Pouco se resolve à biqueirada
Rita França/IMAGO

OPINIÃO Pouco se resolve à biqueirada

OPINIÃO17.05.202411:50

De Lionel Messi a Francisco Conceição, passando por Cantona ou Bruno Fernandes

Sou um confessadíssimo fã de Lionel Messi (e não, não sou anti-Ronaldo, o que além de irracional para alguém que gosta de futebol faria de mim ligeiramente parvo).

«Então porque não começaste a frase por ‘sou um confessadíssimo fã de Ronaldo?’», poderá alguém perguntar. Respondo: porque quero falar de um jogador que me faz lembrar o segundo 10 argentino da minha vida, salvaguardadas as devidas distâncias entre seres terrenos e existências que parecem, por vezes, querer mostrar-nos que o domínio do fantástico não é só um exercício literário inventado pela Humanidade para fugir ao quotidiano. Este é Messi. O jogador de quem quero falar é Francisco Conceição.

Preparei um reforço da caixa de e-mail para aguentar as reações ao que escrevo a seguir: sim, Chico Conceição invoca Messi quando conduz a bola com o pé esquerdo daquela forma peculiar, própria dos baixinhos que a colam ao corpo como se fosse parte deles e sabem soltá-la na hora certa, seja num passe em souplesse, num remate violento em direção às redes adversárias ou num lançamento longo que agora se diz ser feito a procurar a profundidade.

Embora glorifique bastante as características de Messi, também aprecio jogadores raçudos, intensos e até ligeiramente prevaricadores, desde que dentro do razoável.

De Bruno Fernandes a Roy Keane; de Cantona a Oliver Kahn; de João Pereira a Nuno Santos; de Otávio a Gascoigne (exceto a parte da dependência alcoólica, para bem do internacional português). São meros exemplos de centenas de futebolistas que pisam o risco por empenho e dedicação. Repito: confesso alguma admiração por eles, desde que não pontapeiem adeptos na bancada como fez Cantona. Estava a falar de outros episódios.

Francisco Conceição é claramente desta equipa. Tem os nervos à flor da pele, sente a camisola que veste e nem sempre lhe chega o talento (embora, como já vimos, este lhe sobre). Há pessoas que se alimentam da adversidade, que atualizam potências nos momentos mais tensos.

Dito isto, é tempo de apelar ao bom e velho bom senso: pontapear portas de balneários depois de uma expulsão não só é contraproducente e feio, como nada resolve em relação ao cartão vermelho que se viu momentos antes.

Mais do que isso: ao fazer o que se viu nas imagens CCTV mostradas pelo Conselho de Disciplina, Francisco Conceição (como Bruno Fernandes em 2019, no Estádio do Bessa, onde ainda por cima tinha crescido como futebolista) está a dar um mau exemplo a quem o admira, seja jovem, de meia idade ou idoso.

Está a confundir a raiva e revolta de um determinado momento com reações destemperadas e injustificáveis.

É tempo de os protagonistas do futebol (e tantos outros) perceberem que têm um papel social. Ser famoso também implica assumir responsabilidades.

Deveria bastar pensar em quem olha para nós e se lembra do Messi.