BREAKING NEWS: há 60 anos, neste dia, roubaram a Taça do Campeonato do Mundo
A 20 de março de 1966, desaparecia de Westminster a Taça do Mundo que seria entregue poucas semanas depois à seleção inglesa, campeão pela primeira (e única) vez na sua história. Toda a história já a seguir.
Um cão chamado Pickles
No dia 20 de março de 1966, a menos de quatro meses do pontapé de saída do Mundial, a Taça Jules Rimet é roubada do Central Hall em Westminster, onde está em exibição, inserida numa exposição fechada ao público intitulada “Filatelia e Desporto”. Os guardas nada veem, não percebem o que se passa. Nenhum dos preciosos selos de uma coleção estimada em três milhões de libras desaparece, apenas o troféu, segurado em 30 mil na moeda inglesa.
Testemunhas apontam para um vulto suspeito moreno e a Scotland Yard entra em ação para salvar a honra do país e do próprio presidente da FIFA, o inglês Stanley Rous. Antes de o roubo ser tornado público, o secretário-geral da federação britânica Denis Follows encomenda uma réplica. Just in case. Entretanto, o presidente do mesmo organismo Joe Mears é contactado por um tal de Jackson, que exige um resgate de 15 mil libras para devolver a taça, ameaçando derretê-la. Alguns dias mais tarde é detido e a sua identidade descoberta. Trata-se de um antigo soldado de 46 anos chamado Edward Betchley. Da “Vitória”, nem sinal.
Sete dias depois, um pequeno border collie preto e branco chamado Pickles descobre um pacote atrás dos arbustos nos jardins de Beulah-Hill, nos subúrbios de Londres. O dono David Corbett abre-o e depara-se com uma taça dourada com a inscrição “Brasil 1962”. Pickles torna-se herói nacional, salvador do Campeonato do Mundo, e Corbett recebe três mil libras de recompensa. No dia da final, o original e a réplica vão estar em Wembley. A rainha Isabel II entrega o troféu verdadeiro ao capitão Bobby Moore, só que no meio da festa um polícia troca as taças e é com a falsa que os jogadores britânicos continuam a festejar. Pickles e o dono, esses, serão convidados para o banquete que celebrará a vitória de Inglaterra.
Betchley garante que não foi mais do que um intermediário e é condenado a dois anos de prisão. Morre em 1969 sem revelar o nome do mandante. Já a coleira do bom Pickles está exposta no Museu Nacional do Futebol, em Manchester. A não ser que, entretanto, também a roubem.
A primeira Taça a que os vencedores do Mundial têm direito tem uma vida atribulada. É escondida durante a II Guerra Mundial e roubada duas vezes. Pickles salva-a uma vez, só que à segunda é mesmo derretida. O troféu, da autoria de Abel Lafluer, nasce em 1930, dois anos depois de consagrada nos regulamentos que criam o Campeonato do Mundo, e apresenta-se sob a forma de uma figura alada, que representa Nice, a deusa grega da vitória. É feita de prata de lei e ouro, com uma base em lápis-lazúli azul, uma pedra semipreciosa, a ser preenchida com os nomes dos campeões. Pesa 3,8 quilos, mede 35 centímetros e custa 50 mil francos, uma fortuna para a época. É a “Mona Lisa do Desporto”.
Sobrevive à Segunda Grande Guerra ao que tudo indica numa caixa de sapatos colocada por baixo da cama de Ottorino Barassi, dirigente da federação de Itália, que tinha ganho os dois últimos Mundiais, antes de ser depositada num banco em Roma. Em 1946, ganha o nome definitivo, em homenagem a Jules Rimet.
Depois do roubo de 1966, muda-se em definitivo quatro anos depois para o Brasil, que tinha conquistado o terceiro título e, como tal, tinha o direito de a guardar para sempre. No entanto, na noite de 19 de dezembro de 1983 é mais uma vez levada de uma vitrina, agora na sede da CBF. O vidro é à prova de bala, mas a base não resiste a um pé-de-cabra, e nunca mais aparece, apesar dos apelos de Pelé. Muito provavelmente é derretida. O Brasil tem de contentar-se com a sua réplica.
A FIFA encomenda novo troféu para os campeões seguintes, com o italiano Sílvio Gazzaniga a ganhar o concurso e a criar a taça atual, que apresenta dois atletas a segurar o Globo. “Pretende transmitir um sentimento de poder e energia”, assume o autor. É feita de ouro maciço e as faixas verdes de malaquita, um mineral semiprecioso. Mede 36,5 centímetros, pesa 6,175 quilos e ninguém a ganhará em definitivo, apenas uma réplica folheada a ouro.
A localização do original é mantida em segredo. Mesmo com seguro, o seu valor é incalculável. Há quem garanta mesmo que, nas finais, é uma cópia aquela que é entregue aos jogadores para os festejos.
Excerto do livro 'O Campeonato do Mundo: as Histórias e as Estórias', da autoria de Luís Mateus, jornalista de A BOLA, e publicado pela editora Kathartika, em 2022