Casa Pia segurou o FC Porto pela primeira vez na Liga 2025/2026. Foto Sérgio Miguel Santos
Casa Pia segurou o FC Porto pela primeira vez na Liga 2025/2026. Foto Sérgio Miguel Santos

Casa Pia errou pouco e assim virou o mundo ao contrário (crónica)

Líder joga muito no erro adversário, mas desta vez o adversário não facilitou. Casa Pia teve a sorte do jogo, é certo, mas FC Porto foi capaz de muito pouco para virá-la

O FC Porto sofreu a primeira derrota na Liga 2025/2026, a jogar fora, frente a uma equipa que ainda não tinha vencido em casa esta época. Trata-se, aliás, da primeira vitória da história do Casa Pia sobre os dragões. O mundo virou-se ao contrário, portanto, e o campeonato ficou apimentado justamente uma semana antes da receção do líder ao perseguidor, que depois de uma vitória na compensação com golo de calcanhar vê-se a quatro pontos de distância em vez dos expectáveis sete. E com cinco de vantagem sobre o terceiro, que ironicamente é a única equipa a não ter perdido nesta Liga e consegue ir a nove do primeiro.

Ao contrário do que poderá tender a ser a narrativa portista, não houve um jogo de sentido único cheio de oportunidades para resolvê-lo. Houve algumas, evidentemente — por alguma razão o guarda-redes casapiano é consagrado como melhor elemento em campo — mas estas oportunidades resultaram sobretudo de jogadas de sobressalto, com pouco de construção e ideia de jogo e muito de tentativa de chegar à frente de qualquer forma.

O FC Porto de Farioli tem-se caracterizado por uma paciência infinita, uma equipa que aguarda o erro adversário para o neutralizar cirurgicamente. Desta vez não conseguiu, porque o Casa Pia se uniu muito, juntou as linhas (não confundir com autocarros frente à área) e soube ter maturidade suficiente para afastar o adversário da sua área durante a maior parte do tempo.

Ficou evidente para quem viu este jogo que a vantagem de 2-0 com que o Casa Pia chegou ao intervalo era claramente excessiva face às tendências da partida durante a primeira parte. E é bem verdade que o segundo golo, uma infelicidade de Thiago Silva, surgiu depois de os dragões terem criado (finalmente!) três boas oportunidades: Gabri Veiga para a primeira boa defesa de Patrick Sequeira (35 minutos), Alan Varela com remate a rasar o poste (36') e golo bem anulado a Borja Sainz por fora de jogo (41'), num excelente movimento do ataque azul e branco.

Diz-se, muitas vezes, que os momentos das ocorrências são determinantes para o desenrolar dos jogos. Se é verdade que o 2-0 do Casa Pia em cima do apito para intervalo surgiu em altura especial, não o é menos que a redução do FC Porto para 1-2 trazia escrito na testa «o líder vai recuperar». Aos dois minutos da segunda parte, Pablo Rosario fez golo e estendia-se pela frente toda uma segunda metade para o mundo se virar outra vez para o lado habitual.

Acontece que o FC Porto criou pouco, muito pouco jogo ofensivo. Foi amorfo, anulável a meio-campo, uma formação que ao longo dos minutos ia permitindo maior estabilidade e moral ao adversário e ia, ela própria, perdendo a confiança de que necessitava para dar a volta ao texto.

Francesco Farioli terá feito tudo o que achava estar ao seu alcance, mexendo na equipa por forma a incutir maior agressividade e fome de área. Poderemos sempre, aqui do lado da bancada, achar que este jogo pedia Rodrigo Mora, mesmo com um relvado longe das melhores condições. Seja como for entraram Froholdt (terá feito falta para uma melhor sincronização na primeira parte), William Gomes, Pietuszewski, Deniz Gul.

Patrick Sequeira colecionou pelo menos mais duas excelente defesas, mas a verdade é que o jogo terminaria com o Casa Pia a desperdiçar também, já na fase do tudo ou nada, duas boas chances. Aos 79 minutos William Gomes, com uma entrada absolutamente descabida sobre David Sousa, deixou o líder reduzido a dez unidades e terá sentenciado o que restava da partida.