A inversão dos valores do desporto

O desporto precisa de exemplos que nos façam acreditar que o importante não é sódinheiro

Ofutebol deixou de ser apenas um desporto e tornou-se numa indústria que tem uma dimensão única no mundo. Socialmente é um fenómeno difícil de explicar. Mexe com as pessoas, gera paixão e muitas vezes ódios. Faz com que a maior parte dos adeptos se tornem irracionais.

O SONHO QUE SE FOI ALTERANDO 

NO futebol, como no desporto, não existem classes sociais. Existe talento, esforço, dedicação, compromisso, superação e ambição. Ao longo dos anos, a forma como se olha para o futebol foi mudando. Não por o jogo se ter tornado desinteressante. O futebol jogado, as condições de trabalho e as ferramentas à disposição tiveram uma evolução incrível.  Desde sempre, muitos jovens demonstraram o sonho de serem jogadores de futebol. Numa primeira fase, era a paixão que comandava. Poder representar um grande clube ou a seleção era o objetivo que muitas crianças tinham, simplesmente porque o futebol e o seu clube tinham um espaço importante no seu dia-a-dia. Com o passar do tempo e com a transição de simples desporto para indústria, o futebol tornou-se numa profissão bem paga para alguns. Com a globalização do mundo, o ser bem pago tornou-se numa forma de alcançar o estatuto de superstar ou influencer, que entusiasma e motiva muitos jovens e adultos. 


COMEÇAR NA BASE 

GERAÇÃO após geração a paixão pelo futebol está sempre presente. O sonho que o pai tinha, de ser jogador de futebol, passa para o filho e assim sucessivamente. Para termos uma sociedade saudável é muito importante que as crianças tenham sonhos e que acreditem que os podem alcançar. Ao longo de décadas, o desporto tem promovido exemplos de que é possível ultrapassar barreiras que, à partida, seriam impensáveis. Para que os sonhos tenham o papel adequado no desenvolvimento das crianças é necessário que os progenitores também saibam gerir os seus próprios sonhos e expectativas relativamente aos filhos. Digo isto porque vejo (agora e quando jogava) regularmente pais a pressionarem os filhos, a exigirem que estes tenham rendimento ou a colocar em causa treinadores por não darem destaque aos seus descendentes. Assisto ainda a pressões sobre o árbitro, vindas da bancada, e a miúdos que são telecomandados pelos seus pais, que gritam para o relvado para dizerem o que devem ou não fazer no retângulo de jogo. Todos estes comportamentos resumem-se a uma palavra: desrespeito. Posso não concordar com muitas coisas que vejo à minha volta, mas tenho de ter a noção que devo respeitar o lugar de cada um. Goste-se ou não, o treinador é quem comanda os seus jogadores dentro do relvado e o árbitro é quem assegura que as regras do jogo são aplicadas. Devem, por isso, ser respeitados.

A GALINHA DOS OVOS DE OURO 

SE antigamente o sonho de ser futebolista tinha quase tudo a ver com a paixão e o reconhecimento que envolve a profissão, nos dias de hoje, existe a questão monetária que torna tudo muito mais complexo. Muitos dos comportamentos agressivos que surgem das bancadas, nas camadas jovens, têm a ver com dois fatores distintos: falta de cultura desportiva e de perceção de que os adversários também têm mérito e que podem ser melhores; o segundo fator prende-se com o facto de o sonho dos pais se ter alterado, ao longo dos anos. Hoje, os pais desejam que os seus filhos sejam jogadores profissionais de futebol para poderem ganhar muito dinheiro. É aqui que surgem vários problemas. O primeiro é a perceção errada de que todos os jogadores de futebol ganham milhões. São muito poucos os que conseguem ganhar o suficiente para no pós-carreira poderem viver de rendimentos! O segundo é a falta de noção que muitas vezes se tem sobre a evolução de um miúdo. Não basta ter jeito. Existem muitos outros fatores que influenciam e que são decisivos para um jogador conseguir singrar. A falta de perceção dos pais leva a que, em muitos casos, a expectativa e a pressão em torno das crianças seja mal gerida, fazendo com que todos fiquem frustrados. Os pais porque tornaram o sonho dos miúdos num pesadelo, pela pressão que lhes colocam, e os miúdos porque se dedicaram muito a algo que acabou por não acontecer, gerando alguma frustração. 

ALTERAR AS REGRAS OU SEGUIR ESTE CAMINHO? 

P RATICAR desporto traz muitos benefícios. No caso das crianças ainda mais. Poderem estar incluídos numa equipa, partilharem valores, aprenderem a trabalhar em equipa, serem solidários, colocar o nós acima do eu, partilharem experiências, habituarem-se a gerir a ansiedade, respeitarem as regras de grupo e os adversários ou gerirem a frustração dos insucessos são apenas alguns exemplos das mais-valias que podem ser retiradas. Do lado das associações e dos clubes deve haver a perceção de que as crianças necessitam de espaço e liberdade para se expressarem, para crescerem, para experimentarem, para acertarem e errarem. Os valores que o desporto transmite permitem tornar crianças em adultos mais equilibrados e capazes. Olhando para o futebol, desde o meu tempo até aqui, noto uma diferença que me faz pensar sobre o caminho que estamos a seguir. Se hoje for ver um jogo de sub-13 já encontro muitos jogadores que são agenciados. Isto faz sentido? Depois de pesquisar um pouco, verifiquei que já há miúdos agenciados com 10 anos! Qual a vantagem de ter um empresário com 10 ou com 13 anos? Qual a expectativa que foi apresentada aos pais e a estas crianças? Como é que um agente consegue ter a perceção sobre qual vai ser a evolução de um miúdo com 10, 11, 12 ou 13 anos? As entidades competentes estão atentas a estes factos? Não deveria haver regulação que impeça este tipo de situações? A ganância de alguns não deveria ter influência na vida e no desenvolvimento das crianças. Este princípio jamais deveria ser ultrapassado. 

VIVEMOS DE EXEMPLOS 

N AS últimas semanas temos sido invadidos por notícias sobre propostas milionárias provenientes da Arábia Saudita. Valores impensáveis para o comum dos mortais. Não posso condenar aqueles que aceitam dar esse passo nas suas carreiras, até porque reconheço que se estivesse numa situação similar teria de pensar muito bem na escolha que iria fazer. Contudo, tenho a noção de que o desporto precisa de exemplos que nos continuem a fazer acreditar que o importante não é só dinheiro. Há muito mais do que isso. É paixão, sonho, ambição, motivação e reconhecimento. Analisando o exemplo de Mbappé: oferecem-lhe €700 milhões ao ano! Tem 25 anos e ganha 100 milhões de euros. É verdade que vai ganhar sete vezes mais, mas será que a sua vida iria mudar assim tanto se aceitasse esta proposta? Mudaria se ganhasse €1000 e fosse ganhar €7000! Ao recusar a proposta está a demonstrar que para ele, nesta fase, o mais importante é focar-se na sua profissão, continuar a jogar ao mais alto nível e ficar na história do futebol, demonstrando ambição e desejo de deixar a sua marca. Isto é algo que dinheiro algum paga. Vimos recentemente Marco Silva rejeitar duas propostas incríveis de 40 milhões de euros em dois anos, que é muito mais do que ganha atualmente no Fulham. Porque é que as rejeitou? Sobretudo por dois motivos. O primeiro porque se esforçou muito por voltar a entrar na Premier League. O segundo porque tem a paixão e a ambição de chegar a um clube de maior dimensão (valorizando a realização desportiva), e entende que o caminho que está a fazer é o correto. Numa sociedade que é cada vez mais superficial, é importante que existam exemplos que nos demonstrem que os sonhos, a ambição e a realização pessoal estão acima da questão monetária. O dinheiro não compra tudo.

A VALORIZAR 

 

Diogo Ribeiro. Com apenas 18 anos já fez história no desporto em Portugal. Depois de ter sido o terceiro português a alcançar uma final num campeonato do mundo de natação, conseguiu o que nunca ninguém tinha feito: a medalha de prata é o culminar de um trajeto impressionante e o Diogo só tem 18 anos! 

 

 

Seleção de Futebol Feminino. As nossas jogadoras têm um discurso entusiasmante e confiante. Depois da derrota com os Países Baixos, entraram com tudo frente ao Vietname. Demonstram paixão, entusiasmo, alegria, motivação e ambição. Fizeram um jogo de grande qualidade e que demonstra a forma como o futebol feminino está a crescer em Portugal. 

 

A DESVALORIZAR 

 

João Félix. As declarações que efetuou referindo que o Barcelona sempre foi a sua primeira escolha foram precipitadas. Complicou a sua situação no Atlético de Madrid que já não estava fácil. Aos 23 anos ainda não conseguiu deixar o rótulo de promessa para se transformar numa certeza.