Schjelderup tirou um coelho da cartola quando marcou o golo da vitória do Benfica

Mourinho deu xeque-mate quando chamou Bah a jogo (crónica)

Perante as dificuldades que um excelente Gil Vicente lhe estava a colocar, o treinador do Benfica leu bem o jogo, tapou o flanco esquerdo dos galos, e manteve a sua equipa equilibrada. A vantagem de não se importar com o que os outros possam dizer...

Em vésperas de uma jornada apimentada, que acolhe a ida do Sporting a Braga e a viagem do FC Porto à Luz, o Gil Vicente-Benfica assumiu uma importância extra, por afetar diretamente as ambições de ambas as equipas, os encarnados ainda à procura do acesso direto à Champions (ou algo mais) e os galos à procura do poleiro europeu. 

Há que dizer que, sem deslumbrar pela qualidade do futebol praticado, o jogo de Barcelos esteve longe de desiludir, porque durante quase toda a partida as equipas estiveram ligadas à corrente e bateram-se com intensidade. E se digo em quase toda a partida é porque o Benfica entrou sem conseguir construir jogo na primeira parte, e teve um recomeço absolutamente apático, que resultou no golo da equipa de César Peixoto. 

Na metade inicial, com as equipas a apostarem em sistemas semelhantes (4x2x3x1), a estratégia dos minhotos começou por confundir o Benfica. Após um início em que criavam a primeira muralha defensiva a meio do meio-campo das águias, mantendo a equipa muito junta, os gilistas, a partir dos oito minutos, assumiram sem complexos uma pressão alta que lhes deu o controlo da partida e obrigou o Benfica a esquecer-se de que tinha meio-campo, esticando bolas na frente, difíceis para Pavlidis ou Rafa, que tinham, contudo, o condão, de evitar perdas de posse comprometedoras no primeiro terço. 

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O Benfica demorou mais de um quarto de hora para mostrar algum conforto e foi um lance trabalhado entre Pavlidis e Rafa (18), superiormente defendido por Lucão, que soou como toque a rebate dos encarnados. Mesmo penalizados por um duplo pivot muito abaixo das necessidades do conjunto de Mourinho – Aursnes pelas limitações físicas que eram evidentes e Barreiro por nunca ter encontrado a intensidade que fizesse dele o motor da equipa – a turma da Luz acabou por assenhorar-se das operações a partir da meia hora, graças à dinâmica de Schjelderup e Rafa, e esteve perto de marcar por duas vezes no minutos 34 - Lucão e Zé Carlos opuseram-se com brilho – mas não falhou ao minuto 35, após um canto de Aursnes e uma cabeçada ao segundo poste de António Silva

Os encarnados estiveram, três minutos volvidos, muito perto de ampliar a vantagem, mas uma bola que embateu no peito de Pavlidis, após grande cruzamento de Dahl, fez estremecer o travessão.

Fazendo um jogo de menos a mais, o Benfica chegou com justiça ao intervalo em vantagem, mas metia-se pelos olhos dentro que o jogo continuava em aberto, sobretudo porque os gilistas se mostravam ágeis e muito apoiados nos ataques rápidos e a dupla Aursnes/Barreiro não chegava para as encomendas: se ia não vinha, e vice-versa... 

Benfica apático

Pavlidis (foto: Rogério Ferreira/Kapta+)

Sem que César Peixoto ou Mourinho tivessem aproveitado o intervalo para mexer nas equipas, a verdade é que o segundo tempo começou sob o signo do galo: o Gil tinha mais intensidade, ganhava as segundas bolas e as bolas divididas, enquanto que o Benfica parecia que tinha tomado um Valium no descanso. Aos 50 minutos, Aursnes chegou ao fim, sendo substituído por Barrenechea, a solução mais conservadora, própria de quem não quer deitar fora a vantagem, mas no minuto seguinte, num lance pouco menos que caricato, o Gil empatou, com Héctor a fazer a bola entrar lenta, lentamente na baliza de Trubin, apanhado em contra-pé e sem argumentos, do alto dos seus dois metros, para dar a volta ao texto.  

Logo a seguir, a ‘virada’ podia ter sido completa, após uma falha de marcação do Benfica num pontapé de canto (55'), que Héctor aproveitou para cabecear, obrigando Trubin à defesa da noite.  A reação encarnada, que teve em Schjelderup o principal e mais inconformado protagonista, tomou forma aos 62 minutos, quando o nórdico fez a bola atravessar a face da baliza de Lucão, sem que Rafa ou Pavlidis a empurrassem para o fundo da baliza. Mas quando Peixoto e Mourinho mexeram nas equipas, aos 68 minutos, era impossível prever para que lado ia cair o jogo. Costuma dizer-se que as substituições são como os melões, só depois de abertas é que se sabe se são boas, e neste caso Mourinho ficou com a peça mais doce: Ríos (saiu Barreiro) entrou bem, dinamizou a equipa e deu coerência ao meio-campo, num regresso à dupla com Barrenechea, agora sim com pernas para andar, e Lukebakio tornou mais posicional o ataque do Benfica, que corria o risco de se perder na desgarrada. Do outro lado, Joelson e Carlos Eduardo não acrescentaram muito, embora o ala desse muito que fazer, como mais à frente se verá. 

Foi já com um Benfica ‘acordado’ e regenerado com um novo motor, que Schjelderup tirou um coelho da cartola, assinando um golo de belíssimo efeito (73), com a bola a entrar de baixo para cima, ao primeiro poste. 

Foi então que José Mourinho brilhou. Percebeu que tinha de travar um flanco esquerdo gilista muito incisivo (Konan/Joelson) e não foi de modas: meteu Bah (saiu Schjelderup e Lukebakio foi para a esquerda), em tese para tapar Konan, e com isso deu mais conforto a Dedic e travou as investidas mais perigosas dos donos da casa. César Peixoto ainda refrescou a equipa com Santos e Fernández, mas o Benfica estava bem organizado e ia ameaçando, especialmente com Rafa e Lukebakio, ampliar a vantagem. Konan ainda obrigou Trubin a uma defesa vistosa, mas o Benfica, que na segunda parte, em termos de estar vivo no jogo, passou do péssimo ao excelente, não deixou fugir os três preciosos pontos em disputa, que tornam ainda mais emocionantes os grandes jogos da próxima jornada.