Mundial
Mundial
As duas estátuas
Os portugueses vivem em ambivalência a cada quatro anos. Oscilamos entre a certeza absoluta de que a Seleção Nacional vai ser campeã do mundo e a certeza absoluta de que não somos favoritos, nem candidatos, nem rigorosamente nada. Vivemos entre a noção de que só Luiz Felipe Scolari poderia ter levado Portugal à final de um Europeu e à meia-final de um Mundial e a ideia de que o brasileiro sempre foi, apenas e só, um bom psicólogo e um bom gestor de homens. Por fim, a ambivalência das ambivalências, a rainha de todas as ambivalências: Cristiano Ronaldo. Para uns, é o maior dos maiores, o GOAT dos GOATs, aquele que deve jogar sempre porque é melhor do que Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes, juntos ou em separado. Para outros, Ronaldo está velho, não corre, não se mexe, não defende, não recua e nem sequer devia ter sido convocado, quanto mais jogar 90 minutos atrás de 90 minutos.
Lembro-me sempre da primeira vez que ouvi alguém falar de uma espécie de trazer à terra os jogadores (ou, como neste caso, os portugueses). Um dia, lá por 2004 ou 2005, ouvi José Mourinho dizer algo como isto: se os meus jogadores estão eufóricos, tenho de lhes baixar a euforia; se estão tristes, tenho de os arrebitar. O segredo, no fundo, é recentramento. Ou, como dizem os anglófilos, back to basics. O regresso ao essencial. Mas no futebol, como bem sabemos, é complicado ser racional. Ou é preto ou é branco. Nunca cinzento. Ou é alto ou é baixo. Nunca mediano. Ou é gordo ou é magro. Nunca alguém tem o percentil certo. É aqui que entra a frase futebolística que mais se tem ouvido nos últimos anos e que, apesar de verdadeira, jé demasiado enfadonha, por que tão repetida: «Não éramos os melhores do mundo, nem agora somos os piores». E é verdade.
As ambivalências do momento têm rostos claros: Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo. A ambivalência em redor do selecionador nacional é, contudo, diferente: gira quase sempre em torno do pior extremo. Há quem diga que ele é apenas razoável, enquanto outros dizem que é muito mau. São poucos os que acham que é o homem certo no lugar certo. Era mau quando Portugal empatou com a RD Congo, passou a razoável após a goleada ao Uzbequistão e voltou a descer depois do empate com a Colômbia. Talvez volte a ser razoável se a Seleção ultrapassar a Croácia, e só será medianamente bom se bater a Espanha (ou a Áustria, claro). Foi assim com Fernando Santos antes e depois do Euro 2016. Pelo meio, em França, foi excelente.
Quanto a Ronaldo, os portugueses oscilam, estranhamente, entre o amor e o ódio ao capitão. Ódio quando falha golos como os de Congo e da Colômbia; amor quando marca dois golaços como os que marcou ao Uzbequistão. Talvez dentro de dias voltemos a amar o que hoje alguns odeiam. E se Portugal ganhar o oitavo jogo neste Mundial, os que agora o criticam gritarão GOAT!, GOAT!, GOAT! Tem sido assim de quatro em quatro anos (2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026), ou de dois em dois, se juntarmos os Europeus.
Na minha própria ambivalência, vou oscilando entre o sim, o homem já não pode ser sempre titular e o se não for ele, quem? Só não aceito é que a agressividade chegue ao ponto de dizer que Portugal, frente à RD Congo, jogou com dez homens e uma estátua, como escreveu um jornalista inglês. Prefiro dizer quase o contrário. Portugal, frente à Colômbia, jogou com oito homens e duas estátuas. Mas as estátuas que deveriam ser erguidas, em Miami, a Diogo Costa e a Renato Veiga.