Criatividade e inovação

Ensinar ou treinar significa proporcionar a quem aprende ou treina as oportunidades certas

LI, recentemente, a seguinte opinião de Isadora Gabriel, diretora de People na Movile, uma investidora brasileira em empresas de tecnologia na América Latina: «As pessoas não inovam não porque não têm boas ideias, mas porque têm medo de serem julgadas, medo de errar. E o medo silencia, paralisa e mantém o status quo.»

O que me levou de imediato a tentar relacionar esta questão da criatividade e da inovação com a realidade atual do desporto português. Em tudo o que respeita ao ensino/treino de atitudes/comportamentos criativos e inovadores o que acontece no desporto português em geral? 

Diria que em termos globais revelamos aqui e ali uma preocupante falta de preparação. Avaliamos e comparamos de forma extemporânea, fomentamos o medo de errar, condicionamos uma fundamental disponibilidade para arriscar. Desresponsabilizamos, não só através de uma culpabilização dos outros pelo que acontece de errado, em detrimento de um assumir individual de eventuais falhas, mas também, eliminando gradualmente o amor à prática e a curiosidade e criatividade que as crianças e jovens revelam naturalmente. 

ESQUECEMOS, afinal, que os hábitos de excelência ao nível da criatividade e da capacidade de inovar, ou se adquirem até aos 16 anos, ou será sempre muito mais difícil que, a partir dessa idade, venham a ser adquiridos de forma a poderem atingir níveis de excelência. 

Mas ainda mais preocupante, parecemos esquecer como é fundamental ensinar e treinar futuros jovens jogadores e jogadoras criativos e capazes de nos surpreenderem. Avaliamos desempenhos, comparamos resultados, aprovamos e reprovamos, classificamos, (de forma quase sempre absolutamente precipitada e injusta) e apressamo-nos a selecionar os que designamos como «bons» e preterimos os ditos «maus». Tudo isto, em detrimento da paixão e entusiasmo que deveríamos ter continuado a potenciar, do incentivo, da disciplina e do rigor, da exigência, da intensidade do trabalho, do aprender com os erros, do experimentar por via de tentativas e erros e correspondente reflexão sobre o que se fez, bem ou mal. 

Em vez de nos questionarmos e ajudarmos a refletir sobre as soluções possíveis para os problemas e dificuldades com que deparam os e as jovens jogadores e jogadoras, candidatos a futuros Ronaldo’s ou Michael Jordan’s, tal como os educarmos com base em valores e princípios que mais tarde lhes sejam essenciais para saberem o que querem, para onde ir e como fazer a cada momento, optamos por lhes impor caminhos e soluções, saltando etapas de desenvolvimento. 

AQUILO que muitos designam como ensino e treino, não passam, (demasiadas vezes!), de atividades formais, quase sempre desligadas da realidade, em que os e as jovens são meros ‘recipientes vazios’ para onde se ‘despejam’ saberes, técnicas, etc. e que, lamentavelmente e na maioria das vezes, nem sequer sabem para que servem e em que circunstâncias as devem utilizar. 

Em vez de ensinarmos a aprender a fazer, fazendo, com o suporte do respetivo treinador, limitamos-lhes a descoberta e a vivência concreta da realidade para a qual precisam de ser preparados. 

Mas não só! Tão preocupados que estamos com os resultados a curto prazo que, ao detetarmos e selecionarmos aqueles e aquelas jovens que consideramos reunir um maior e melhor potencial, optamos pelos que, por razões meramente morfológicas e biológicas, ‘vão mais à frente’ no seu desenvolvimento. No fundo, escolhemos os que no imediato ‘garantem’ sucessos, mas que nem sempre são os que possuem melhor potencial futuro! 

Um verdadeiro ‘caminho das pedras’ a que os jovens candidatos e candidatas têm de se sujeitar, frequentando treinos cuja monotonia, falta de rigor e exigência, envolvência emocional, etc., são claramente desmobilizadores e saturantes. 

Pior! O número de horas que dedicam ao ensino e ao treino é, em algumas circunstâncias, quase ridículo face às necessidades! 

Mas além disso, não basta o volume da prática, é fundamental a qualidade do trabalho desenvolvido. Sem intensidade elevada, exigência e muito rigor, não há volume de trabalho que resista. É sempre desastroso o efeito de repetir, sistematicamente, uma execução lenta ou incorreta, («Treinas lento, jogas lento», «Treinas mal, jogas mal!»).

A questão central reside, portanto, na necessidade de aprender e treinar com base em sobrecargas constantes (tendo a oposição como fator de progresso!), com exigências de velocidade de reação e execução muito elevadas, processos de tomada de decisão «treinados como se joga», repetição de gestos e movimentos mais eficazes, cometendo e corrigindo erros, refletindo sobre as diferentes opções possíveis e encontrando as soluções, conforme as circunstâncias. Acima de tudo, ajudando a formar jogadores e jogadoras criativos e inovadores, sem medo de arriscar execuções ‘fora do quadrado’.

Isto permite-nos concluir que, nem sempre tem estado muito claro o que é afinal a criatividade e a inovação de que tantos falam, mas poucos ajudam a que verdadeiramente aconteçam. 

A criatividade e a inovação são a imaginação aplicada e, para começar, exigem que estejamos preparados para errar (e é um facto incontornável que sempre que iniciamos uma determinada atividade, erramos muito!). Para sermos imaginativos e capazes de concretizar algo de novo, absolutamente diferente do que é tradicional e usual, necessitamos ao começar, não ter medo de errar e aprender com os erros. Para atuarmos de forma criativa, inovadora, mais do que trabalhar com base nos conceitos e padrões existentes, temos de ser capazes de criar novos padrões, mais adaptados às alterações verificadas na realidade em que nos integramos. 

A criatividade assenta numa forma diferente de percecionar e interpretar a realidade, fazendo e relacionando as coisas de modo original. 

Mas não é isto que vemos habitualmente! Apegamo-nos ao «sempre fizemos desta forma e tem corrido bem» e, naturalmente, enquanto nos permitem que tal aconteça, mesmo juntando alguma nova informação à forma como até aí sempre funcionámos, resistimos quanto possível a qualquer mudança. 

O ato de ensinar ou treinar significa proporcionar a quem aprende ou treina as oportunidades certas, nos contextos certos, obrigando a que seja fundamental «treinar como se joga»! 
Para que quem ensina e treina seja eficaz, tem de avaliar o estado de conhecimento adequado do jovem atleta e determinar o que ele sabe e como conseguir prender-lhe a atenção. 

Depende, por isso mesmo (e muito!) do domínio das técnicas de persuasão (observar, questionar, elogiar, recompensar, ajudar a refletir, dar feedback, etc.), assim como de avaliar e determinar o que ele já sabe e o que tem para lhe dizer. 

Tal como avaliar o seu grau de interesse pela tarefa a desempenhar e qual a sua recetividade ao que está a ser ensinado.

O ensino e treino da criatividade e da inovação, mais eficaz, tem por isso como base muitas das mesmas competências complexas necessárias no processo de comunicação. Queremos que o atleta nos ouça com atenção e temos de o alertar para o facto de termos alguma coisa útil e nova para lhe ensinar. 

Assim, quanto mais ambiciosos, querendo mudar as atitudes e os comportamentos daqueles que ensinamos, maior terá de ser a nossa empatia e capacidade de sintonização com eles. 

Por outro lado, a aprendizagem por repetição é claramente útil! Importa não perder de vista o perigo de repetir algo cuja qualidade seja duvidosa, ou pior ainda, desinserido da realidade em que têm de ser utilizados. É preciso evitar repetir com baixos índices de exigência em relação à velocidade de reação e de execução necessárias e da oposição encontrada. 

SEGUNDO Bernard Andrieu, (Apprendre de son corps et de ses gestes, 2015), o que se passa no nosso corpo vivo no contacto com o meio envolvente, é quase sempre conhecido conscientemente com atraso. O que significa que, sem darmos conta, realizamos gestos e tomamos decisões relativas ao que se passa ao nosso redor. 

Ou seja, temos gestos e expressões corporais, tal como tomamos decisões antes de termos consciência de que o estamos a fazer. No fundo, ainda não estando em condições de compreender e ter consciência do que estamos a fazer, já estamos a expressarmo-nos e a tomar decisões.

Bernard Andrieu designou como emersiologia, tudo aquilo que tem vindo a estudar e investigar, centrando-se em tudo o que se passa abaixo do nosso nível habitual de consciência. Perguntarão porquê? 

Precisamente por ser aí onde tudo assenta, ou seja, tudo o que designamos habitualmente como improvisação, deve ser entendida como a capacidade de ampliar o nosso potencial expressivo e de criação artística e atlética. 

Ora quando isto nos acontece estamos perante experiências imersíveis emocionais involuntárias, em que nos libertamos do previamente aprendido e treinado, desinibindo-nos a ponto de sermos capazes de expressar e criar o imprevisível. 

PARA a alemã Philippine Bausch, (entrevista, Folha de São Paulo, 2000), mais conhecida como Pina Bausch, coreógrafa, dançarina, pedagoga de dança e diretora de balet, «a dança deve ter outra razão além de simples técnica e perícia. A técnica é importante, mas é só um fundamento...Temos de encontrar uma linguagem para a vida.»

Defendendo a obra artística como uma criação onde experimentar constitui a preocupação central, para Baush e muitos outros criativos a arte deve libertar-se do convencional. 

Tal como, afinal, no desporto assim também tem vindo a acontecer; e igualmente, também, em toda a prática humana em que o corpo e as práticas corporais nos esclarecem hoje que a improvisação, a inovação e a criatividade não assentam no eu consciente, mas sim no movimento e no repertório gestual inconsciente enquanto criadores de novas possibilidades, não só artísticas como também desportivas.