A geração dos nossos filhos
Num recente congresso sobre o futebol português, um dos oradores afirmou que estamos a formar uma «geração de criminosos», que considera normal roubar no digital.
Todos temos frases infelizes e o objetivo deste texto não é promover o linchamento digital de quem a proferiu. Mas a crítica que diariamente se faz à geração dos nossos filhos tem de ser desmascarada e combatida.
A pirataria é ilegal. Prejudica o futebol, o cinema, a música, os livros e a imprensa — se ninguém pagar pela informação, um dia deixará de existir quem possa produzi-la.
Se o problema atingiu a dimensão que nos dizem, por que razão não o resolvemos?
Os operadores de telecomunicações ocupam uma posição central no acesso à Internet e recebem as mensalidades dos clientes, incluindo daqueles que utilizam os seus serviços para consumir conteúdos ilegalmente.
Se a pirataria é praticada através do acesso à Internet, não fará sentido discutir uma contribuição sobre esse acesso destinada a compensar os meios e os produtores de conteúdos afetados, ajudando a garantir a sua sobrevivência e a dos seus trabalhadores?
Dissemos aos nossos filhos para estudar. Estudaram. Para aprender línguas, tirar licenciaturas e mestrados, fazer Erasmus e prepararem-se para competir num mundo global. Fizeram-no.
E estão tão bem preparados que competem no mercado de trabalho global com os melhores do mundo, sem o complexo de inferioridade de serem portugueses, como a camisola 7 da Seleção Nacional já lhes tinha ensinado com Figo e Ronaldo.
Duas gerações que ajudaram a normalizar uma ideia que hoje parece evidente, mas nem sempre foi: podemos estar entre os melhores do mundo sem pedir licença nem nos sentirmos menores por sermos portugueses.
Nós é que não cumprimos a nossa parte.
Quando comparamos as condições que encontrámos com aquelas que lhes estamos a deixar, teremos autoridade para dar lições?
Portugal sempre foi um país de emigrantes. Durante décadas emigraram sobretudo aqueles a quem a pobreza não permitira estudar.
Hoje partem também médicos, engenheiros, investigadores, gestores e outros jovens altamente qualificados em cuja formação o país investiu durante vinte anos.
A nossa geração conseguiu, com exceções e dificuldades, ter uma sequência relativamente normal para a vida: trabalhar, sair de casa dos pais, constituir família, comprar casa e ter filhos.
Para demasiados dos nossos filhos, essa sequência deixou de ser possível. Podem ter um mestrado, trabalhar a tempo inteiro e não conseguir arrendar uma casa. Depois criticamo-los porque viajam, uma das poucas formas de realização que ainda conseguem pagar.
Passar um fim de semana em Londres é possível. Arrendar um T1 em Lisboa, não.
Não é falta de ambição. É a diferença entre um objetivo concretizável e outro praticamente inalcançável.
Há uma expressão para aquilo que estamos a fazer: egoísmo intergeracional.
A nossa geração utiliza a sua posição económica, política e demográfica para preservar as vantagens de que beneficiou, deixando a conta à seguinte.
Beneficia de um Estado social que os nossos filhos ajudam hoje a financiar e continua a ocupar grande parte dos lugares onde são tomadas as decisões que determinarão quanto eles pagam, quanto recebem e com que idade poderão reformar-se.
Transformamos as vantagens circunstanciais da nossa geração em virtudes pessoais e as dificuldades estruturais da geração seguinte em defeitos de caráter.
Nós comprámos casa porque éramos responsáveis; eles não compram porque preferem viajar. Nós trabalhávamos; eles querem qualidade de vida. Nós constituímos família; eles adiam os filhos. Nós poupávamos; eles gastam.
É uma narrativa confortável, falsa e profundamente injusta.
Edmund Burke escreveu em Reflections on the Revolution in France, publicada em 1790, que a sociedade é uma parceria entre os vivos, os que morreram e aqueles que ainda estão por nascer.
Esquecemo-nos da última parte da parceria.
Hoje, os nossos filhos trabalham, pagam impostos e descontam para financiar o Estado social e as pensões das gerações anteriores, sem saberem em que condições se reformarão numa sociedade muito mais envelhecida.
E ainda nos surpreendemos porque saem tarde de casa, têm filhos mais tarde, emigram ou gastam algumas centenas de euros numa viagem.
Não são uma geração de criminosos, preguiçosos ou irresponsáveis.
Precisam que sejamos justos, até porque a nossa geração não realizou nenhuma das grandes ruturas históricas que transformaram Portugal.
Não fomos nós que combatemos na Guerra Colonial. Não fomos nós que lhe pusemos fim e conquistámos a democracia. Quando chegámos à idade adulta, outros tinham feito a parte mais difícil: Portugal vivia em paz e em liberdade.
Também não fomos nós que negociámos a adesão à Comunidade Económica Europeia. Recebemos um país integrado na Europa e beneficiámos dos fundos que ajudaram a construir infraestruturas, escolas, hospitais, redes de água e saneamento, modernizar empresas e qualificar portugueses.
Estudar, trabalhar, viajar ou criar uma empresa olhando para a Europa passou a fazer parte do nosso horizonte natural.
A geração anterior entregou-nos um país incomparavelmente diferente daquele que tinha recebido: sem guerra, democrático, europeu e muito mais desenvolvido.
Nós recebemos essa herança.
Vamos entregar aos nossos filhos um país melhor do que aquele que recebemos dos nossos pais?
Um país onde trabalhar lhes permita sair de casa, estudar continue a compensar, constituir família seja um objetivo realista e emigrar seja uma escolha, não a melhor forma de transformar qualificações em qualidade de vida.
Uma geração não deve ser avaliada apenas pelo que conquistou para si, mas pelo que deixa à seguinte.
Antes de julgarmos a geração dos nossos filhos, está na altura de a nossa geração prestar contas à deles.