Richard Carapaz: «Preciso de um momento para acreditar. É um Tour de sonho»
Na véspera, Tadej Pogacar (UAE Team Emirates) havia-se sensacionalmente imposto nos últimos 15 km da 19.ª etapa, entre Gap e Alpe d'Huez, e impedido que Richard Carapaz pudesse vencer numa das mais importantes tiradas da 113.ª Volta a França — onde o próprio esloveno nunca havia ganho e a corrida não passava desde 2022.
Este sábado, aproveitando que Pogacar — mais do que virtual vencedor do Tour pela quinta ocasião — estava mais interessado em fazer guarda ao colega de equipa, o mexicano Isaac Del Toro, para que este defendesse o 3.º lugar no pódio de amanhã em Paris e a camisola branca da juventude, Carapaz voltou a tentar a sorte nos 170,9 km de dura montanha da 20.ª etapa, que ligou Le Bourg-d'Oisans ao regresso a Alpe d'Huez.
Não se deu mal. O equatoriano da EF Education-EasyPost foi o mais rápido ao cortar a meta em 4.59,39 h, conseguindo deixar o belga Remco Evenepoel (Red Bull-BORA-hansgrohe) a 26 s — garantindo este o 2.º lugar da geral. O norte-americano Sepp Kuss (Visma-Lease a Bike), que caiu duas vezes e por isso não conseguiu acompanhar Carapaz, foi 3.º (+31 s), à frente de Pogacar (+1.05 m) e Del Toro (+1.05 m). Estes dois chegaram lado a lado, fazendo a já habitual celebração de cornos com os indicadores e que amanhã poderão repetir no pódio final.
Apesar da felicidade do 3.º lugar, Kuss, que desde cedo mostrara vontade de conquistar a etapa, protagonizou um dos momentos mais arrepiantes do dia. A descida para o Alpe d'Huez revelou-se dramática para o americano, mas podia ter sido trágica. Na primeira queda, calculou mal uma curva quando estava em fuga e viu Carapaz aproximar-se a apenas 5s. Pouco depois, novo erro de trajetória quase o projetou para uma ravina, sendo salvo pelas redes de proteção onde ficou apoiado — momento aproveitado pelo equatoriano para se isolar na frente.
A persistência e resistência de Richard deram frutos. Conquistou a camisola da montanha (156 pts), tal como fizera em 2024, à frente de Tadej Pogacar (100 pts) e juntou a vitória na etapa à conseguida dois dias antes, na 18.ª (de Voiron a Orcières-Merlette), somando agora três triunfos na carreira na Grande Boucle.
«Preciso de um momento para acreditar nisto. Foi muito, muito, duro. No início da etapa, fui em busca da minha camisola da montanha. Depois das primeiras subidas, estava seguro e, a partir daí, quis também lutar pela etapa», foi contando Carapaz sobre como vivera mais um dia de glória, que começara com um precoce ataque na subida à Croix de Fer com o objetivo de colar, definitivamente, a camisola das bolas vermelhas ao corpo e depois estendeu a ambição à etapa.
«Foi difícil», continuou, entre dois fôlegos. «Andei aqui com o Sepp Kuss e o Jai Hindley, dois vencedores de grandes voltas. Estive constantemente no meu limite, mas consegui aguentar e depois arrancar. Mas doeu tanto… Sofri tanto no Alpe d'Huez, no entanto, esta é uma Volta a França de sonho. Ganho duas etapas e a camisola da montanha. Nunca estive preocupado com a classificação geral», garantiu.
O português Nelson Oliveira (Movistar Team) terminou em 54.º (+35.10 m) e ocupa o 65.º lugar da geral (+4.17,56 h), entre 158 sobreviventes, onde Tadej Pogacar (72.53,44 h), Remco Evenepoel (+6.26 m) e Isaac Del Toro (+9.42 m) têm lugar reservado no pódio nos Campos Elísios. Isto depois de o luso-francês Paul Seixas (Decathlon AG2R La Mondiale), de 19 anos, se ter fixado na 4.ª posição ao não conseguir ultrapassar Del Toro, mas tornando-se o mais jovem a alcançar tal posto no Tour desde 1937.
Já Pogacar (2020, 2021, 2024, 2025), que ao chegar amanhã a Paris igualará, aos 27 anos, os franceses Jacques Anquetil (1957, 1961, 1962, 1963, 1964) e Bernard Hinault (1978, 1979, 1981, 1982, 1985), o belga Eddy Merckx (1969, 1970, 1971, 1972, 1974) e o espanhol Miguel Induráin (1991, 1992, 1993, 1994, 1995) como pentavencedor da Volta a França, contou que não se importou de ter ficado na cabeça do pelotão e addicado de ir verdadeiramente atrás de Carapaz, nem mesmo quando Evenepoel deixou o grupo e acelerou.
«Foi uma honra correr para o Isaac naquela última hora e meia. Fi-lo com prazer e agora percebo como é difícil trabalhar para outra pessoa. O facto de podermos cruzar a meta juntos no Alpe d'Huez é memorável. Falar-se-á muito do meu trabalho na frente, mas não se esqueçam que o Isaac me ajudou a chegar aqui de amarelo, tal como toda a equipa», salientou o campeão mundial.
Sobre se amanhã voltará a tentar vencer a etapa final — que conta com uma dura e seletiva passagem por Montmartre, onde há um ano, na estreia do percurso, o belga Wout van Aert lhe levou a melhor —, o esloveno deixou tudo em aberto. «Vamos ver como me sinto. Não vou correr riscos, mas o Wout não está cá este ano, o que é um adversário a menos. A etapa não é um grande objetivo, mas se me sentir bem e não tiver de correr riscos, posso tentar.»
Não está Van Aert, mas está Evenepoel, agora na sua nova versão de também trepador e alguém por quem Tadej não esconde admiração e amizade. «Sempre foi um campeão e é um dos melhores ciclistas do mundo. Merece este segundo lugar. Tem uma mentalidade diferente da minha e da do Jonas Vingegaard [era 2.º quando caiu e partiu a clavícula na 15.ª etapa]. Terá uma longa carreira e tentará ganhar o máximo possível.»
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