Mircea Lucescu em 2011 (Foto: ASF/Alexandre Pona)
Mircea Lucescu em 2011 (Foto: ASF/Alexandre Pona)

Adeus, Lucescu: um senhor do futebol apenas ultrapassado por Guardiola e um Sir

Lendário treinador romeno morreu aos 80 anos. Deixa um legado sem igual dentro e fora de campo, que jamais será esquecido

O futebol está coberto por um manto negro de luto com a morte de Mircea Lucescu, aos 80 anos. O lendário treinador romeno morreu esta terça-feira, 7 de abril de 2026, no Hospital Universitário de Bucareste, na sequência de diversas complicações de saúde, que não o impediram de tentar guiar o seu país ao Mundial 2026, tendo estado no banco no encontro do play-off de apuramento com a Turquia a 27 de março, onde os romenos perderam por 0-1.

Lucescu estava internado há uma semana, depois de ter desmaiado no balneário da seleção devido a uma taquicardia enquanto dava uma palestra. Na sexta-feira, sofreu um enfarte quando se preparava para ter alta. O estado de saúde agravou-se durante a última noite com arritmias severas, culminando no seu falecimento por volta das 20h30 horas locais (18h30 em Lisboa).

Uma vida feita de futebol

A dedicação de Lucescu pelo desporto que move mundos não é mensurável: desde o final dos anos 60, quando deu os primeiros passos como jogador, Lucescu esteve ligado ao futebol em todos os anos de vida até à morte, excetuando um pequeno hiato de dois anos entre 2018 e 2020.

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O clube mais sinónimo com a carreira jogador foi o Dínamo de Bucareste. Nasceu nessa cidade a 29 de julho de 1945 e era o clube que representava quando foi com a seleção da Roménia ao Mundial de 1970 (o primeiro em que o país participou desde 1938). Foi internacional por 64 vezes, capitão da seleção e no Dínamos ganhou sete campeonatos romenos.

O pendurar das botas coincidiu com a transição para o banco, no Corvinul, onde começou como treinador-jogador e levou a equipa à primeira divisão e a uma histórica qualificação para as competições europeias.

Eterno

O regresso à seleção deu-se logo de seguida com um objetivo em mente: conseguir a qualificação para o primeiro Europeu da história da seleção, o de 1984. Objetivo conquistado e com distinção, ao alcançar o 1.º lugar num grupo de qualificação que incluía Suécia, Checoslováquia, Itália e Chipre.

Na prova, Lucescu e a Roménia empataram (1-1) com Espanha, mas depois perderam para Alemanha (1-2) e para Portugal (0-1).

Foi também sob a sua orientação que uma das maiores lendas do futebol romeno, Gheorghe Hagi, se estreou pela seleção nacional. O momento ocorreu a 10 de agosto de 1983, num jogo amigável contra a Noruega que terminou empatado a zero. Na altura, Hagi, que ficou conhecido como o Maradona dos Cárpatos, tinha apenas 18 anos. Agora, o mesmo Hagi é apontado a sucessor de Lucescu na seleção.

Só batido por Ferguson e Guardiola

Lucescu regressou ao clube da sua vida de jogador em 1985 e lá conquistou os primeiros títulos da carreira de treinador, começando com a Taça da Roménia em 1986. Também passou por Pisa, Brescia, Reggiana, Inter, Rapid de Bucareste, Galatasaray e Besiktas, antes de chegar ao clube que moldou muito da carreira de treinador.

Em 12 anos no Shakhtar Donetsk, Lucescu ganhou nove campeonatos, sete taças e oito supertaças, assim como a Taça UEFA, em 2008/09. O outro troféu europeu que conquistou foi a Supertaça europeia em 2000, com um bis de Mário Jardel a decidir a partida frente ao Real Madrid (2-1).

Ao todo, ganhou 35 troféus, números que só outros dois treinadores bateram na história do futebol: Sir Alex Ferguson (49 títulos) e Pep Guardiola (40 títulos). Dos treinadores no ativo, o que mais se aproxima de Lucescu é Carlo Ancelotti (31 títulos).

Admiração de Jorge Jesus

A Turquia foi a segunda seleção que treinou, não conseguindo o apuramento para o Mundial 2018. Aqui é que teve o primeiro ano de pausa do futebol desde o início da carreira de jogador, antes de assumir o Dínamo de Kiev em 2020. Foi com este emblema que encontrou o Benfica de Jorge Jesus na fase de grupos da Champions League em 2021.

«O Dínamo tem um dos treinadores mais titulados do mundo. É um treinador por quem tenho um respeito muito grande», disse Jorge Jesus na antevisão ao primeiro encontro entre essas duas equipas.

«A grande maioria dos treinadores têm a mesma ideia do senhor Lucescu. Acreditam num sistema e trabalham nesse sistema a 100%. Ele acredita e tem razão. Sabemos bem qual é a ideia de jogo dele e sabemos que dificilmente vai mudar esse sistema. Vamos jogar com uma boa equipa. Não sinto que o Dínamo Kiev tenha uma diferença tão grande para o Barcelona e Bayern. A começar pelo treinador», apontou, recordando os outros adversários desse grupo, no qual o Dínamo acabou no último lugar com um ponto, fruto de um empate com as águias.

No final da época 2020/21, Lucescu ganhou os últimos troféus da carreira: liga, taça e Supertaça da Ucrânia.

Uma frase que marca a vida

Endeusado na Roménia e com uma presença que extrapolou o futebol, Mircea Lucescu deixará um vazio no país que provavelmente jamais será preenchido e uma marca inesquecível (e muito difícil de ultrapassar em termos de troféus ganhos) na história do futebol mundial. Um legado que nem aos 80 anos queria terminar, como explicou numa entrevista em julho de 2025, por ocasião do 80.º aniversário:

O que sempre me impulsionou foi a curiosidade, sempre quis conhecer, aprender com a experiência dos outros. O futebol representa a parte bonita da vida. Quando se veem os estádios cheios, a atmosfera criada pelos adeptos entra na pele do jogador. É por isso que os jogadores devem entender que não jogam para si, jogam para as pessoas.