Luís Mateus, editor-executivo de A BOLA, comenta as explicações dadas por Rui Costa sobre a época passada e a preparação da nova época

Para onde caminhas, Benfica?

Com investimentos de 100 milhões a navegar à vista, o Benfica assiste à desvalorização acelerada do plantel. Quando a liderança falha e o rumo se perde, o abandono ataca o talento

O que faz com que todos os jogadores de um clube — leia-se, neste contexto, Benfica — pareçam verdadeiros amadores perante os dos rivais? Como é que um plantel de 100 milhões em reforços é agora, ao fim de poucos meses, tão frágil para especialistas e opinião pública? Nem todos são excecionais, como é óbvio, mas deixar-se ir do 8 ao 80 é um caminho tortuoso. Mesmo que a exigência na Luz seja maior e a paciência rarefeita.

É óbvio que Barrenechea parece hoje pior do que quando chegou e o mesmo se pode dizer de outros. Dahl será mais ou menos o mesmo apesar da visão apaixonada de Mourinho, Pavlidis marcará menos golos do que já marcou, Sudakov ainda nem toca com a ponta dos dedos a linha que limita por baixo o seu potencial. Mas porque corre mal com todos? Na Luz, escolhe-se (quando se escolhe) assim tão mal? Ou não se valoriza inteligência e resiliência com igual grau de exigência?

Tanta tinta já se gastou para se escrever que se navega à vista e que um clube moderno não pode ser liderado assim. Cada jogador é obrigado a caminhar numa prancha sobre um mar atolado de tubarões desde o primeiro dia, porque quem os trouxe sentou-se no gabinete a jogar Solitaire enquanto não lhe marcam nova viagem. Não se cria sentimento de pertença. Não se canta o passado. É errado pensar que a instabilidade não contamina o balneário. Que os jogadores não sentem abandono. E que os treinadores veem mais complicada a tarefa de os convencer de que tudo vai funcionar. Que é o passo essencial para que tudo funcione. Como se atacam a sério jogos que daqui a alguns dias pouco sentido farão para quem os joga. Se já sabem que não contam com eles. Sem liderança, não há rumo. E todos se perdem. A comunicação não é eficaz. E o sim, o não e o talvez parasitam a mente de quem está sempre na fronteira entre vitória e derrota.

A preparação foi tão má que colocou em risco a primeira competição. Não é suficiente saltar da cadeira em fúria, dar murros no ar, levar as mãos à cabeça. Rui Costa tem razão quando diz que há plantel para o St. Gallen, mas isso não chega. A pergunta continua sem resposta: o que quer ser este Benfica daqui a cinco anos?

O Rui Costa-presidente nunca teve conserto. Não se lidera a bater no peito e a pedir desculpas, renovando promessas que nunca se cumprem. O cenário é aterrador. Já não é o fantasma de um novo Vale e Azevedo que deve preocupar sócios e adeptos. É mesmo o mundo real. É tempo de reconhecê-lo, Rui!

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