Muito mais do que a bola ao cesto
Em 1984, o Atlético de Queluz, na altura com um projeto importante no basquetebol português, fez história ao conseguir o apuramento para uma competição europeia. Os jogos no pavilhão junto aos Bombeiros Voluntários tinham casa cheia garantida, e a capacidade de recrutamento do conjunto do concelho de Sintra projetava o emblema além-fronteiras.
A competência do Queluz estendia-se à equipa técnica, que integrava um jovem promissor, diligente e talentoso. Chamava-se (e chama-se…) Carlos Barroca.
A viagem a Pardubice (na antiga Checoslováquia) marcava um momento importante do clube e ainda mais significativo no caminho a seguir pelos seus responsáveis.
Sublinho este episódio para, desde logo, deixar claros dois aspetos: que conheço Barroca desde essa altura, e que o tempo não mudou, afinal confirmou e reforçou a ideia que dele tenho enquanto profissional desde sempre ligado à sua modalidade do coração.
E esta prosa tem a ver com o treinador, com o gestor e com o agora candidato a presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB). Já lá vão os tempos de outros guerreiros, com menos exposição e muito menos meios, e chega a altura de encarar de modo organizado, estratégico e profissional a gestão de um jogo no qual, independentemente de não terem ainda surgido os resultados de grande notoriedade planetária que outras modalidades entretanto evidenciaram, sempre foi uma paixão de muitos portugueses, quer pelas rivalidades internas entre emblemas tradicionais e outros, quer pela magia única da difusão transversal e global da NBA, como incontornável ícone da modalidade, em termos planetários.
E aqui aduzem-se outras perspetivas, no que a Carlos Barroca diz respeito. O treinador e comentador televisivo (que, nesse particular, muito contribuiu para a massificação da modalidade e para a sua ligação umbilical ao telespetador), passou a gestor, com a chancela norte-americana, e com a responsabilidade pela promoção e formação no continente asiático. Paragens distantes e desafiantes, que permitiram ao agora candidato à posição federativa mais importante uma noção verdadeiramente global do jogo. No modo como é dinâmico na sua relação com os adeptos, como se pode projetar em territórios de caraterísticas peculiares, da relação com os atletas, com os patrocinadores, com os difusores e com os adeptos, na capacidade de entender que, para um pensamento global, devemos sempre priorizar e elencar uma ação local.
Esse foi o segredo do sucesso de Carlos Barroca no Extremo Oriente, e essa é a sua indispensável mais-valia na candidatura que agora apresenta à liderança da FPB. Sempre o tenho dito. Tenho, de resto, procurado seguir esse caminho na minha carreira profissional: trabalhar e viver no estrangeiro, absorver novos estímulos de história e cultura, aprender e apreender o que geografias diferentes nos podem ensinar e motivar, distanciarmo-nos de uma postura tantas vezes apoucada e de uma quadratura existencial do português (que, curiosamente e herdeiro de uma história de desbravamento de terras e mares, agora fica contido e satisfeito com o retangulozinho), é o que de nós faz, efetivamente, cidadãos globais.
O Carlos seguiu esse caminho. E é com ele, e com toda a bagagem que ele significa, ao longo de muitos anos, que quer ajudar a redimensionar o basquetebol português.
Numa visão que, ao que sei da candidatura (e nunca sobre ela falei com nenhum dos seus integrantes, sublinhe-se!), integrada e participada. Que envolva e agregue, que motive e desenvolva.
Hoje, a única alternativa para quem pretender assumir responsabilidades numa importante estrutura (desportiva ou de qualquer outra área) envolve um total e permanente compromisso com o rigor gestionário, através da designação de atores devidamente identificados e qualificados, mas também a visão holística de quem se apresenta para construir, para juntar ideias e potenciar talento e talentos.
O talento de uma organização que se exige com peso institucional mas, igualmente, com perspetiva formativa, que assenta numa lógica de estrutura muito mais horizontal do que vertical, e que trabalha tendo em consideração de que o talento não cai do céu, e apenas com trabalho, respeito por todos e consideração pelas diferenças é possível construir um edifício coeso.
Porque um líder nunca pode pensar apenas no seu tempo. Tem de ter visão periférica e faróis de nevoeiro. Tem, portanto, de olhar a 360 graus, e de perceber a dimensão extra-mandato do seu trabalho. Isto é, tem de projetar a médio e longo prazo, seguro do processo que assume e capaz de o implementar, mesmo que os resultados não sejam imediatos ou publicamente visíveis. A mensurabilidade, neste caso, tem a ver com a profundidade e com a qualidade.
E é justamente neste enquadramento que o regresso de Carlos Barroca a Portugal para abraçar a candidatura à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol assume particular significado, dimensão e amplitude. Está na hora do salto qualitativo e organizativo do jogo da bola ao cesto que é, na sua génese, muito mais do que isso. É paixão e formação. É cumplicidade e interatividade.
Mais do que um duplo ou um triplo, Barroca aporta uma dimensão transversal. Só isso é, já, uma grande vitória.