Bernardo Silva foi titular no clássico com o Barcelona
Bernardo Silva foi titular no clássico com o Barcelona

«Disseram-me que o Paços de Ferreira era o máximo para o Bernardo Silva»

Jorge Mendes recorda percurso de Bernardo Silva, Deco e João Félix: «O talento não chega»

Jorge Mendes abordou os meandros do futebol de formação e partilhou episódios marcantes da carreira de vários futebolistas com quem trabalhou, sublinhando que as avaliações no início de carreira estão frequentemente erradas e que a capacidade de trabalho se sobrepõe ao talento puro. O antigo empresário de Cristiano Ronaldo falava durante a conferência Leading the Game, que decorreu na Universidade Católica, no Porto.

Um dos casos mais ilustrativos apresentados pelo agente foi o de Bernardo Silva. «Disseram-me várias vezes: 'Jorge, esquece, não tens hipótese nenhuma. O Bernardo Silva nunca irá ser um jogador importante'. O máximo que poderia atingir seria jogar numa primeira ou segunda divisão, 'no máximo no Paços de Ferreira'», recordou o empresário, revelando ainda que, após a saída do médio do Benfica para o Mónaco, teve de intervir para evitar a dispensa. «Não quiseram ficar com ele após o primeiro ano. Tive de falar com o presidente, tive de o convencer. Disse-lhe: 'Está a cometer um erro, porque é um grande jogador'», relatou, vincando que o esquerdino se viria a afirmar como um dos melhores médios do planeta com a carreira que se conhece, nomeadamente o sucesso no Manchester City, estando agora no Real Madrid.

Jorge Mendes recuperou ainda a história de Deco, atleta que descobriu num embate entre Espinho e Alverca. Perante a recusa inicial da Luz — «Falei com o Benfica e disse que este jogador era completamente diferente de todos os outros, mas disseram-me que não estavam interessados» —, o empresário colocou o luso-brasileiro no Salgueiros e montou vídeos para convencer Pinto da Costa a levá-lo para o FC Porto. Apesar de o técnico Fernando Santos preferir Duda, do Boavista, o presidente dos dragões apostou em Deco, que viria a conquistar a Liga dos Campeões em 2004. «Para mim, foi o melhor jogador da história do FC Porto. Merecia ter ganho a Bola de Ouro em 2004», atirou.

Outro episódio revelado envolveu a mudança de João Félix para a formação encarnada, após passagem pelos azuis e brancos. «O Benfica interessou-se pelo irmão [Hugo Félix] e contratou-o. O pai mostrou preocupação por o João ter ficado no FC Porto e o irmão ter ido para o Benfica e levaram o João Félix quase por favor», explicou o agente.

Na ótica de Jorge Mendes, estes exemplos comprovam que existem muitos atletas de grande potencial nos escalões inferiores que necessitam apenas de uma oportunidade. «Podemos encontrar jogadores com muito talento na terceira ou na segunda divisão. O problema é que muitas vezes não têm alguém que lhes possa dar uma oportunidade», alertou, reforçando todavia que o compromisso pessoal é o fator decisivo.

«Se compararmos um jogador com muito talento e outro com menos talento, mas que seja um grande profissional e trabalhe com muito empenho e determinação, esse jogador vai sempre chegar mais longe», defendeu o agente, indicando que «mais de 80% dos jogadores que transferi não eram os jogadores mais importantes dos respetivos clubes». Jorge Mendes concluiu assim «que o talento é muito importante, mas que só isso não chega», frisando que os atletas têm de assumir responsabilidades e ultrapassar adversidades para atingirem o topo.

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