«Foi a qualificação em que me senti mais livre mesmo partindo de posição mais fixa»
Bruno Fernandes com o equipamento alternativo da Seleção para o Euro-2024 (Foto: FPF)

ENTREVISTA EXCLUSIVA A BRUNO FERNANDES - PARTE 1 «Foi a qualificação em que me senti mais livre mesmo partindo de posição mais fixa»

SELEÇÃO19.03.202408:00

Médio português assume já sentir alguma ansiedade pelo Europeu; Química com Bernardo Silva destacada várias vezes; Acredita que baixou no terreno e se tornou ainda mais ofensivo

Já vestido com a camisola da Seleção Nacional que irá usar na fase final do Europeu, Bruno Fernandes deu uma entrevista exclusiva a A BOLA. O médio do Manchester United falou das expetativas na Alemanha, da química que tem com Bernardo Silva e de muito mais.

- Essa camisola assenta bem a um campeão europeu ou não?

- Espero bem que sim, que assente. Vai ficar mais bonita se tiver aqui algo mais no meio, entre o nosso símbolo e a nossa marca. Seria uma honra enorme voltar a repetir esse feito que os nossos heróis conseguiram em 2016. Seria mais um sonho a ser realizado.

- Vocês já se imaginam nesses momentos? Nesta fase da época ainda é um pouco cedo, ainda faltam os encontros de preparação e acabar a temporada, mas já se veem de alguma forma nesses primeiros jogos e a pensar um bocadinho mais à frente também?

- Já se começa a ter um bocadinho daquela ansiedade, daquela vontade de jogar o Europeu. Toda a gente quer acabar a época da melhor maneira, muitos de nós têm alguns objetivos ainda importantes, mas obviamente que o Europeu está no foco de todos, que estão a fazer o máximo durante esta temporada para poderem ser chamados e estarem presentes.

- No entanto, quando se entra em campo não se pensa nisso. Há sempre aquela ideia de que pode acontecer qualquer coisa que impeça o jogador de estar numa fase final, mas nunca se levanta o pé, mete-se sempre o pé, tenta-se sempre levar até ao limite. Em Inglaterra também não é fácil tirar o pé…

- Em Inglaterra, se acabas por tirar o pé pode ser, por vezes, pior…

- Exato…

- Não, ninguém pensa muito nisso. Obviamente, quando são jogadores mais suscetíveis a lesões, por vezes podem pensar um bocadinho, mas será mais na parte muscular. Sinceramente, durante o jogo, a adrenalina tira-te um bocadinho o foco de tudo o que é o resto e deixa-te muito concentrado naquilo que é o momento.

Aquela rotação com o Bernardo não é pensada, trabalhada ou treinada

- Falando agora do que é esta Seleção com Roberto Martínez, qual foi a primeira coisa em que pensou quando o selecionador lhe disse que ia ser o primeiro organizador, uma espécie de 8?

- Em nada, porque a primeira vez que jogámos colocou uma defesa a três, com dois médios e, depois, tínhamos dois extremos por dentro, dois 10 basicamente, e ainda dois alas e um ponta de lança. Sabia que a posição onde poderia encaixar seria ou a 8 ou num dos dois lugares mais adiantados, mas obviamente depois, com o decorrer dos jogos, tive quase sempre o Bernardo à minha frente e essa foi também uma das dinâmicas que o mister gostou de ver e quis manter. Aquela troca de posições entre mim e o Bernardo, já que ambos conseguimos e sabemos o que temos de fazer em cada uma delas… Aquela rotação que por vezes acaba por acontecer naturalmente não é pensada, trabalhada ou treinada, o treinador simplesmente sabe que a podemos fazer. Entendemo-nos os dois muito bem a jogar juntos e é uma dinâmica que funciona muito bem. Mas nessa primeira vez, queria era jogar, independentemente da posição onde me colocasse. Todos nós queremos simplesmente jogar e o máximo de tempo possível. Era-me um bocadinho indiferente a posição em que me iria colocar.

- Mas, para quem já assumiu publicamente que gosta muito do último passe e da finalização e do remate, o recuo em campo não lhe tira ali um pouco da alegria de jogar? Um bocadinho só?

- Não, porque, se formos a ver, fui o jogador com mais assistências. Continuei a fazer bastantes golos, cinco ou seis, não me lembro exatamente…

Bruno Fernandes com o equipamento alternativo da Seleção para o Euro-2024 (Foto: FPF)

- Não estava a falar concretamente da parte estatística, porque o Bruno naturalmente destaca-se, mas sim da presença em campo e se se sente de certa forma constrangido por estar mais longe da área…

- Não, porque o mister dá-me bastante liberdade na forma como desempenho as minhas funções e também gosto muito de ter bola. No início da carreira, sempre fui um 8, nunca um 10. Quando fui para Itália passei a ser mais 10, embora por vezes fosse também jogando a 8, tanto que na Seleção sub-21 sempre fui 8 com o mister Rui Jorge… No famoso losango dele quase sempre fui um dos 8 e raramente um dos 10, e é uma posição em que me sinto bem. Posso pegar mais no jogo, tenho mais bola, posso mudar as dinâmicas, posso acelerar, desacelerar, chego muito à área na mesma… O treinador dá-me muita liberdade de movimento e, como referi, aquela mudança de posição com o Bernardo também me liberta muitas vezes para estar em momentos mais ofensivos. Sei também que o Bernardo gosta de baixar e ficar com bola, por isso trata-se do entendimento de dois jogadores para que se retire o melhor de cada um. Sei que posso alimentar o jogo dele com movimento com bola e enervar a equipa adversária, dado que ele tem muita qualidade para escondê-la, e isso que faz com que depois eu também esteja mais à frente. As próprias dinâmicas da equipa permitiram-me que nesta qualificação jogasse sempre muito subido e muito no último terço. Aquilo que falámos do último passe, de que gosto muito mesmo jogando mais baixo, ao termos extremos tão rápidos e alas tão abertos permite-me fazer muitos passes longos, que é algo que também gosto… E é tanto assim que no meio do jogo, logo depois de fazer um passe longo, ouço sempre a vozinha de alguém a dizer ‘até choras. Eles sabem perfeitamente que é também uma das minhas qualidades. Foi provavelmente a qualificação em que me senti mais livre posicionalmente, tendo a obrigação de partir de uma posição tão fixa.