Dean James poderá provocar um verdadeiro terramoto na liga neerlandesa.
Dean James poderá provocar um verdadeiro terramoto na liga neerlandesa. - Foto: IMAGO

Caos nos Países Baixos: erro administrativo pode anular campeonato e dar (ainda mais) fôlego a Portugal

Segunda-feira poderá surgir uma das decisões mais importantes para o futebol do país nas últimas décadas

O futebol neerlandês, habitualmente elogiado pela organização e formação de jovens craques, está mergulhado numa crise institucional sem precedentes. O que começou por ser um protesto pontual do NAC Breda pode transformar-se num terramoto jurídico capaz de interromper as competições profissionais a poucas semanas do seu término. A situação é de tal forma grave que Marianne van Leeuwen, diretora para o futebol da federação (KNVB), já admitiu publicamente que o campeonato pode não chegar ao fim.

A origem do conflito remonta a 15 de março, quando o NAC saiu derrotado frente aos Go Ahead Eagles. O clube de Breda avançou com um protesto formal, alegando a utilização irregular de Dean James. Em causa está a elegibilidade de um jogador com base na sua nacionalidade e nos regulamentos de inscrição. Se o tribunal der razão ao NAC na próxima segunda-feira, o efeito dominó será imparável.

O caso de Dean James centra-se numa grave falha administrativa relacionada com a perda automática da nacionalidade neerlandesa. Ao optar por representar a seleção da Indonésia e adquirir esse passaporte, o lateral perdeu a cidadania da União Europeia, uma vez que a lei dos Países Baixos é restritiva quanto à dupla nacionalidade em processos de naturalização voluntária. Esta mudança de estatuto jurídico obrigava o jogador a possuir um visto de trabalho específico e a auferir o salário mínimo elevado exigido a atletas extra-comunitários, requisitos que não foram cumpridos.

O NAC, ao ser goleado pelo Go Ahead Eagles, detetou a irregularidade e avançou com o protesto que expôs a fragilidade do sistema de controlo da federação. Embora o clube alegue que os dados governamentais não foram atualizados em tempo útil, os serviços de imigração confirmam que a situação laboral de James era irregular no momento das partidas. A utilização de um jogador sem autorização de residência válida fere a verdade desportiva e coloca todos os resultados obtidos com a sua participação sob suspeita jurídica.

A gravidade do episódio reside no facto de Dean James poder ser apenas o primeiro de vários casos semelhantes detetados recentemente na liga. Se o tribunal confirmar a sua inelegibilidade, abre-se um precedente para que dezenas de jogos sejam impugnados, impossibilitando o fecho da tabela classificativa de forma justa. O que começou como uma disputa por pontos entre dois clubes transformou-se num bloqueio institucional que ameaça anular toda a temporada e prejudicar seriamente o prestígio internacional (e não só) do futebol neerlandês.

O FANTASMA DO DEN BOSCH

o imbróglio faz recordar o insólito episódio ocorrido recentemente com o Den Bosch no segundo escalão. Na altura, falhas administrativas na inscrição de jogadores e o desrespeito por critérios de nacionalidade e residência levantaram as primeiras suspeitas sobre o rigor da KNVB. O que parecia um caso isolado na Eerste Divisie revelou ser, afinal, uma vulnerabilidade sistémica.

A Federação, através de Van Leeuwen, refuta as acusações de incompetência. O argumento utilizado é, no mínimo, curioso: a proteção de dados. Segundo a dirigente, a nacionalidade é um tema «muito sensível» no que toca à privacidade dos jogadores, o que teria dificultado a partilha de informação detalhada com os clubes. Este argumento não convence os emblemas, que veem aqui uma tentativa de sacudir a responsabilidade por um erro de secretaria monumental.

133 JOGOS SUB SUSPEITO E IMPACTO NO RANKING

Os números deste caso são astronómicos. Caso o NAC ganhe o processo, há pelo menos mais seis clubes preparados para avançar com queixas semelhantes. Contas feitas, estão em risco de protesto 133 partidas já realizadas. Se estes jogos forem anulados ou os resultados alterados na secretaria, a integridade da Eredivisie colapsa. É impossível reorganizar o calendário ou garantir a verdade desportiva com mais de uma centena de resultados sob julgamento.

Esta crise interna nos Países Baixos surge num momento crucial também para o futebol português. A ultrapassagem de Portugal à Liga neerlandesa no ranking da UEFA parece agora estar também ligada ao demérito e ao caos administrativo de Amesterdão e não só necessariamente a uma subida de forma fulgurante dos clubes lusos. Enquanto Portugal estabiliza o seu coeficiente nas provas europeias, o futebol neerlandês arrisca-se a ficar de fora das competições continentais se não conseguir concluir a prova interna e indicar os seus representantes a tempo.

A decisão de segunda-feira será acompanhada com atenção em toda a Europa. Não se trata apenas de três pontos num NAC-GA Eagles; trata-se da sobrevivência jurídica de uma das ligas mais históricas do continente. Se a justiça confirmar a irregularidade, o futebol neerlandês entrará num lockout administrativo que poderá levar anos a resolver nos tribunais, entregando de bandeja a tranquilidade no ranking à Liga portuguesa.