Senegal bateu o Sudão por 2-1 e assume-se como um dos candidatos a conquistar a CAN - FOTO IMAGO
Senegal bateu o Sudão por 2-1 e assume-se como um dos candidatos a conquistar a CAN - FOTO IMAGO

CAN-2025: quando o erro já não tem amanhã

Acácio Santos, antigo adjunto da seleção da Nigéria, analisa em A BOLA a Taça das Nações Africanas (CAN)

Os oitavos-de-final são, para mim, o momento em que a competição muda definitivamente. A partir daqui, já não há gestão futura nem margem para corrigir no jogo seguinte. Há apenas 90 minutos (ou mais) para continuar ou sair.

E os jogos recentes confirmam isso de forma clara. A Tunísia caiu frente ao Mali nas grandes penalidades. Um jogo equilibrado, tenso, decidido no detalhe máximo. Aqui já não conta o histórico nem a organização de base. Conta a frieza, a clareza emocional e a capacidade de decidir sob pressão extrema. Nos penáltis, não há sistema que resista — há homens e decisões.

Na Nigéria, criámos uma competição contínua de marcadores de penáltis. Em todos os treinos, os jogadores eram divididos em dois grupos, um em cada baliza, e realizávamos séries competitivas de penáltis. Registávamos quem marcava melhor, mas sobretudo quem reagia melhor ao stress. Esse trabalho teve impacto direto: nas meias-finais eliminámos a África do Sul nas grandes penalidades.

O Senegal viveu um cenário diferente, mas igualmente revelador. Começou a perder frente ao Sudão, sentiu o perigo real da eliminação, mas conseguiu reagir, assumir o jogo e virar para 3–1. Esta é a diferença entre uma equipa preparada para o mata-mata e uma equipa que não está. Sofrer primeiro, não entrar em pânico e continuar fiel ao plano.

Enquanto treinador, sei que nestes jogos a preparação deixa de ser apenas estratégica e passa a ser emocional e comportamental. A reação ao primeiro golo, ao primeiro erro, ao primeiro momento de ansiedade diz quase tudo sobre a maturidade do grupo. Essa maturidade foi clara no Senegal, tornando-se, para mim, uma seleção com forte possibilidade de chegar à final.

É também aqui que surgem os líderes silenciosos. Nem sempre são os que falam mais. São os que pedem bola quando o estádio aperta, os que acalmam após um erro, os que fazem a falta certa no momento certo.

Do banco, sinto sempre que saber quando não mexer é tão importante como saber quando mexer. Uma substituição mal lida nos oitavos não é apenas uma troca — pode ser uma eliminação.

Nestes jogos já não se fala em favoritismo ou estatística. Fala-se em decisão, coragem e clareza. A Tunísia caiu nos penáltis. O Senegal reagiu e seguiu em frente. Dois jogos, duas histórias diferentes, a mesma verdade.

Porque nesta fase, o futebol é simples e implacável.