Águia ferida
Roger Schmidt, treinador do Benfica (Foto: Maciej Rogowski/IMAGO)

EDITORIAL Águia ferida

OPINIÃO30.11.202309:19

Para os adeptos, o pior mesmo será a sensação de insegurança que a equipa lhes transmite

Noite absolutamente avassaladora para o Benfica a de ontem, no quinto jogo europeu da época, tão avassaladora quanto frustrante. O mal menor é o terem os encarnados de aceitar que fosse como fosse precisariam sempre de vencer o Salzburg, na última jornada, para conseguir lugar na carruagem da Liga Europa.

Com uma diferença que não é, apesar de tudo, assim tão pequena : se a águia tivesse batido o Inter (como se impunha depois de chegar a 3-0) bastaria vencer na Áustria; assim, tem de vencer… mas, no mínimo, por dois golos de diferença.

Compreende-se que para a equipa a maior frustração tenha sido ver escapar-se-lhe uma vitória que parecia altamente provável após os três golos, quase de rajada, de um João Mário que tem andado tão longe do rendimento da última época. Para os adeptos, acredita-se que a maior frustração tenha voltado a ser o pouco futebol que de um modo geral a equipa apresentou nos quase cem minutos que o jogo acabou por durar.

Não se sabe se Roger Schmidt já terá dado genuinamente conta do insuficiente futebol que a equipa tem vindo a jogar. Talvez pior do que desperdiçar uma vantagem de três golos num jogo europeu em casa seja a visível incapacidade da águia voar com fulgor e boas exibições.

Pelo que voltou a ver-se ontem na Luz, o problema maior dos jogadores parece ser, sobretudo, mental ou emocional, e nesse sentido já pode questionar-se se Roger Schmidt terá realmente capacidade para travar a espiral de erros acumulados que levam o Benfica a mostrar-se tão frágil, mesmo quando, sem criar verdadeiro ascendente que o justificasse, se vê, como se viu, na noite de ontem, com três golos de vantagem com pouco mais de meia hora de jogo.

Para os adeptos encarnados, porém, creio que o pior será mesmo a sensação de insegurança que a equipa transmite. O jogo da águia é tão pouco fluido, a quantidade de más decisões dos jogadores chega a ser tão impressionante, a equipa é tão inconstante defensiva e ofensivamente que, na verdade, por cada momento de bom futebol que produz logo lhe acrescenta um deserto de ideias, inúmeros maus passes, perdas de bola ou absoluta falta de profundidade atacante.

Acredita-se que o mais difícil, numa equipa de alta competição, seja resolver os problemas de estado anímico e psicológico dos jogadores. No caso do Benfica, mesmo quando o cenário de um jogo, como o de ontem, parece ter tudo para correr bem (nem adianta lamentar eventuais erros de arbitragem), a verdade é que acaba a realidade por mostrar como o momento da equipa não inspira confiança suficiente (nem aos jogadores, muito menos aos adeptos) para poder prometer outro futebol.

Nos tempos mais próximos, não se vê como poderá este Benfica em versão 2.0 de Roger Schmidt deixar de estar numa encruzilhada; balança, parece claro, entre os bons resultados que vai obtendo nas competições nacionais e a noção (que todos, seguramente, devem ter) de estar longe de jogar o que se esperava, se exigia e se prometia.

É evidente que Roger Schmidt não pode ter perdido todas as qualidades que o levaram a conduzir a águia ao título nacional e aos quartos de final da última Liga dos Campeões. Mas talvez nunca como hoje Roger Schmidt se tenha visto perante desafio tão difícil e, ao mesmo tempo, tão exigente. O Benfica parece não ter apenas um problema tático, ou apenas um problema de ligação ou de adaptação de novos jogadores. O problema começa a parecer mais profundo, disfarçado, aqui ali, é preciso dizê-lo, por importantes vitórias nas competições internas.

No futebol, bem sabemos como nem sempre as melhores qualidades de um treinador são suficientes para resolver os problemas de uma equipa, sobretudo, como parece, em grande parte, ser o caso, se um dos problemas já está na raiz emocional dos jogadores.

Schmidt precisa de encontrar uma solução. Ou, mais tarde ou mais cedo, arrisca o lugar!