Enquanto desesperamos pelo futebol a sério, vamo-nos contentado com o Mundial. Como o jogo não é tão desprovido de lógica, como tantas vezes por aí se diz, e os milagres são escassos, as equipas que melhor jogam e que têm melhores jogadores continuam em prova.  
Como já vem acontecendo há uns mundiais a esta parte, a qualidade dos jogos tem sido muito fraca. Tirando o França-Argentina (com um resultado muito lisonjeiro para os argentinos), ainda não se viu um desafio que saísse da mediocridade. Como é habitual, muita emoção nas bancadas, muita festa nas cidades e pouco futebol em campo.  


Melhor, qualquer adepto de futebol sabe que a qualidade dos jogos entre seleções não desceu, a das equipas de clubes é que subiu muito. E não só nas grandes competições europeias, também nas dos principais campeonatos europeus. As equipas estão entrosadas, têm métodos de treino muito desenvolvidos, vão buscar jogadores a todo o lado. É impossível a uma seleção, por muito boa que seja, atingir a qualidade de uma das 10, 15 principais equipas europeias. Neste campeonato do mundo, talvez a França e o Brasil pudessem competir com essas equipas e porque têm de facto um naipe de jogadores verdadeiramente extraordinário, todas as outras seleções seriam derrotáveis por qualquer equipa  que jogue para o título numa das cinco principais ligas.


O interessante disto tudo é percebermos que as organizações que mandam no futebol estão voltadas para a promoção cada vez maior dos jogos de seleções. O maior exemplo é o anunciado alargamento do número de países presentes nos Mundiais, já para não falar dessas coisas chamadas Taça das Confederações e Liga das Nações. A verdade é que esta vontade de ter cada vez mais jogos de seleções pouco tem de ver com futebol.


Os mundiais atraem muitas pessoas que não são, de facto, adeptos de futebol. Acompanham os jogos das equipas nacionais por sentimento de pertença, por emoção, por, imagine-se... patriotismo. Acabado o Europeu ou Mundial não mais ligam ao jogo até ao próximo evento de seleções. É, sobretudo, para essas pessoas que são organizados estes eventos, não para quem vive o futebol no dia-a-dia ou, pelo menos, semana-a-semana.  


Este brutal acréscimo de pessoas que veem futebol representa dinheiro, muito dinheiro - a quantidade de publicidade ligada, por exemplo, à seleção portuguesa é impressionante . E esta é a principal razão para que cada vez mais se queiram alargar competições de seleções e criar novas. Quem quiser ver amor ao futebol ou vontade de o promover tem de procurar noutro lado. Esta gente vê cifrões, não vê bola.

Nada de estranho

Sabemos que a irracionalidade faz parte do futebol, mas achar que a Seleção Nacional podia atingir outro patamar além daquele que alcançou, tendo mostrado o que mostrou, é talvez demasiado. E, já se sabe, esgotámos no Europeu a nossa quota de milagres para os próximos cem anos.


Sim, havia muita qualidade para o último terço do terreno, mas, tirando o Cristiano, não se viu nada. O meio-campo tem gente de qualidade, mas pura e simplesmente não funcionou. A defesa confirmou o que já se sabia, mesmo tendo Pepe não tem a qualidade mínima necessária.
Fernando Santos terá a responsabilidade de não ter conseguido montar um coletivo que funcionasse e de se ter enganado no posicionamento de Bernardo Silva (que nunca seria igual ao que tem no Manchester City), mas nem ele imaginaria o défice de forma de rapazes como Guedes, Adrien, João Mário, William, Bruno Fernandes ou Raphael Guerreiro. De outros, com certeza, não esperaria mais do que aquilo que (não)mostraram.


Talvez seja a altura de construir uma equipa que tenha fio de jogo, que aproveite os bons jogadores que tem e que não dependa de bambúrrios. É que ainda para mais o Cristiano não é eterno.

O canal da FPF
 
Quando pensamos que já se assistiu a tudo no futebol português e que não há possibilidade de sermos surpreendidos acontece logo um fenómeno extraordinário a desdizer-nos.


Temos o único campeonato nacional de futebol do mundo em que um dos participantes transmite no seu próprio canal os jogos em casa. É o clube que realiza, que comenta e que repete os lances do jogo que muito bem entende. Repito, em nenhum outro campeonato houve sequer a ousadia de se tentar semelhante coisa.


Esta anomalia, que faz abrir a boca de espanto qualquer analista estrangeiro ou adepto que não esteja cego pela clubite aguda, só surpreende quem não conhece a realidade do futebol português. Há um clube que domina as principais instituições, o que lhe permite fazer coisas verdadeiramente impensáveis noutro qualquer país.


Agora, vamos ter um canal de televisão da Federação Portuguesa de Futebol. Outro fenómeno extraordinário.


Dizem os responsáveis que será um canal para promover o que o futebol tem de bom. Muito bem. Na minha ingenuidade pensava que a Federação se devia dedicar mais a criar condições para que mais rapazes e raparigas pudessem jogar, que as provas fossem melhor organizadas, que existissem mais infra-estruturas, os clubes mais apoiados, os árbitros melhor formados, os departamentos melhor apetrechados. Enfim, tudo o que contribuísse para um futebol melhor.


Pelos vistos, já está tudo ótimo. Não há mais nada a fazer no que diz respeito à essência da atividade e o que é preciso é um canal de televisão para que se fale de futebol, de jogadores, treinadores e dirigentes.


Não há quem não saiba que dinheiro é coisa que não falta à FPF. Mas, e apesar de eu ter de assumir que está tudo perfeito e nada mais resta fazer, tenho uma leve suspeita de que talvez esta não seja a melhor forma de gastar dinheiro.  


Veremos o que ou quem de facto vai ser promovido neste novo canal.

As revelações do Mundial

Aqui há atrasado escrevi aqui que as contratações em função de exibições no Mundial são um anacronismo que teima em manter-se. Mas se ainda há clubes que acham que dezenas de anos pouco contam e que um par de exibições num campeonato europeu ou mundial é que são decisivas para aquilatar do valor de um jogador, força nisso. Por exemplo, parece que há muita gente encantada com o Quintero. Pois, façam o favor de depositar uma pipa de massa na conta do brasão abençoado e até eu o levo ao aeroporto.