Zicky Té abriu o marcador para o Sporting - Foto: SPORTING CP

Zicky Té: só responde com trabalho. E com exemplo

Há jogadores que aparecem. E há jogadores que definem uma era. Há quem fale muito. E há quem responda dentro do campo. Zicky Té escolheu, desde cedo, a segunda via. Dentro das quatro linhas impõe-se pelo talento. Fora delas, pela postura. Está a marcar o seu tempo no futsal português e europeu. E, como gosta de dizer, “só responde com trabalho”. Eu acrescento: responde com trabalho. E com exemplo. Exemplo de valores. De humildade. De atitude. De um compromisso inegociável: nunca desistir.

Nascido na Guiné-Bissau e criado em Santo António dos Cavaleiros, em Loures, é um sinal claro para os mais jovens de que o caminho não precisa de ser perfeito nem percorrido a alta velocidade. Constrói-se. Cai-se. Ajusta-se. Insiste-se. Trabalha-se pelo que se pretende - para si e para os seus. Tem é de ser percorrido com atitude. Essa atitude é o que o fez chegar onde está. E chegou onde está porque resistiu onde outros cederam. Porque trabalhou quando outros descansaram. Porque acreditou quando a dúvida era mais fácil. Privou-se, focou-se, persistiu. E isso, no desporto como na vida, vale mais do que qualquer talento isolado.

Desistir ao primeiro contratempo nunca foi opção. Zicky representa o contrário: a consistência silenciosa. O treino quando ninguém vê. A ambição sem ruído. Trata o talento como ponto de partida, nunca como ponto de chegada. Essa diferença é tudo. Inspira os jovens a acreditarem que o talento, quando aliado ao esforço consistente, pode abrir portas inimagináveis. Todos sabemos que essas portas podem ser abertas pelo talento, mas é o comportamento que permite entrar.

Numa era em que tantas vezes se confunde exposição com grandeza, segue caminho inverso: simples na postura, intenso na competição; ambicioso sem arrogância; talentoso sem vedetismo. O respeito que reúne é praticamente unânime. E essa unanimidade não é circunstancial. É identidade.

Quando recebe de costas, o jogo suspende-se. Porque dali pode nascer qualquer coisa. Não joga apenas de costas para a baliza; joga de frente para o desafio. Aguenta contacto, fixa defesas, liberta alas, cria linhas de passe onde parecem não existir. E marca golos. O seu jogo é físico, mas também cerebral. Lê o adversário. Antecipação e instinto matador trabalham juntos. Não é produto de laboratório. É produto de rua, de contexto, de superação. Há no seu jogo fome e presença. O seu fogo competitivo não nasceu sob as luzes do pavilhão, já ardia muito antes.

O pivot dominador que hoje vemos nos grandes palcos cresceu em rinques improvisados, onde se aprende cedo a proteger a bola com o corpo e a disputar cada lance como se fosse o último. Na infância, chegou a cortar os pitons das chuteiras para poder jogar futsal. A isto chamo atitude. Um gesto simples, mas revelador: quem quer mesmo jogar, encontra sempre maneira.

A formação no Sporting foi o ponto de viragem. Ali, o talento encontrou método. A irreverência ganhou disciplina. Percebeu que talento sem consistência não chega…

Aos 17 anos estreou-se pela equipa principal. Aos 20 já era campeão. Ao serviço do Sporting construiu um palmarés impressionante: venceu a UEFA Futsal Champions League, a Liga Placard, a Taça de Portugal, a Taça da Liga e a Supertaça - vários destes troféus conquistados em mais do que uma época. Pela Seleção Nacional, foi Campeão do Mundo em 2021 e Campeão da Europa em 2022, afirmando-se como peça central de uma das gerações mais vitoriosas do futsal português.

Nesse percurso, encontrou referências que marcam a sua forma de ser e de estar. Pany Varela foi uma das maiores. Mais do que inspiração, exemplo: profissionalismo, exigência diária, mentalidade de campeão.

A consagração individual no UEFA Futsal EURO 2022 confirmou o que já era evidente. Mostrou maturidade competitiva, frieza nos momentos decisivos e capacidade de assumir quando o jogo pesa. Não se esconde. Nunca se esconde. Para ele, a pressão é sinal de que está no lugar certo.

Mas reduzi-lo a troféus seria redutor e injusto. A 4 de outubro de 2021 foi agraciado como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, uma distinção que o coloca no restrito grupo de personalidades cujo mérito ultrapassa a dimensão desportiva. Não é apenas o reconhecimento de títulos conquistados. É o reconhecimento de alguém que honra Portugal, a sua família e os seus amigos - dentro e fora do campo.

Também fora das quadras mantém o exemplo. Frequenta a licenciatura em Gestão do Desporto, consciente de que a carreira é intensa, mas finita. Mostra que excelência competitiva e formação académica não se excluem, muito pelo contrário, complementam-se.

Representa uma geração diversa que cresceu em bairros onde o sonho parecia distante, mas nunca impossível. A sua história é uma afirmação serena contra o preconceito, não através de discursos inflamados, mas através de desempenho, caráter e dignidade. Quando confrontado com episódios de racismo, mantém firmeza e equilíbrio. Não procura protagonismo. Procura respeito.

A recente celebração na Luz, após marcar frente ao Benfica na Liga dos Campeões, gerou debate. O gesto, associado à luta antirracista, foi esclarecido pelo próprio nas redes sociais: «Sem clubismo, sem provocação, apenas um apelo à humanidade.» Não foi um ato de confronto. Foi um posicionamento. Sereno, consciente e coerente com aquilo que sempre demonstrou dentro e fora das quatro linhas. Esse exemplo contagia pela positiva, tem impacto e até ultrapassou fronteiras. No Brasil, no dia seguinte ao jogo, o gesto do pivot do Sporting tornou-se o terceiro tema mais comentado na rede social X (antigo Twitter). Um sinal claro de que o exemplo ecoa para lá do resultado e do próprio jogo.

Zicky Té é um líder. Um verdadeiro influencer de comportamentos, não porque acumule seguidores, mas porque molda mentalidades. Porque influencia pelo exemplo. Mostra que talento sem disciplina é curto, que ambição sem humildade é vazia e que vitória sem valores é incompleta. Trabalha quando ninguém vê, respeita quando todos olham e posiciona-se quando é preciso.

É exatamente disso que as novas gerações precisam: não apenas de ídolos que marquem golos, mas de referências que marquem valores. De entender que é preciso trabalhar para ter. De perceber que é possível vencer sem perder humildade. Que nada cai do céu. Que ser estrela não implica deixar de ser colega. Quando um atleta consegue transmitir isso pelo que faz, e não apenas pelo que diz, passa a ser exemplo. Hoje, no mundo em que vivemos, precisamos cada vez mais destes exemplos.

Se o presente já impressiona, o futuro projeta ainda mais. Para mim, é o melhor pivot do mundo. E tem tudo para chegar ainda mais alto: melhor jogador do mundo. Não por obra do acaso. Mas por continuidade do seu trabalho.

Há campeões que ganham. E há campeões que inspiram. Zicky Té, felizmente para o desporto nacional e para a nossa sociedade, faz as duas coisas.

Nota final: Um muito obrigado à Filipa da Whynote.pt por ter colaborado neste artigo.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».