Treinador do Benfica defendeu os seus jogadores das críticas e enalteceu o seu carácter

Contrato, Real Madrid, idiotas e despedida: tudo o que disse Mourinho

Treinador do Benfica fez viagem pela atualidade depois do jogo com o SC Braga

— Com que sensações sai deste último jogo da temporada no Estádio da Luz?

Saio exatamente com essas sensações de que o Benfica fez um bom jogo. Só não digo muito bom porque não ganhámos e depois poderia parecer um bocadinho contraditório. Mas foi um bom jogo, um jogo a merecer claramente ganhar. Foi a equipa que jogou mais, que atacou mais, que criou mais. Que teve menos eficácia, e a eficácia joga. Eu acho que eles devem ter tido três ou quatro remates, e se calhar só dois à baliza, e fizeram dois golos. Nós tivemos, acho eu, 25 remates, onde eu diria que uma dezena deles foram verdadeiros remates, não remates para a estatística. Tivemos muitas oportunidades de golo. E acho que, repito, só não digo que foi um muito bom jogo porque não ganhámos, mas acho que é um bom jogo sob o ponto de vista coletivo, um bom jogo sob o ponto de vista individual. Boas performances individuais, um domínio claro sobre um adversário que é bom a não deixar-se dominar porque é uma equipa que normalmente tem bola, segura a bola, esconde a bola. Mas nós fomos muito mais fortes e não ganhámos. E quando não ganhas e perdes quase, quase, um objetivo, é difícil dizer que fizemos um muito bom jogo. Mas o meu feeling é de satisfação relativamente aos jogadores, ao esforço que fizeram, àquilo que puseram em campo em termos de qualidade. Não saio daqui defraudado pelos meus jogadores, de todo.

— No dia 1 de março disse: «Quero ficar, respeitar o meu contrato com o Benfica e se quiserem renovar por mais dois anos também o assino sem discutir uma vírgula.» Depois de tudo o que se tem passado e se o contrato estivesse aí agora, assinava?

 Não. Porque 1 de março é 1 de março e porque a última semana do campeonato, as duas últimas semanas do campeonato, não é para se pensar em futuro, não é para se pensar em contratos. É para se pensar na missão que nós tínhamos, que era de fazer o milagre de ficar em segundo lugar. E quando digo milagre acho que vocês percebem o que é que eu quero dizer com o milagre. E a partir do momento em que nós entrámos nesta última fase da época, com estes jogos que decidiam uma coisa importante para o clube eu decidi que não queria ouvir ninguém, que queria estar, entre aspas, isolado no meu espaço de trabalho. E depois, como eu já disse há um par de semanas, há jogo com o Estoril no sábado e penso que a partir de segunda-feira já poderei responder a essa questão, à questão do meu futuro enquanto treinador e do futuro do Benfica.

— Tendo em conta o ambiente que se tem vivido com as arbitragens notou-se que havia jogadores irritados. Como é que vocês têm vivido?

Relativamente aos jogadores, acho que é muito difícil fazer aquilo que eles fizeram, ao longo da época nunca perderam a linha da entrega, do profissionalismo, da perseverança, de resiliência. E acho que o facto de estarmos a uma jornada do final e a equipa não ter ainda perdido um único jogo reflete bem o carácter da equipa. Obviamente que tivemos um par de jogos em que houve culpa nossa – o jogo com o Casa Pia e no Casa Pia –  e eu não gostei nem os jogadores obviamente gostaram, ninguém afeto ao Benfica gostou. Tirando esse par de jogos, os jogadores tiveram sempre muita qualidade, nós fizemos jogos extraordinários. O jogo com o Sporting é extraordinário, o jogo enquanto foi jogo em Famalicão, aqui tiveram períodos de jogo a empurrar completamente o Braga para trás e a ter qualidade no jogo, velocidade, intensidade. A equipa cresceu muito, a equipa atingiu um nível de performance muito bom. Mas como te dizia, é difícil sentir coisas e continuar a lutar. E eles sentiram coisas ao longo da época e não é fácil. E ainda agora lhes disse que obviamente que há críticas, que haverá adjetivos negativos relativamente à equipa, relativamente aos jogadores, relativamente ao treinador. Mas uma coisa são aquilo que os outros dizem, outra coisa é aquilo que nós sentimos. E aquilo que eu sinto relativamente a estes jogadores é que, pelo menos sob o ponto de vista de atitude, da humildade, do respeito, é um grupo intocável. É um grupo com o qual eu me diverti muito, com o qual eu fui para o treino sempre feliz por estar com eles. Saí do treino sempre feliz  por ter trabalhado com eles. É um bom grupo de homens.

— Ir à Champions ou não influenciará ficar no Benfica ou ir para o Real Madrid?

— Não. Está a falar do Real Madrid, eu não estou a falar do Real Madrid, estou a falar do Benfica e o trabalho que temos feito não vai mudar por ser segundo ou terceiro. Não é isso que vai influenciar o meu futuro. Obviamente que o Benfica quer jogar a Champions, eu como treinador também, mas não tem influência alguma.

Galeria de imagens 25 Fotos

— Samuel Dahl merece ir com a Suécia ao Mundial?

— Não sei, a decisão não é minha, é do Graham Potter. A única coisa que posso dizer é que Dahl representa bem o que é a nossa equipa, de boas pessoas, bons miúdos, não é o Roberto Carlos da Suécia, mas é bom jogador e bom homem, alguém que o treinador respeita sempre porque dá tudo. Adorava que ele fosse.

— Vimos um Benfica com muito garra e com muita vontade de ganhar, mas não o conseguiu. O que é que condicionou?

A diferença de eficácia entre uma equipa e outra. Uma equipa que criou duas oportunidades de golo e fez dois golos, e uma equipa que criou dez, que criou quinze, que teve jogadores que foram demolidores, como o Schjelderup, por exemplo, que fez um jogo completamente demolidor, de uma qualidade absolutamente incrível. Mas nós não tivemos eficácia em transformar em golos tudo aquilo que criámos. Obviamente que não quero dizer que defensivamente fomos perfeitos porque sofremos dois golos, mas sofremos um golo com um remate de fora da área, impossível para o guarda-redes defender e de um cruzamento do lado direito. Não o ouvi, mas custa-me acreditar que o Carlos Vicens tenha dito alguma coisa contrária à minha. Ele é um rapaz fantástico, não acredito que ele tenha dito alguma coisa diferente. O Benfica em condições normais tinha feito três ou quatro golos tranquilamente e tinha ganho o jogo.

— Quando falou do grupo de trabalho e do quanto se divertiu com os jogadores esta época, soou muito a despedida. Não acha que os adeptos do Benfica merecem uma resposta clara sobre o seu futuro ou considera que não lhe cabe a si dar essa resposta?

Claro que me cabe a mim dar essa resposta. Vocês já me viram esconder alguma vez das minhas decisões, das minhas responsabilidades? Agora que ninguém me obrigue a decidir e muito menos a comunicar decisões porque sou eu que decido os momentos. Eu não estou em condições de lhe responder. Na minha cabeça, desde que se começou a falar de hipóteses, na minha cabeça só via uma coisa, que é trabalhar e fazer o meu melhor e não vou acabar até ao jogo com o Estoril. É o respeito que o Benfica merece, é o respeito que a minha profissão me merece e que ninguém toque aí. A não ser que algum idiota o faça, mas na minha dignidade profissional e na minha honestidade e no meu respeito para com um clube como o Benfica, que ninguém toque aí. Portanto eu tenho o direito de me manter isolado. Eu continuo a dizer que não falei com ninguém de outro clube, agora fala-se do Real Madrid mas podia estar a falar-se de outro clube qualquer, não falei com ninguém de nenhum clube. Mas a partir do momento em que entrámos nesta fase terminal da época eu acho que não fazia sentido absolutamente nenhum fazer outra coisa que não fosse concentrar-me naquilo que é o meu trabalho. A partir de domingo terei oportunidade. Quando você diz que soava a despedida, não soa a despedida, não. Soa ao respeito que eu tenho por eles e soa a uma defesa antecipada, porque o futebol tem estas coisas, o futebol é muito ingrato muitas vezes, e eles serem criticados hoje parece-me de uma injustiça... Quando eu os critiquei a seguir ao Casa Pia saiu-me do coração, saiu-me da alma, foi muito criticado por isso, mas essa é a minha natureza, a minha natureza é tentar ser sempre justo com os meus jogadores. E hoje que é o dia em que se pensa que o Benfica não terminará em segundo lugar, é o dia em que eu tenho de sair e de os defender porque acho que eles merecem. E fico-me por aqui porque não quero começar a próxima época castigado. Decidi ficar por aqui. Só falta um jogo, só faltam oito dias, normalmente as suspensões vêm 20 dias, 30 dias, 40 dias, cinco jogos, quatro jogos, não sei o quê.

A iniciar sessão com Google...