Eterno capitão sai de cena, segue-se um empresário
- Jogar ao mais alto nível à beira dos 40 exige uma adapação constante. O cérebro passou a correr mais do que as pernas?
- Muito, mas muito mais. Digo, orgulhosamente, sem ser de uma forma presunçosa, que estou muito bem fisicamente, poderia jogar mais dois ou três anos facilmente com os cuidados e a informação que se tem atualmente, mas isto cansa mentalmente. Esta última época foi muito desgastante emocionalmente para mim, pesa tudo, porque a minha vida não é só ir ao treino e jogar. Tudo nos consome e se antigamente conseguia jogar sete ou oito minutos consecutivos, hoje em dia jogar três é um milagre, porque a intensidade do jogo é louca. E mudando aqui um bocadinho a questão, é preciso ter cuidado com isto, com a parte mental do atleta, que ninguém pense que isso é tabu.
- Em maio tornou público que seria a última época. Como foi a contagem decrescente?
- Foi acontecendo ao meu ritmo, na minha forma de estar, mas foi duro. O deitar na almofada, a cabeça a pensar como será, o que vai acontecer, inseguranças. Depois veio a onda de carinho por parte dos adeptos e mexeu muito com as minhas emoções. O último jogo em casa foi o pior jogo da minha vida, de longe. Diz-se que os desportistas morrem duas vezes. Morri a primeira, renasço para nova vida.
- Há um treinador na forja?
- Adoro o jogo, a parte estratégica, compreender e observar, mas, neste momento, preciso de desligar, de sair dos pavilhões. Sim, vou tirar o curso de treinador, como ferramenta, não para almejar ser treinador do Sporting, do Porto Salvo, Fundão, Quinta dos Lombos ou do que for. Tenho o futsal dentro de mim e acho que ainda posso ser aproveitado, ainda tenho alguma coisa para dar a esta modalidade.
- E agora temos um João Matos a fazer o quê?
- Estou a trabalhar directamente com federações para organizar estágios e eventos em Portugal, para todos os escalões masculinos e femininos, juntamente com municípios que possam receber essas federações. Portugal, por se ter colocado no mapa como um dos melhores países de futsal no mundo, tem ainda muito a oferecer. Organizar aqui torneios quadrangulares, triangulares e dentro desta conjuntura de evento podermos dar oportunidade de treinadores locais para se formarem, aprenderem, estarem perto de seleções, mostrar às crianças o que é a convivência em espaço de seleção, para também os cativar para a modalidade. Vou-me adaptando a este novo universo. Aliado a isso, como gosto muito de falar [risos] , tenho palestras para clubes, empresas, escolas, com dinâmicas próprias para desconstruir temas como liderança, espírito de grupo, papel na equipa, atitude, equilíbrio emocional e adaptabilidade.
O mais internacional de quinas ao peito
A representar Portugal João Matos também fez história: é o mais internacional de sempre, com 213 jogos, e no palmarés um campeonato do Mundo e dois europeus.
«Não pensava que poderia lá chegar. As coisas foram acontecendo. Entrei na Seleção em 2008, sem sequer imaginar que iria vingar. Tenho os Jogos da Lusofonia em Lisboa, 2009, com jogadores que não tinham sido convocados para o Mundial da Guatemala, e foi até abril do ano passado, a minha última vez na Seleção. Foi incrível e tive o privilégio de pertencer a uma geração que andou a bater na trave muito tempo, a ser eliminada de forma precoce e depois virou-se a página, fomos campeões europeus, mundiais, bicampeão na Europa e uma Finalíssima», afirmou.
E na retaguarda sempre presentes a dona Rosalina e o senhor Agostinho: «O meu pai foi ao Europeu na Croácia. Uma loucura. Muito presentes, no início com voz ativa nas bancadas, agora mais sossegados, mas sempre lá, de Norte a Sul do País e eu sempre preocupado em saber se já tinham entrado nos pavilhões, se estavam bem nalgumas situações de maior aperto. Sempre serão um pilar, o meu suporte.»
E aos olhos dos seus filhos, Salvador e Francisca, como quer ser visto? «Como vejo o meu pai. Só isso chega. Ser um amigo, um suporte, dar-lhe palavras de incentivo, mas, acima de tudo, quero dar -lhes a liberdade para serem o que terão de ser, com moldes do João, da mãe Sofia, dos avós, dos tios, dos primos e amigos», respondeu.
Respostas rápidas
- Ser o jogador com mais internacionalizações por Portugal é um orgulho ou uma responsabilidade pesada?
- Um orgulho.
- Vestir a camisola de Portugal pela primeira ou última vez? Qual teve mais peso?
- A primeira, não sabia quando seria a última.
- Arrumadas as sapatilhas do que vai sentir mais falta? A adrenalina dos jogos grandes ou a rotina do balneário?
- A adrenalina dos jogos grandes.
- Ser o jogador com mais internacionalizações por Portugal é um orgulho ou uma responsabilidade pesada?
- Um orgulho.
- O João Matos é o que é hoje graças ao Sporting ou o Sporting de hoje também tem um bocadinho do ADN do João Matos?
- Sou muito grato ao Sporting, deu-me muito e acho que deixei lá uma semente também.
- Mais de duas décadas de Sporting resumidos numa só palavra?
- Foi muito prazeroso, muito ambicioso. Foi, acima de tudo, extraordinário.
- Sentir o carinho dos adeptos na hora do adeus soube a dever cumprido?
- Muito.
- Jorge Braz ou Nuno Dias? Quem dava mais dores de cabeça nos treinos?
- O Braz...
- Se o miúdo que chegou ao Sporting em 2002 o visse hoje o que é que lhe dizia?
- Quem és tu?
- Projeto na manga?
- O lançamento de um livro, este ano. Uma oportunidade de dar a conhecer outras coisas do João Matos.
- Qual é a sensação de acabar a carreira como o jogador mais titulado de Portugal?
- É muito bom. É magnífico, mas que me passem rápido.
- Nomeie um cinco de entre os jogadores com quem se cruzou.
- Não consigo. Seria injusto e ia esquecer alguém... Zézito, Café, Divanei, Paulinho Roxo, Paulinho, Caio Japa, os dois Alex, nomes grandiosos. André Sousa, João Benedito, Guitta, Cris, Bebé... Como é que consigo nomear apenas cinco? Essa pergunta já foi feita na minha cabeça milhares e milhares de vezes [risos]. Ia ser injusto com muita gente.