A invasão espanhola da Páscoa

Houve um Benfica-FC Porto e nem souberam. À hora do jogo, apenas queriam ter um bilhete para poderem entrar nos ‘Pastéis de Belém’

T ODOS os anos, pela Páscoa, os espanhóis vingam-se da sua penitente e intensa tradição e invadem Portugal. A primeira coisa que dá para perceber é que são muitos. Bastante mais do que nós. Começam pelo bacalhau dourado em Elvas e devastam todos os restaurantes que encontram pelo caminho. Do Minho ao Algarve. Do Alentejo à Extremadura. 

O problema é que, sendo muitos, nenhum espanhol passa despercebido nas ruas e avenidas das cidades e vilas portuguesas. Falam no limiar máximo dos decibéis e dirigem-se a qualquer incauto transeunte com a certeza de que em Portugal entendem tão bem o castelhano como se estivessem a passar férias em Miami. Mas Portugal tem, de facto, uma vantagem enorme sobre a Florida. Tem o mesmo sol, melhores praias, hotéis deslumbrantes, melhor marisco e é tudo muito barato, se considerarmos a exceção das bilhas de gás e da gasolina. Ora, como se deve calcular, os espanhóis que vêm a Portugal pela Páscoa podem estar interessados em comprar turcos, roupas, sapatos, café, enfim tudo menos bilhas de gás. E quanto à gasolina, a preocupação não é muita. Enchem o depósito em Badajoz, em Tui ou Ayamonte e regressam com o estritamente necessário para chegarem à fronteira.

Nós, aqui, em A BOLA, em pleno coração do Bairro Alto com vistas para o Chiado, tropeçamos em espanhóis sempre que saímos à rua e ainda nos conseguimos espantar quando jantamos num restaurante e notamos a diferença daquela sonoridade reconhecidamente estridente e impiedosa.

O pobre do Pessoa que, em vida, se dividia entre a língua portuguesa e a inglesa e não aturava espanhóis, agora que vive da sua própria memória numa estátua com chapéu e perna traçada, à beirinha da Brasileira, chega a ter espanholas sentadas no seu colo para a fotografia turística. Vejam bem, o pobre génio português, para o que havia de estar guardado. Ele que nessa matéria feminina sempre foi, mais do que recatado, ausente.

É curioso ter dado comigo a pensar que os espanhóis são, um pouco, como os pombos. Andam em bando e depenicam tudo o que encontram. Porém, se têm, em Portugal, uma Santa da sua devoção, essa é Santa Maria de Belém que tem o altar mais frequentado do mundo com aqueles pastéis deliciosos e estaladiços, com um tudo nada de açúcar e canela.

Curiosamente, na Sexta-feira Santa, quando o país visitado vivia, nervoso, o Benfica-FC Porto, os espanhóis nem sabiam disso. É que uma das curiosidades que mais diferencia os dois povos é precisamente o futebol. Não no gosto e na paixão do jogo que, essa, existe em toda a grande Ibéria, mas no conhecimento e no interesse que despertam os clubes. Nós, aqui, sabemos tudo sobre o Real Madrid, o Atlético de Madrid e o Barcelona, até sobre o Valência, o Sevilha e o Rayo Vallecano, eles, em Espanha, têm uma vaga ideia vaga de que existe um tal de Benfica, um Oporto e um Sporting de Lisboa dos quais  só verdadeiramente se lembram quando jogam com um dos deles nas competições europeias.

Nós respondemos de forma vingativa com o PAN, que está uni representado na Assembleia da República, odeia touradas e as considera, pura e simplesmente, uma barbárie própria de povos selvagens, daqueles que, ao contrário do nosso, construíram o colonialismo, lá pelas américas, sobre um chão de cabeças cortadas.

Tirando tudo isto, mais a lenda de que dali não vem nem bom vento, nem bom casamento, nós até gostamos dos espanhóis. Deixaram-nos brilhar em 1640, foram mais amigos de Saramago do que nós fomos, inventaram os caramelos e, além do mais, são nossos parceiros para o Mundial de 2030.


DENTRO DA ÁREA

O futebol cresce no feminino
Recentemente, impressionou o número de espectadores no dérbi lisboeta, em futebol feminino. Quase trinta mil adeptos nas bancadas da Luz. Poder-se-á dizer que o Benfica-Sporting ou o Sporting-Benfica enche estádios e pavilhões nem que seja no chinquilho. É verdade.  Mas a notícia importante surge da conclusão de um estudo universitário apresentado no final da semana na Faculdade de Motricidade Humana e que nos diz que o futebol é, hoje, a  modalidade desportiva mais praticada entre as jovens portuguesas. 


FORA DA ÁREA

Já tenho medo de voar na TAP
Sinceramente, depois de ter passado uma semana a ver cestos e cestos de roupa suja saídos dos alçapões da TAP, confesso que até tenho medo de voar na companhia que, noutros tempos, tão convictamente preferia. Agora, apesar de perceber o interesse nacional, não sei, sinceramente, se não me anunciam, pela voz da chefe de bordo Ana Catarina Mendes que aos comandos do avião Vasco da Gama vai o Pedro Nuno Santos ou até mesmo, quem sabe, o comandante António Costa. E que o tempo de voo é de quatro anos...