dotar o recinto das condições requeridas pela Liga Portugal.

A procura por um recinto alternativo para os primeiros meses da época foi desde cedo uma certeza. A ambição leonina, ainda assim, prolongou a estadia fora de casa, como explicou a A BOLA Hugo Mendes, presidente do Lourosa: «Inicialmente estavam previstas obras para cumprir os requisitos necessários. Depois decidimos fazer muito mais do que aquilo que é obrigatório para estar nos campeonatos profissionais.»

Hugo Mendes, presidente do Lourosa (Foto: Lusitânia de Lourosa)

Os leões, guiados pelo desejo de «mais sofisticação» e «qualidade de excelência», avançaram com uma «obra a fundo» para construíe um estádio «referenciado a nível nacional» com capacidade para 6.000 espectadores.

«Quando começámos as obras acreditámos que seria possível concluí-las até ao final do ano», frisou Hugo Mendes. O pensamento a longo prazo e as condições climatéricas adversas, ainda assim, abrandaram os trabalhos e o Lourosa acumulou jogos em casas emprestadas. A ficha acabou por cair na viragem do ano: «No final de 2025 caímos na realidade de que não ia ser possível jogar no nosso estádio esta época.» 

O anfiteatro do Lourosa antes das obras (Foto: Lusitânia de Lourosa)

A perda da esperança no regresso a casa ainda em 2025/26 não abrandou o nomadismo caseiro do Lusitânia, que jogou na condição de visitado em nove estádios, seis deles cedidos por equipas dos escalões profissionais (FC Porto, Famalicão, Aves SAD, Penafiel, Paços de Ferreira e Oliveirense): «Quero agradecer a todos os clubes que que nos abriram a porta neste ano de estreia nos campeonatos profissionais,»

O presidente do Lourosa foi o responsável pela logística «desafiante» e «preocupante», agravada pelo facto do Estádio Municipal de Aveiro não estar licenciado para receber jogos dos campeonatos profissionais. «Por vezes era no limite. A seis, cinco dias úteis não sabíamos onde é que íamos jogar», frisou. Hugo Mendes revelou também que «nunca foi possível» que o Lourosa jogasse na primeira casa emprestada prevista: o Estádio Cidade de Barcelos.

O dirigente máximo dos leões realçou o «esforço diretivo» para encontrar estádios «o mais próximo possível de Lourosa» para acomodar a massa adepta «fortíssima» que segue o clube «até qualquer estádio do país»

Leiria e Algarve: a anatomia de um episódio bizarro

A resistência preta e amarela foi submetida a um teste de fogo na jornada 11. O Olival estava pronto para receber o duelo entre Lourosa e UD Leiria, mas o pontapé de saída foi dado… a mais de 500 kms de distância, no Estádio do Algarve. Hugo Mendes explicou como a discordância sobre o horário do jogo motivou um dos episódios mais inusitados do capítulo 2025/26 do futebol português: «O jogo estava programado para ser de noite, no Olival, mas não seria possível devido à sobreposição de outros jogos. Tivemos o ok do FC Porto para jogar de dia e o adversário não quis. Não houve a coordenação necessária e a Liga teve de intervir.»

A recusa da UD Leiria a «2/3 dias» da partida surpreendeu Hugo Mendes, que alertou que o Lourosa «podia sujeitar-se a perder o jogo». O duelo teve mesmo início no Estádio do Algarve a 9 de novembro de 2025, apesar dos «custos dispendiosos» para os leões e de uma assistência de apenas 73 pessoas.

Salomé Antunes e a família marcaram presença nas bancadas despidas do recinto algarvio. A fervorosa adepta do Lourosa acompanha o clube «de norte a sul», mas considerou «desagradável» ter de rumar a sul para assistir a um jogo… em casa. «Quem corre por gosto não cansa. Fiz uma direta. Daqui de cima foi a minha família e mais cinco pessoas», explicou.

Salomé Antunes - Foto: D.R.

Salomé garantiu, ainda assim, que os adeptos que marcaram presença «fizeram a festa». João Silva inaugurou o marcador aos 2’, mas Daniel Borges restabeleceu o empate e fixou o resultado final aos 11’. O próprio filho de Salomé assumiu o papel de apanha-bolas da partida. A ausência de mais apanha-bolas, bem como de água quente custou 540 euros… ao próprio Lourosa. Hugo Mendes relativizou a coima. 

O presidente do Lourosa preferiu destacar o «momento de comunhão» com os adeptos presentes no final da partida. O dirigente e os jogadores dos leões recompensaram quem viajou mais de 1000 kms num domingo à noite… com um convívio, frango assado e camisolas. «Fiquei triste por não haver a sensatez de adaptar o horário do jogo. Era o mínimo que podia fazer pelos adeptos porque sou um deles. Foi um momento muito bonito que nos ajudou após tudo o que aconteceu, explicou. O gesto do dirigente emocionou Salomé: «Adorei. Não pelo frango, mas pela atitude. Foi espetacular.»

A equipa preta e amarela retribuiu o apoio dos adeptos, mesmo em casas desconhecidas, dentro do campo. Os comandados de Pedro Miguel terminaram a Liga 2 a salvo na 12.ª posição, com 43 pontos, 22 dos quais conquistados na condição de visitado. No total, os leões somaram seis triunfos, sete empates e seis derrotas em 19 jogos caseiros disputados em Pedroso, Vila Nova de Gaia, Rebordosa, Famalicão, Oliveira de Azeméis, Penafiel, Paços de Ferreira, Vila das Aves e no Algarve. O Estádio Luis Filipe Menezes, no Olival, foi a casa emprestada mais frequente, sendo que o Lourosa venceu três e empatou um dos seis jogos que aí disputou.

No total, os leões somaram seis triunfos, sete empates e seis derrotas em 19 jogos caseiros disputados em Pedroso, Vila Nova de Gaia, Rebordosa, Famalicão, Oliveira de Azeméis, Penafiel, Paços de Ferreira, Vila das Aves e no Algarve. O Estádio Luis Filipe Menezes, no Olival, foi a casa emprestada mais frequente, sendo que o Lourosa venceu três e empatou um dos seis jogos que aí disputou.

Hugo Mendes destacou o «feito fantástico» preto e amarelo alicerçado nos «jogadores, equipa técnicase staff», os «grandes heróis» da manutenção. «Não vou dizer que foi uma época tranquila», frisou o dirigente que, ainda assim, transbordou orgulho no final da temporada mais nómada da história do futebol português.

«O futebol português vai orgulhar-se do nosso estádio»

Terminada a primeira temporada na Liga 2, uma pergunta ecoa por Lourosa: o estádio estará pronto a tempo do primeiro duelo em casa de 2026/27? Hugo Mendes é a cara do otimismo… e da cautela: «Iremos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso aconteça. Não é uma promessa, mas queremos muito que aconteça. A verdade é que não depende só de nós.»

O presidente do Lourosa destacou o peso das «fiscalizações» e das «documentações necessárias» para licenciar o recinto. «Há vários organismos que têm de aprovar o tudo o que está a ser feito, desde a Câmara municipal, o IPDJ, a proteção civil», frisou.

Novas imagens das obras

Galeria de imagens 21 Fotos

O ritmo acelerado das obras, impulsionado pelas condições climatéricas mais favoráveis, potencia o otimismo leonino. A cerca de três meses do início oficial da próxima semana, a relva já começou a nascer e a pintar de verde o terreno de jogo de um recinto ainda a meio-gás.

Nenhum elemento escapa à remodelação que vai desaguar num estádio «praticamente novo». O Lourosa abdicou do regresso a casa em 2025/26 pela construção de um projeto a longo prazo, adaptado à dimensão do clube e da cidade, com 8 mil habitantes. Hugo Mendes, confiante no regresso a casa já em agosto, puxa dos galões, mesmo antes da reinauguração: «O futebol português vai orgulhar-se do nosso estádio. O resultado final vai ser de excelência.»

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