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Amor em fora de jogo: o pacto de beijos e arepas que une Portugal e Colômbia
MIAMI — O cenário em redor parece saído de um postal ilustrado, daqueles que alimentam o imaginário de quem sonha com o sul da Florida. O céu está limpo, as palmeiras ondulam de forma compassada sob a brisa marinha e o areal dourado de Miami Beach estende-se até perder de vista no horizonte.
No entanto, esta calmaria idílica é puramente visual. Na dia do escaldante Colômbia-Portugal, que fechará as contas do Grupo K do Mundial 2026, a tensão desportiva mudou-se para dentro de portas.
Encontrámos o Frederico Gonçalves e a Catalina a passear junto à praia. Ele um orgulhoso portuense, ela uma fervorosa cidadã de Medellín. Vivem juntos no coração da chamada «capital da América Latina», mas assumem de forma bem-humorada a A BOLA que a diplomacia doméstica vai sofrer um valente teste de 90 minutos esta noite.
«Não tem sido nada fácil gerir os dias em casa à medida que a hora do jogo se aproxima», começa por confessar Frederico, entre risos, devidamente equipado com a camisola alternativa de Portugal. «Sabemos que vai ser um jogo interessante e tenso. Estamos os dois muito confiantes no valor das nossas seleções, mas já fizemos um pacto. Quando o árbitro apitar para o fim, aconteça o que acontecer no relvado, damos um beijo e o vencedor consola o derrotado», revela o português.
Catalina, exibindo com orgulho a camisola amarela da Colômbia e segurando um leque tradicional para combater o calor infernal da Florida, acena com a cabeça, mas deixa um aviso claro. «Em nada este jogo vai ser uma simples brincadeira! Que ganhe o melhor, mas no que depender de mim, os dois temos de passar à fase seguinte. É pelo bem e pela sobrevivência da nossa relação! Se um de nós ficar pelo caminho logo na fase de grupos, as coisas em casa vão ficar muito complicadas», atira, divertida.
A história deste casal começou em 2018, quando Catalina se mudou para Miami. Foi o culminar de um «amor à primeira vista», intermediado por amigos comuns num convívio ao fim da tarde. «Conectámo-nos imediatamente», recorda a colombiana com um brilho nos olhos: «Apesar de todas as diferenças culturais, descobri que ele adorava a Colômbia e que já conhecia o meu país.»
Frederico corrobora a mística do primeiro encontro, mas acrescenta uma nuance com humor bem português. «Foi amor à primeira vista, sim, mas como bom português tive de lutar bastante para a conquistar! No início ela não me dava muita atenção, fazia-se difícil, mas fui insistindo e o toque luso acabou por vencer a muralha», brinca.
Frederico chegou aos EUA muito antes, impulsionado por outra modalidade. Natural do Porto, viveu na Invicta até aos 18 anos, tendo o ténis como grande paixão da sua vida. Começou a jogar aos 5 anos, competia aos 10 e, aos 14, já viajava pelo mundo, somando torneios na Bélgica e na Rússia. Foi campeão regional de sub-16 e sub-18, e venceu o nacional de clubes pelo Ténis da Foz.
Contudo, uma lesão grave entre os 17 e os 18 anos forçou-o a recalibrar o destino. Surgiu a oportunidade de uma bolsa de estudo em Kentucky, onde se licenciou em International Business, partilhando balneário com atletas da Austrália, Eslovénia, Bielorrússia ou França.
«Foi um choque cultural, mas abracei a oportunidade», explica Frederico. Em 2010, mudou-se em definitivo para Miami para trabalhar numa prestigiada academia de ténis. Hoje, trabalha por conta própria, viajando pelo circuito com um jogador profissional da ATP, e assume funções na I Click Go, uma empresa portuguesa de turismo onde atua como travel advisor: «A ideia é levar americanos para Portugal e trazer europeus a conhecer Miami. E o ténis ajuda muito a abrir essas portas.»
Apesar de estar radicado na Florida, Frederico nunca quebrou o cordão umbilical com a pátria. «Volto sempre no verão. Sinto muita falta das pessoas com quem cresci», confessa. A paixão partilhada pelo desporto estende-se, inevitavelmente, à gastronomia. Em casa do casal, a ementa dita leis territoriais. «Tenho de confessar que comemos mais comida colombiana», assume o portuense. «Tornei-me um fã incondicional de arepas! Mas quando cozinhamos à portuguesa, aproveitamos ao máximo. Ela adora tudo o que venha do mar. O polvo é o prato preferido dela, e os pastéis de nata são o verdadeiro pecado mortal da Catalina.»
Portista ferrenho, Frederico não esquece os craques colombianos que passaram pelo FC Porto
Para o jogo da madrugada deste domingo, o prognóstico do Frederico aponta para o equilíbrio, embora o coração clubístico também venha ao de cima. Como portista ferrenho, ele não esquece os craques colombianos que brilharam no Estádio do Dragão.
«Eu sempre acreditei num empate a uma bola para este jogo. Claro que quero que Portugal ganhe, mas a Colômbia está muito forte fisicamente e tem a capacidade de mudar o ritmo do jogo a qualquer momento. Eu sempre tive um carinho enorme pela Colômbia por causa dos jogadores que passaram pelo FC Porto: Jackson, James, Luis Díaz, Falcao ou Guarín. Marcaram a nossa história.»
Do lado colombiano, o respeito pela armada lusa é total, mas a ambição não fica atrás. Catalina já conhece Portugal e recorda com paixão o impacto que o País teve nela.«Eu adorei Portugal, as pessoas super queridas, o mar, a comida... Mas este sábado, se Portugal ganhar, vou com vocês até ao fim do Mundial, mas primeiro temos de garantir que a Colômbia chega o mais longe possível! Colômbia até ao fim!», exclama, puxando pelo grito de guerra da seleção sul-americana.
A fechar a conversa com A BOLA, o ambiente descontraído deu lugar ao momento de união oficial. Frente à câmara, Frederico puxou pelos galões: «Portugal, Portugal, Portugal, vamos embora!» ao mesmo tempo que Catalina erguia o punho e gritava «Colômbia!».
Duas nações em rota de colisão no relvado, mas perfeitamente sintonizadas no coração de Miami. Esta noite, o Hard Rock Stadium ditará quem sorri primeiro, mas em casa deste casal, o amor já garantiu a vitória por antecipação.
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