Entrevista A BOLA «Os que chegam ao topo são os que ultrapassam o erro»

NACIONAL24.06.202410:40

Roberto Rivelino é analista e treinador de guarda-redes. Em entrevista a A BOLA falou do papel que os que trabalham diretamente com os atletas devem ter para ajudá-los nos momentos mais difíceis da profissão e até das próprias vidas

- «Um guarda-redes tem de se permitir errar.» As palavras são tuas. Encaixa com uma pergunta difícil. Um dos livros que mais me marcou foi a biografia do Enke, que não conseguiu lidar com o erro, tanto que se suicidou… Qual é o papel do treinador numa situação destas, se é que se apercebe? Não será também difícil de gerir porque se pode ser um ouvinte é, ao mesmo tempo, quem escolhe ou ajuda a escolher o titular? Porque se percebe que um deles está frágil emocionalmente irá provavelmente recomendar que não seja o escolhido…

- Instantaneamente, o que me vem à cabeça é a pergunta: quem é o treinador de guarda-redes? Não no sentido se é x ou y, mas no seu interior. É alguém com capacidade para falar para dentro do guarda-redes? Alguém com capacidades empáticas? Com conhecimento social ou psicológico para conseguir manejar isto ou não? Diz muito das valências que se tem de ter. Tem de ser alguém que perceba quando pode ou não falar com o guarda-redes e colocar-se na sua pele. Essa é a minha resposta. Claro, é preciso perceber se o guarda-redes entende o treinador como alguém influenciador no dia a dia. Porque pode considerá-lo só para o treino e não para mexer na sua cabeça, para motivá-lo e ser algo mais. Sendo que esse algo mais algo que todo o técnico de guarda-redes deveria ser. Existem treinadores principais que são grandes líderes, grandes condutores de homens e que a nível tático já não têm tantas valências. Isso pode pesar mais ou menos, dependendo do contexto e do grupo de trabalho. Com os treinadores de guarda-redes é exatamente igual. O guarda-redes tem de se permitir, dentro da sua cabeça, errar. Já é guarda-redes há vários anos e tem de saber que o erro é comum e que tem de o tolerar. Não pode ser alguém arrogante que diz ‘não posso falhar’. Calma lá! ‘Quem pensas que és? O super-homem? Não. És alguém com falências como qualquer ser humano e tens de te permitir errar.’ Temos de ver o erro com algo muito positivo. O erro é das melhores coisas que a vida nos dá, porque é um grande passo para podermos aprender. E o ser humano aprende com os erros, com desconfortos e desaires. E tem de saber o porquê de ter existido esse erro. Todos os erros têm um porquê. É aí que se tem de trabalhar. Saber o porquê. Para que deixe de existir ou seja mais ligeiro ou menos frequente.

- Mas erro hoje não tem um peso diferente do passado? Pelas redes sociais, por tudo o que está à volta?

- Tem, porque se torna eterno. Existem imagens que perseguem uma carreira inteira, como aconteceu com o Loris Karius. No entanto, os que chegam ao topo são precisamente aqueles que ultrapassam o erro. Aqueles a quem acontece e é uma terça ou quarta-feira, um dia normal.

- O treinador também tem de ser compreensivo…

- Sim, era o que dizia da empatia. Às vezes, o guarda-redes acabou de errar e já está a pensar ‘isto vai circular na internet’. Esse tipo de preocupação existe na cabeça das pessoas. Quando escrevia n’ A BOLA sabia que ia acabar por escrever coisas que iriam condicionar as pessoas, que estas pensariam automaticamente nisso.

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