João Carvalho e Begraoui constituíram a sociedade do golo estorilista (Foto Tiago Petinga/LUSA)
João Carvalho e Begraoui constituíram a sociedade do golo estorilista (Foto Tiago Petinga/LUSA)

Desta vez Begraoui colocou o Gil na barca do inferno

O sol pôs-se na Amoreira e o franco-marroquino, a cumprir o Ramadão, voltou a alimentar-se de golos. Agradeceu aos gilistas mas não teve contemplações...

O Gil Vicente entrou na Amoreira com o retorno ao quarto lugar em ponto de mira mas desta vez foi Begraoui quem colocou o emblema do galo numa barca do inferno, tal como o auto que deu muita fama ao homem que é considerado o pai do teatro português e é homenageado pelos barcelenses e que têm vivido num auto da barca de glória, com uma temporada bem acima do expectável.

E o franco-argelino foi mesmo o ator principal da trama, fruto dos dois golos marcados que colocaram para trás das costas o período menos conseguido dos canarinhos, que vinham de um empate frente ao Tondela e uma derrota penosa (0-3) com o Aves SAD.

Begraoui, diga-se, viveu um momento bem curioso, pois por volta da meia-hora de jogo, por acordo com o árbitro Iancu Vasilica e o adversário, o encontro foi interrompido para que o avançado se alimentasse. É que o 14 do Estoril está a cumprir o Ramadão e os muçulmanos não podem comer enquanto há luz solar. Por volta das 18h30 o sol pôs-se na Amoreira, Begraoui alimentou-se e ganhou fulgor para uma segunda parte de sonho, com dois golos plenos de oportunidade mas que também pode agradecer a João Carvalho, que lhe colocou duas bolas carregadas de açúcar. E por falar em agradecimentos, no final da partida, Begraoui mostrou-se grato ao árbitro — será inédito no futebol nacional ? — e ao adversário, mas como qualquer matador não teve contemplações na hora de alvejar no caso a baliza adversária.

Muito do jogo pode estar contado mas está longe de estar tudo. Na verdade, a partida até que começou abençoada para o Gil Vicente, que, sem muito fazer para lá chegar, chegou à vantagem beneficiando dum penálti a castigar uma entrada imprudente de João Carvalho sobre Zé Carlos Ferreira.

O Estoril não se conformou e pouco depois canto perfeito de Holsgrove para Felix Bacher, de cabeça, empatar a partida.
As duas equipas fizeram jus à fama de atrevidas e descomplexadas e seguiu-se um período de oportunidades atrás de oportunidades, com o Gil Vicente a desperdiçar três de rajada por Gustavo Varela, com duas delas a não conseguir superar um gigante Joel Robles. Do outro lado, foi Lucão a acenar negativamente com a a cabeça e com as mãos a Marqués.

O jogo estava aberto e assim se chegou ao intervalo. Assim prosseguiu na segunda parte, com a vitória a poder cair para qualquer um dos lados. E foi aí que apareceu um Begraoui de Carvalho

O melhor em campo: Begraoui (8)
Os números podem dizer muito e às vezes traduzem quase tudo: 17 golos na Liga para um avançado que não representa um grande é um feito merecedor de enormes elogios. Mas não é só golo — e não é pouco — o que o franco-marroquino dá ao Estoril, pois parece uma enguia a fugir dos defesas adversárias, dando uma amplitude fora do normal ao ataque da equipa de Ian Cathro.

As notas do Estoril: Joel Robles (7); Ferro (5), Felix Bacher (7) e Tsoungui (5); Ricard Sanchéz (6), Orellana (5), Holsgrove (6) e Gonçalo Costa (5); João Carvalho (7), Begraoui (8) e Marqués (4); Rafik Guitane (7), Pedro Carvalho (5) e Pizzi (—)

A figura: Murilo Sousa (6)
Marcou o golo do Gil num penálti muito bem convertido e pela direita mas com o pé esquerdo sempre ativo não foi permitindo que o Estoril se aventurasse por aí além e deixando o opositor direto, Tsoungui, em alerta constante. Foi bem secundado por Santi García, numa equipa que teve o seu principal criativo, Luís Esteves, uns furos valentes abaixo do que lhe é normal.

As notas do Gil Vicente: Lucão (6); Zé Carlos (6), Espigares (5), Buatu (5) e Konan (6); Zé Carlos Ferreira (6) e Luís Esteves (5); Murilo Sousa (6), Santi García (6) e Joelson Fernandes (4); Gustavo Varela (4); Agustín Moreira (5), Hevertton Santos (5), Héctor Hernández (4), Cáseres (—) e Carlos Eduardo (—)

Ian Cathro (treinador do Estoril)

Foi um bom jogo de futebol, senti-o vivo, e é muito fixe ter jogos assim neste campeonato. Begraoui? Se a nossa equipa defender na nossa área e sairmos só em transição, não sei se vai fazer 17 golos. Os golos surgem pela forma como jogamos enquanto equipa, se ele não tiver a capacidade de pressionar alto e os colegas também não pressionarem alto, talvez não faça 17 golos

César Peixoto (treinador do Gil Vicente)

Este resultado não era o que queríamos, mas não belisca em nada o que temos feito. Temos de usar este jogo para melhorar e como aprendizagem para o futuro. Faltou-nos agressividade, um pouco de alma, o Estoril foi mais forte aí e ganhou supremacia. Ainda não foi desta que chegámos às quatro vitórias consecutivas