Seleção cabo-verdiana perdeu, mas levou a campeã do mundo Argentina a prolongamento - Foto: IMAGO

No futebol moderno há cada vez mais informação ao dispor das equipas técnicas. O nível de detalhe patente no futebol ao mais alto nível chega a ser assustador, tantas são as ferramentas e as métricas que procuram limar arestas, ajustar posicionamentos, corrigir comportamentos e aproximar as equipas da perfeição inalcançável. 

O pormenor surge frequentemente nos debates, nas conversas e nas análises futebolísticas. Quantas vezes não ouvimos dizer que o jogo foi decidido por uma questão de pormenor? Que o pormenor X ou Y foi fundamental para que determinado rumo tivesse sido alterado, influenciando decisivamente a história do jogo?

Eu percebo esta obsessão pelo pormenor. Também sou treinador. Adoro a análise de jogo. Também quero controlar tudo até ao mais ínfimo detalhe. E à semelhança do saudoso Mestre Telê Santana também procuro aproximar-me da perfeição, visto saber ser impossível alcançá-la. 

Mas também percebo que num futebol cada vez analisado ao milímetro e controlado ao milésimo de segundo, há fatores que não controlamos. Que não devemos sequer controlar. Fatores que são intrínsecos e não extrínsecos. Fatores que, por norma, não se ensinam, pois nascem connosco.

Abel Ferreira fala inúmeras vezes das capacidades volitivas dos seus jogadores na S.E. Palmeiras. Ontem, ao ver Cabo Verde levar a Argentina à exaustão, lembrei-me dele e das suas palavras. Perante a atual campeã mundial de futebol, Cabo Verde presenteou-nos com uma lição de humildade, de querer, de raça, de determinação. Mostrou-nos ser possível transformar probabilidades em possibilidades. Guiou-nos ao longo de 120 minutos por uma narrativa escrita em tons de superação, sublinhada por uma energia inesgotável e assinada por uma crença inabalável. Fez-nos crer que a ausência de talentos individuais capazes de  resolver um jogo sozinhos pode ser suprida quando se tem um coração gigante e uma alma ainda maior. Quando se tem um grupo que sabe carregar com orgulho o peso da responsabilidade de representar os sonhos de toda uma nação.

Cabo Verde fê-lo também porque do ponto de vista estratégico e técnico-tático esteve sempre muito bem preparado. Não só ontem, mas ao longo de toda a competição. Mérito  total para Bubista e para a sua equipa técnica. Especialmente por ter encontrado na alma a melhor abordagem tática para a sua seleção.

No adeus dos Tubarões Azuis a este Mundial, a minha vénia a quem tanto nos fez sorrir e sonhar: «Não chorem porque acabou…Sorriam porque aconteceu.»

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