O talento do jogador português
O jogo de futebol continua a ser indiscutivelmente nos dias de hoje a modalidade desportiva de maior impacto na sociedade, capaz de orientar a imagem que a mesma representa, sendo muitas vezes por ela influenciada.
Quanto a mim, a essência deste tipo de jogo reside no seu caráter lúdico, apelando ao alertar para uma inteligência coletiva, numa exigente adaptação às múltiplas situações que a sua prática impõe. Daqui, emerge uma figura capaz de fazer despertar o prazer na concretização dos seus objetivos de conquista — o TALENTO.
As crianças e jovens bem cedo, através da prática do jogo espontâneo, aprendem a controlar as suas emoções, estabelecem uma partilha comunitária, de canseiras repetidas até ao limite, num envolvente desafio pela conquista do suor experimentado, numa paixão continuada.
Das praças, ruas, montes, caminhos, estradas em terra batida… sem árbitros, com um número de jogadores variável de acordo com o tamanho do terreno (mas quem mandava era o dono da bola), balizas marcadas com pedras sobrepostas, quantas vezes descalços, para não estragar a bola, sem hora marcada… tinha lugar o futebol de rua!...
Hoje, a maioria dos jovens cresce em ambiente marcadamente hostil para o desenvolvimento da sua criatividade. O contexto familiar e escolar carateriza-se por um clima de orientação intencional, com normas altamente restritivas, o aumento dum clima de desconfiança, a ausência de espaços livres em proximidade, a existência de uma ocupação repetidamente construída, em que os teclados são os primeiros mensageiros a um comodismo doentio, que sempre acaba por impor as suas regras.
Entretanto a formação emocional no seio familiar, da criança e do jovem, fica dependente do reconhecimento que lhe é prestado. Crianças e jovens mais reconhecidos e amados acreditam mais nas suas capacidades, enquanto as pouco elogiadas ou esquecidas, ou quando o elogio não está de acordo com a sua verdadeira evolução, entram em dúvida sobre si próprias, retraem-se e acabam por desistir das tarefas que lhe estavam confiadas.
A acrescentar o facto de ver certos pais, por um lado a alhearem-se completamente da prática desportiva de seus filhos, vemos outros, pelo contrário, a usar a pressão por comentários depreciativos com interferências no trabalho dos treinadores, utilizando expectativas elevadas, usando a proibição da prática desportiva como forma de castigo de um mau resultado escolar, acabando por causar um autêntico descontrolo emocional de quem tem pelo treino e pelo jogo uma das melhores prioridades para evoluir de forma qualificada.
Por outro lado, e no que diz respeito à escola, as atividades da educação física e o próprio desporto escolar encontram-se cada vez mais reunidas num dossiê de magras intenções, vendo aumentar-se cada vez mais uma iliteracia desportiva e que certos donos da verdade se gabam de aplaudir. Cargas horárias irracionalmente desajustadas. A disciplina de Educação Física, sendo obrigatória a sua avaliação, a partir de um determinado momento apenas servia para fins estatísticos (felizmente algo está a mudar). O desporto escolar com horários desajustados para o interesse dos alunos e em que os federados numa determinada modalidade participam com os não federados, não tendo estes a possibilidade de competir a nível mais elevado, entre outros aspetos…
Deste modo, o desporto vê-se confrontado com uma escola que muitas vezes não serve os verdadeiros interesses que lhe estão confiados, como seja a formação integral do jovem e que assim se vê mais disponibilizado para uma certa preguicite, renunciando ao esforço, ao suor, à dor, ao sacrifício, à perda de hábitos de trabalho em equipa, ao abandono da responsabilidade no cumprimento de regras, deveres e obrigações, da capacidade de emulação e superação para se tornar mais forte, mais ágil, mais resistente, mais veloz, mais inteligente, que pela prática desportiva convertida do pensamento em ação, pode fazer transbordar numa energia coletivamente consagrada.
Deste modo, os clubes vão-se preparando para dar respostas, criando academias ou escolinhas de formação desportiva, começando por inserir na sua marca o conceito verdadeiramente formativo, quer pela construção de estruturas básicas de qualidade garantida, quer com o recrutamento de treinadores pedagogicamente qualificados, recorrendo alguns deles, ao apoio de equipas na área médica, nutritiva, pedagógica, psicológica e social.
É evidente que por vezes se vai assistindo, aqui e acolá, a uma sistematização dum ensino pedagogicamente standardizado e, com uma agravante motivação para a tipificação para a clonagem de jogadores, com expectativas elevadas a curto prazo, mas excessivamente previsíveis a longo prazo, retirando-se ao génio e ao criador o seu verdadeiro espaço.
Por vezes opera-se uma demasiada tecnificação do ensino do jogo e do treino, constituindo um entrave à evolução inteligente do jogador, orientando-o para práticas descontextualizadas, que uma repetição constante aborrece e constrange.
No entanto, felizmente, algo mudou: o que se via há uns tempos a esta parte em matéria de treino, foi praticamente irradiado, isto é, obrigando os jovens atletas a cargas de treino barbaramente excessivas para as qualidades energéticas e funcionais dos atletas em formação, usando métodos utilizados pelos adultos, como se uma criança fosse um adulto em miniatura, dando origem ao vulnerável aparecimento de lesões, saturação, hipertrofias, que conduziam a traumatismos articulares, ligamentares e músculo tendinosos, culminando no esgotamento e, por fim, no próprio abandono.
Como dizia, os clubes estão cada vez mais apostados em capitalizar de forma humana, técnica e cientificamente os seus quadros no âmbito formativo. Os seus treinadores, numa larguíssima maioria ou são oriundos das universidades ou com grau de formação de treinadores compatível para as funções a desempenhar. Sabem perfeitamente que em matéria de treino deve haver um respeito absoluto pelo grau maturacional do atleta e, por isso, a qualidade do treino tem obrigatoriamente de ser feita com a observação da idade biológica do atleta e não apenas recorrendo à idade cronológica, no sentido de evitar os perigos de uma especialização precoce. Sabem que têm de seguir as grandes etapas de desenvolvimento — da formação, iniciação, orientação e especialização até ao alto rendimento.
Sabem que têm de ser pacientes e persistentes, tornado os treinos motivadores, criativos e organizados. Sabem que devem evitar as instruções de forma hostil ou primitiva, mas sempre de forma encorajadora. Têm consciência de que ganhar é muito importante, mas a capacidade de rendimento ainda se torna mais operante e sabem ainda que no seu diário de bordo tem que estar inscrito em letras douradas os valores da honestidade e a firmeza das convicções, procurando ser um educador, amigo, conselheiro, enfim, um modelo de comportamento exemplar, segundo o qual se permita corrigir sem ofender e orientar sem humilhar.
Desejo que na época que agora se inicia algumas destas recomendações façam parte do tesouro do seu crescimento, tal como refere Jorge Valdano (1998): «Jogar bem não chega quando não se ganha; ganhar não chega se não se jogar bem; jogar bem e ganhar não chega se não tivermos jogadores de grande nível e ao grande nível não chega, jogando apenas bom Futebol.»