«Até o míster dizia: 'Vamos lá despachar isto, que o Jorge tem de ir dormir'»
— Que balanço faz de um ano e meio na Arábia Saudita?
— Foi um ano e meio de uma experiência diferente, numa cultura diferente, mas da qual faço um balanço muito positivo, tanto a nível pessoal como profissional. Quando fui para a Arábia, o Al Fateh não estava a atravessar uma boa fase. Só tinham nove pontos à entrada para a segunda volta, por isso conseguir a manutenção era um desafio grande. Mas conseguimos, devido a um excelente grupo de trabalho e àquilo que todos fizemos. Esta época já foi mais tranquila. É um campeonato em crescimento, também graças aos jogadores que têm ido para lá. Acredito que vai continuar nessa curva ascendente nos próximos anos.
— Acredita que a sua chegada teve peso decisivo na inversão do momento delicado que o Al Fateh atravessava?
— Acredito que sim e acredito que as pessoas do clube também olharam para mim nesse sentido quando me foram buscar. O clube estava numa fase menos positiva, nove pontos em 15 jogos era muito pouco... Muita gente com quem falei antes de ir já me dizia: «Vai ser muito complicado.» Mas a verdade é que as coisas mudaram, porque o clube fez um mercado de janeiro muito forte para conseguir a manutenção. Os jogadores que estavam a chegar, como eu, já sabiam que teríamos esse peso de dar uma imagem diferente. Quando correspondes a essa expectativa, é uma conquista. Acaba por haver sempre uma dúvida ou outra, mas sentes que o teu trabalho é recompensado. De Portugal fui eu e o Zaydou [Youssouf] e também foram buscar o Matías Vargas à China, um excelente jogador, que fez a diferença. Sinto que tive um papel importante e, acima de tudo, que consegui desempenhar o meu papel.
— O «sim» ao Al Fateh surgiu mais pelo aspeto financeiro ou o desafio desportivo também pesou?
— Há uma história curiosa por trás da transferência. Eu estava no Vitória de Guimarães, clube pelo qual tenho enorme apreço, mas terminava contrato e queria uma nova experiência no estrangeiro. A oportunidade surgiu após um jogo que ficou na memória por razões negativas: a derrota na Taça frente ao Elvas. Nesse jogo, caio mal e faço uma luxação na clavícula. Tive um flashback, porque no início da época já tinha sido operado ao outro ombro. No processo de recuperação, surge o Al Fateh. Fiquei contente pelo desafio, mas preocupado porque não estava a 100%. Foi um processo complexo de avaliação médica entre os clubes. No final, recuperei totalmente e consegui ajudar. Sabia que ia haver pressão devido à situação do clube, mas confiava nas minhas capacidades. Pusemos todos os cenários em cima da mesa e, felizmente, o desfecho foi o melhor.
— No Al Fateh, trabalhou com o míster José Gomes. De que forma é que ele contribuiu para a sua evolução?
— Foi um gosto enorme trabalhar com uma equipa técnica portuguesa, tornou a adaptação muito mais fácil. O míster tem qualidades imensas, especialmente na gestão humana e na proteção do grupo. Ele cria uma base forte com os jogadores, o que explica o sucesso em campeonatos mais periféricos. Taticamente, o estilo da liga saudita, muito focado no duelo individual, ajudou-me a crescer. É um jogo muitas vezes desequilibrado, onde atacamos com muitos homens e ficamos expostos em transição. Como defesa-central, isso obriga-te a uma responsabilidade extrema: tens de ganhar o teu duelo, ou colocas a equipa em xeque. Aumentei os meus índices de agressividade e eficácia defensiva. O míster deu-me também muita liberdade com bola, permitindo-me desenvolver o meu jogo dentro do processo da equipa.
— Houve algum choque cultural maior ou experiência insólita na Arábia Saudita?
— Muitos! A nível pessoal, tive a família comigo e a minha esposa adaptou-se lindamente, respeitando a cultura e usando a abaya quando necessário, o que nos deu liberdade. Desportivamente, o maior choque é o ritmo de vida. Eles vivem muito à noite. É perfeitamente normal, nas vésperas dos jogos, eles estarem acordados, a socializar e a brincar até às quatro ou cinco da manhã. Eu mantive os meus hábitos europeus, mesmo durante o Ramadão. Às vezes acordava de noite e ouvia barulho no quarto ao lado. No início estranha-se, mas depois percebes que é a cultura deles. Até o míster José Gomes brincava nas reuniões: «Vamos despachar isto, que o Jorge tem de ir dormir». Outra curiosidade: eu levo sempre a minha balança para os estágios para pesar a comida. Eles ficavam incrédulos: «Tu trazes isso? Porquê?». Não há uma forma de estar certa e outra errada. O mais importante é que a equipa vença.