Antigo defesa-central relembra o que se passou no Campeonato do Mundo de 2014

Bruno Alves, 2014: «Jogar pela Seleção é como chegar ao topo da montanha»

Defendeu cores de Portugal em três Campeonatos do Mundo (2010, 2014 e 2018) e foi campeão da Europa em 2016. Antigo central valoriza a difícil missão que é escalar o caminho mesmo quando falta o... oxigénio

No Mundial de 2014, realizado no Brasil, Portugal foi eliminado na fase de grupos, terminando em 3.º lugar no Grupo G. Sob o comando do selecionador Paulo Bento, a Seleção Nacional somou uma vitória, um empate e uma derrota, terminando com os mesmos 4 pontos que os Estados Unidos, mas com desvantagem na diferença de golos. Bruno Alves foi um dos pilares dessa Seleção. O antigo defesa-central jogou três Mundiais, 2010, 2014 e 2018. No Brasil foi titular nos três jogos de Portugal (Alemanha, EUA e Gana) e A BOLA levou-o até à Cidade do Futebol para recordar o que viveu no país do pai.

— Voltar à casa de Portugal, depois de tantos anos a representar a Seleção, o que é que significa?

— Sinto-me muito feliz. Olhando para trás, valeu muito a pena e agradeço por todas as oportunidades, porque realmente jogar por Portugal é a máxima competência do futebol. Realmente foi uma passagem incrível, uma jornada única e todas as experiências, desde os Sub-20 até à Seleção A, todos os campeonatos que fiz, fizeram-me sempre melhor jogador. Essas experiências permitem que hoje também seja um melhor dirigente. Falo muitas vezes do topo da montanha. Para chegar ao topo da montanha, tu tens de escalar a montanha e escalar a montanha é difícil pois a partir de um ponto tempo da montanha não tens oxigénio, o que faz a chegada ao topo seja cada vez mais difícil. Chegar a jogar pela Seleção é o topo da montanha. É chegar lá onde toda a gente quer estar e só os melhores chegam. A Seleção é um momento privilegiado. Honrar o teu país, defender o teu país não é só um jogo de futebol. E realmente foi isso que eu senti: uma honra. A honra de trazer bons resultados para Portugal. Os momentos que eu vivi aqui na Seleção, com diferentes dirigentes, com diferentes treinadores, com diferentes atletas, fizeram a minha evolução Como homem, como atleta e hoje como dirigente. Acho que todas essas passagens me fizeram melhor em tudo. Aos que hoje estão na Seleção digo: aproveitem, queiram estar aqui, queiram fazer coisas importantes e atingir outro nível. A Seleção ajuda-nos sempre a conquistar mais no futuro e é um lugar que tem de ser sempre valorizado. Tens de querer estar aqui, nem que seja para estar de fora porque o selecionador te colocou só a ver o jogo na bancada. É importante aproveitar o tempo na Seleção pois vai alavancar a vida, a carreira e vai transformar que a representa num homem e num profissional melhor.

A Seleção foi uma passagem incrível, fez-me melhor jogador e homem

— Quando jogaste no Brasil 2014, jogavas no Fenerbahçe, na Turquia. Onde estavas quando saiu a convocatória do Paulo Bento para esse Mundial?

— Não consigo lembrar ao certo onde estava, mas devia estar em casa com a família, mas tenho a certeza que foi emoção ser convocado pois foi sempre uma honra estar presente num Mundial, num Europeu ou em outra qualquer competição a representar. Foi sempre um sentimento de felicidade e de competência, porque para chegar a esse nível tem que se ser muito competente. Foram sempre momentos muito importantes para mim, porque eu sempre fiz tudo para não estar ausente. Eu sempre quis estar presente e valorizei todos os minutos e todos os segundos de treino. Sinto-me feliz pelo que fiz e por a vida me ter retribuído com 11 anos a jogar pela seleção principal de Portugal.

Jogar pela Seleção e defender o País não é só um jogo de futebol. É uma honra

— 11 anos a jogar na Seleção A, mas cada chamada era como se fosse a primeira vez?

— Sem dúvidas. Para mim sempre foi muito importante. Valorizei cada chamada, cada campeonato, cada minuto em que estive dentro de campo, cada minuto em que fiquei no banco. Valorizei todos os momentos, aprendi muito. Tive ótimos profissionais que me ajudaram a entender como estar no futebol. A Seleção é muito restrita e há milhares de jogadores de futebol, muitos deles competentes, e só alguns conseguem ser chamados. Estar num leque tão restrito e ser um dos quatro defesas-centrais presentes foi muito gratificante.

— Estamos no local onde a Seleção atual fica em estágio. Tens saudades do tempo em que eras tu um dos internacionais?

— Quando estou aqui tenho saudades, mas o meu ciclo no futebol como jogador foi feito. Não ficou nada por fazer, muito pelo contrário. A vida e o futebol deram-me muito mais do que um dia que eu pensava ser possível. No futebol eu só ganhei tempo, não perdi. Ganhei sempre. Mudei a minha vida, a vida das pessoas da minha família e isso para mim tem muito. Joguei até aos 40. Foi uma jornada longa e o tempo que vivi na Seleção foi o meu melhor tempo de futebolista. Quando eu cheguei ao meu melhor nível no FC Porto foi quando comecei a vir para a Seleção. Quando fui o melhor jogador do campeonato português através do FC Porto e também já estava na Seleção. Ser campeão da Europa em 2016 também me permitiu ser um jogador melhor.

— Qual é a maior recordação do Mundial 2014?

— Penso logo no Brasil e na minha família do meu pai que é toda brasileira. Inclusive tive um tio também que jogou na seleção brasileira. Foi um Campeonato do Mundo que eu quis muito ganhar e fazer bem, porque ia ter a minha família lá. Gostaria de ter sido campeão do mundo no Brasil, porque trazer Portugal era um título que ainda nos faltava e que nos falta. Vamos ver se este ano podemos ganhar. Brasil é o país do futebol, é o país que conquistou mais mundiais e para mim fazia todo o sentido chegar lá e competir para ser campeão. Nós temos que jogar para vencer, depois veremos se é possível ou não. Mas, a mentalidade de Portugal é sempre para vencer.

O futebol e a vida deram-me muito mais do que pensava ser possível

— Por toda a expectativa que Portugal levava para lá, foi uma desilusão ser eliminado na fase de grupos?

— Sim, sem dúvida. Em 2012 nós fizemos uma campanha muito boa no Europeu, e fomos eliminados nas meias-finais pela Espanha, nos penáltis e eu inclusive falhei um. Foi uma mágoa que ainda tenho até ao dia de hoje, mas, como aprendi com o meu pai, estou sempre de consciência tranquila pois dei sempre o melhor de mim. Chegámos confiantes a esse Mundial pois sabíamos que tínhamos capacidade para fazer mais. Mas, o processo é o mais importante e nós tivemos dois ou três campeonatos do Mundo e da Europa para chegarmos a ser Campeões da Europa em 2016. Era bom se pudéssemos ganhar todos, mas realmente, às vezes nós temos que ter algumas experiências para saber como fazer. Pelo momento que vemos hoje, a Seleção de Portugal já tem alguma experiência para chegar agora neste Mundial chegar no máximo das suas capacidades.. Há vários factores que podem ajudar Portugal a vencer o campeonato do Mundo. Nós temos que pensar em vencer. Temos jogadores que são campeões e esses fazem os outros campeões pois já sabem como fazer. Estamos no momento certo para atingir algo maior que é ser campeão do Mundo.

Quis muito ganhar o Mundial do Brasil, a família estava lá

— Chegámos a esse Mundial depois de um amigável com o México, em que vencemos por 1-0, com um golo teu. Havia uma grande confiança na Seleção?

—Estávamos muito confiantes e tínhamos uma Seleção muito capaz. Íamos com todo o entusiasmo e todas as condições para fazer mais. Mas, não aconteceu. Acho que o primeiro jogo, contra a Alemanha, foi um golpe duro nas nossas ambições. Abalou-nos perdermos por 4-0. Foi uma ferida difícil de cicatrizar.

— Perdemos por 4-0, o Pepe foi expulso e tu tiveste uma lesão entre o primeiro e o segundo jogo e estiveste quase para não jogar. Vários condicionantes na reação.

— O Pepe não foi só o meu parceiro nesse jogo, foi o meu parceiro desde sempre. Acho que a química que tínhamos, a maneira como nos fomos conhecendo, a amizade que foi criada… Quando assim é, não é só um companheiro de equipa, é um amigo. E quando é um amigo tu lutas por algo maior. O Pepe esteve sempre presente na minha vida, como amigo e como companheiro de equipa. Tive uma lesão, mas a superação e a vontade de jogar fazem parte do processo. Nesses momentos o teu estado mental tem que superar a tua condição física. Só assim é que consegues disputar um jogo de máximo nível. E tu, nos jogos de máximo nível não podes estar a meio, tens que estar no teu melhor.

— Como é que foi trabalhar com Paulo Bento, que sempre confiou tanto em ti e que sempre te tornou um dos eixos da defesa de Portugal?

— O Paulo Bento foi uma pessoa muito importante para mim, porque realmente sempre acreditou no meu valor. Ele sempre me deu as oportunidades e confiou em mim. E quando se estabelece essa relação entre jogador e treinador é mágico. Quando sentes que um treinador te reconhece e te valoriza isso é bom. Quando o mister Paulo Bento saiu foi um momento difícil para mim, porque valorizo tudo aquilo que ele fez e da maneira como ele fez. Era uma pessoa muito dedicada, com valores muito importantes. Eu acreditava muito nele, na liderança dele e na metodologia de treino. O que ele fez na Seleção foi muito importante. A maneira como nós também competimos o Europeu demonstrou a competência e a capacidade. Paulo Bento é um homem pelo qual eu tenho toda a consideração.

O mister Paulo Bento era muito dedicado e o que fez na Seleção foi muito importante. Quando saiu foi um momento difícil para mim

— Vamos olhar para a parte emocional de 2014. Tens raízes brasileiras. O teu tio Geraldo, morreu muito cedo, mas deixou a marca dele no futebol brasileiro onde foi internacional pelo Brasil. O teu pai, Washington, também jogou no Flamengo, e deixou a marca dele, antes de se fixar em Portugal. Como foi voltar às raízes do teu pai?

— Para mim foi muito emocionante. Inclusive o meu pai foi lá e acompanhou o Mundial lá. Eu nasci em Portugal, mas há muitas coisas que eu gosto no Brasil. Era uma experiência que eu queria muito ter, porque queria realmente ganhar com Portugal no país do futebol e de levantar a bandeira portuguesa no Brasil. Foi especial por toda a história e envolvência. Tínhamos uma seleção capaz de fazer mais do que fez. Mas foi tudo muito rápido. Quando competia estava tão focado em mim, e na minha recuperação, que às vezes perdia um pouco a perceção de tudo à volta. Em 2016 e 2018 como não estava tão presente em campo absorvi muito mais o que estava à volta. Consegui ver mais o ambiente. Não tenho muitas histórias de balneário porque não estava muito no balneário.

— Como é que era aquele grupo de jogadores que esteve no Brasil em 2014?

— Desde que entrei na Seleção principal sempre tivemos bons grupos e tentámos sempre conectar-nos como equipa, mas nem sempre é fácil. Nós sempre tivemos bons treinadores, bons jogadores, mas às vezes o mais difícil é aceitar ser suplente. Eu entendi isso mais tarde, principalmente em 2016, porque às vezes tu não vais ser o mais importante a jogar. Vais ser mais importante a treinar. Vais ser mais importante na liderança. Vais ser mais importante a ajudar os outros companheiros a estarem conectados. Às vezes tens que entender onde é que vais ser mais importante. Em 2016 ficou evidente para mim que eu prefiro jogar um jogo e ser campeão do que jogar todos os jogos e não ser campeão. Nós temos que entender qual é a nossa importância naquele momento e ter pessoas à tua volta que te fazem entender que aquele não é o teu momento, e que o teu momento vai chegar. Era um grupo forte e unido. O mister Paulo Bento sabia muito bem liderar e encaminhar. Sabia muito bem conectar os jogadores e não foi por falta de empatia entre os jogadores.

— Como é que o Bruno Alves, jogador daquela altura, conseguiu gerir toda aquela agressividade que nessa fase da carreira te caracterizava?

— Ao longo do tempo fui tentando ter cada vez mais autocontrole. O autocontrolo é muito difícil, pois é como quereres ir contra ti mesmo. Tens de ter uma capacidade mental, cognitiva e de pensamento. Tens de pôr os teus próprios limites, sem limitar a tua capacidade de ser melhor.

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