Mundial
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«A Arábia Saudita e a Islândia têm um ponto em comum: a felicidade das raparigas a jogar futebol»
Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.
Isabel Osório é treinadora e coordenadora técnica do futebol de uma das academias dos sauditas do Al-Ula.
— Qual foi a coisa mais caricata que já lhe aconteceu?
— Pararem o treino para rezar. Nunca tinha visto. Depois até ajustámos o horário, porque têm cinco rezas ao dia e em toda a cidade há altifalantes que os chamam para rezar. Havia ali uma reza do dia que calhava na hora do treino, até que depois houve um jogador que me veio perguntar se podiam alterar a hora do treino para não pararem. Eu disse: ‘Olha, acho que é bom, mas nunca disse nada, porque no que toca à religião não me meto, seja em que contexto for. Aquilo em que tu acreditas é o que tu acreditas. Desde que consigamos respeitar-nos e trabalhar, está tudo certo’. Mas, de facto, achava que quebrar o treino, seja para o que for, não devia acontecer. Todos concordaram, só assim é que aceitei mudar. Ver isso em pleno treino é uma coisa engraçada, no sentido em que desconhecia totalmente.
— E mais histórias desse género?
— Houve uma altura que perguntei o porquê de as mulheres terem de andar tapadas. Explicaram que é uma questão de se protegerem. ‘Mas protegerem-se de quê?’, perguntei. ‘Protegerem-se dos olhares’, responderam. E eu disse: ‘Mas elas também olham para vocês. Eu, pelo menos, também olho para vocês. Desde que haja respeito…’. E eles disseram: ‘Não, o vosso corpo é diferente do nosso, portanto nós temos que vos respeitar’. Na minha realidade, não consigo perceber. No entanto, consigo perceber na deles, porque não veem mais do que aquilo, foram educados a viver desta forma. Se tivesse crescido como eles, provavelmente a minha visão seria aquela. Se só fosse aquilo que conhecia até aos 30 ou 40 anos, provavelmente também teria dificuldade em ajustar-me. Uma vez também lhes falei de Fátima, comparando com Meca e Medina, para quem é religioso. Mostrei-lhe imagens e acharam muito bonito e disseram que parecia Meca. Houve um que me disse: ‘Então é aí que vocês vão pedir perdão quando fazem algo de errado’. Eu respondi: ‘Não fui educada dessa forma. Quando fazemos algo de errado às pessoas, pedimos perdão à pessoa. Eu não vou a Fátima pedir perdão’. Ou seja, o pensamento deles é sempre muito virado para a religião e estes contrastes de realidade são muito engraçados. Também lhes disse que, para nós, o domingo é o dia de ir à missa. ‘E vais?’, perguntaram-me. Eu disse: ‘Não, não fui educada a ir à missa’. Ficaram a olhar muito sérios: ‘Como é possível?’. Eu respondo: ‘Tal como é possível ires à mesquita cinco vezes ao dia e levantares-te às cinco da manhã para rezar’. No fundo, tento não julgar, mas perceber, mesmo que seja um choque grande.
— Como é que na Arábia Saudita se convence uma família a deixar uma filha jogar futebol?
— Não é fácil. Em Medina, temos raparigas que vão às seleções nacionais jovens e nem sempre é fácil convencer um pai a deixar a filha ir para um estágio ou a ir jogar para campos abertos, em que qualquer pessoa pode ver o treino. Daí o clube também querer que aqui em Al-Ula se faça esse trabalho. Há essa intenção nacional de tornar esta abertura o mais normal possível. Acredito que em cidades como Al-Ula, que é muito mais pequena e onde não vejo raparigas a brincar na rua, vai demorar mais tempo. Mas, como o Mundial ainda falta, quero acreditar que essa abertura vá acontecer até lá.
— As raparigas têm de jogar tapadas?
— Das raparigas que vi em Medina, têm os braços tapados e as pernas tapadas. Há uma ou outra que joga com aquele fato completo em que só se vê a cara. As que se treinam dentro da escola, estão perfeitamente normais, de t-shirt e calções, porque aí só há mulheres. O primeiro evento a que fui, como tinha, salvo erro, dois homens, as treinadoras estavam tapadas. Nos últimos eventos, as treinadoras estavam equipadas com fato de treino e t-shirt. Eu conseguia identificar, porque via a cara, mas elas, normalmente, reconhecem-se pela voz. Acho impressionante.
— Estão agora a ser criadas condições para que essa integração seja feita de forma gradual?
— Sim, o nosso clube está a procurar criá-las. O facto de eu estar aqui e ser mulher é um bom passo. Neste momento, só treino equipas de rapazes, dos sub-6 aos sub-18. Não há essa questão de ser equipa feminina e ter de ser treinada por mulheres. Agora, há uma intenção clara de ter mulheres. Ainda assim, no meu ponto de vista, um treinador de futebol é um treinador de futebol; não é um treinador de futebol feminino. Nós somos treinadores de pessoas, sejam rapazes ou raparigas. Dá-se valor à competência. O clube está a tentar criar essas bases. Na Arábia Saudita, vai demorar o seu tempo, mas em Portugal também não podemos dizer que a mulher treinadora esteja em contextos masculinos. Culturalmente, não é só na Arábia Saudita. Em Portugal, também temos estas questões.
— Hoje está na Arábia, há 10 anos estava na Islândia [como jogadora]. Quais são os pontos em comum entre os dois países?
— O único ponto em comum é que — e foi algo que me fascinou aqui em Al-Ula nos eventos com raparigas — é a felicidade delas. É indescritível ver a felicidade das miúdas a correr, a chutar uma bola. A liberdade entre elas é diferente, mas a felicidade é idêntica. A felicidade é comum na mulher que joga futebol.
— Qual é o seu grande desígnio na Arábia Saudita?
— O próximo passo é conseguirmos ter raparigas a jogar futebol em Al-Ula. Quando tivermos raparigas a jogar — mesmo que seja dentro de uma escola — aí acredito que vou estar mais feliz. A intenção é que, agora a partir de setembro, consigamos ter raparigas a jogar dentro das escolas.