Camp Nou vai tornar-se no maior estádio de futebol da Europa com 105 mil lugares nas bancadas
Camp Nou vai tornar-se no maior estádio de futebol da Europa com 105 mil lugares nas bancadas - Foto: IMAGO

Um «laboratório vivo»: como a IA está a revolucionar a modernização dos estádios

HPE Networking é responsável por melhorar a experiência do adepto nos maiores palcos do mundo do desporto através da tecnologia e James Robertson, VP & CTO Industry Strategy da empresa bilionária norte-americana, concedeu uma entrevista à A BOLA para explicar o processo e os constantes desafios

Com o passar do tempo, o desporto e a tecnologia estão cada vez mais em sintonia, com a Inteligência Artificial a também desempenhar um grande papel nessa evolução, em todos os aspetos. Um deles é a modernização dos estádios, que estão em constante revolução para se adaptarem às necessidades dos adeptos e dos jogadores, com várias equipas a apresentarem projetos de criação ou renovação de novos, maiores e melhores palcos.

Em entrevista a A BOLA, James Robertson, VP & CTO Industy Strategy da HPE Networking, uma empresa bilionária norte-americana, abordou essa realidade e explicou o processo que os levou a apostar no mundo do desporto, nomeadamente o futebol, um mundo em constante crescimento e descrito como um «laboratório vivo».

«É preciso encarar o desporto e o entretenimento como um dos cenários mais complexos para a tecnologia operar, porque há tantas variáveis que podem ocorrer durante um evento. Muitos destes estádios ou arenas são agora multifuncionais. Podem receber, por exemplo, um jogo de futebol num dia e, no dia seguinte, transformar-se num local para um concerto de rock, em que há muitas pessoas no campo. Estão no meio do recinto, bem como nas bancadas e esses são cenários muito diferentes para um único local gerir», começou por explicar.

James afirmou que o desafio diário é «compreender como o equipamento vai funcionar em cenários muito complexos» para depois testar a teoria, justificando a expressão do «laboratório vivo» e a utilização da IA. «Porque, dia após dia, um estádio vai apresentar cenários diferentes à tecnologia, aos quais temos de descobrir como reagir. É aqui que a IA está realmente a ajudar a impulsionar algumas destas coisas, porque a IA está muito mais posicionada para analisar os dados, analisar a telemetria que sai do equipamento dentro de um estádio, e é capaz de reajustar rapidamente o ambiente às necessidades da cobertura e dos adeptos. É por isso que este é um ambiente fascinante para trabalhar, porque os ambientes desportivos oferecem-nos realmente muitas variáveis que temos de tentar ter em conta», explicou.

Robertson afirmou que «cada estádio é único, não há dois estádios iguais» e que se têm de adaptar em todos os projetos, começando praticamente do zero. «Não existe um modelo padrão. Não se pode simplesmente dizer: ‘Vamos instalar esta infraestrutura no estádio.’ Passa-se muito tempo a trabalhar com aquele recinto para compreender como podemos implementar a tecnologia nesse local. Às vezes é preciso instalar o equipamento nos lugares e, outras vezes, pode-se instalar o equipamento acima do estádio, direcionando o Wi-Fi para as bancadas. Cada um desses casos é único. Quando temos a oportunidade de aconselhar e trabalhar num desses programas, abordamos todos eles a partir do zero, com o entendimento de que estamos a tentar criar a melhor experiência possível através da tecnologia, independentemente do próprio estádio», referiu.

As funcionalidades desta tecnologia avançada vão desde «simplificar o processo de entrada dos adeptos pelos torniquetes», até «à criação ou ajuda às equipas na criação de aplicações complementares para telemóveis, estatísticas, vídeos ou comentários», que permitam aos adeptos interagir em tempo real. «Tudo depende dos objetivos do próprio recinto. Temos feito de tudo dentro dos recintos. Pode ser capaz de criar essa interatividade, é muito importante, e isso proporciona um forte nível de envolvimento entre o adepto, o recinto e o clube», apontou.

Várias modalidades

No entanto, o futebol não é o único desporto de destaque, bem pelo contrário. Basquetebol, futebol americano, Fórmula 1 e golfe, por exemplo, são outras modalidades que também contam com o apoio da HPE Networking, mas todas de uma forma diferente. No caso do golfe, o evento da Ryder Cup em 2025 recebeu cerca de 250 mil espectadores e baseou-se no apoio aos adeptos, na cibersegurança, tal como acontece de forma semelhante no futebol, mas esse não é o caso da F1.

Aliás, na categoria de elite do automobilismo mundial, o impacto passa realmente pela prestação da equipa da Mercedes, com quem têm parceria, de forma direta. Essa colaboração centra-se em fornecer tecnologias que analisam dados e ajudam a melhorar o desempenho do monolugar através de machine learning e infraestruturas poderosas, antes e durante a corrida.

«Trata-se do poder dos dados, de como damos vida a esses dados e os tornamos os mais adequados para o cenário específico. Portanto, quer seja o cenário de um estádio de futebol, onde temos os dados relativos ao evento futebolístico, quer seja a equipa de Fórmula 1, onde compreendemos que a telemetria proveniente do carro em tempo real e a telemetria que eles observam nos seus ecrãs, e depois tentam compreender esses dados em tempo real, tem de ser processada muito, muito rapidamente. Isso é apenas os dados a ganharem vida», explicou, dando outros exemplos.

«E depois no basquetebol, algumas das coisas que fizemos, particularmente nos Estados Unidos, como no caso dos Golden State Warriors. Foi assim que eles realmente conseguiram envolver os adeptos, dando vida aos dados que têm, que observam em todos os jogos na arena, para compreender como os adeptos querem interagir e, depois, criar um envolvimento cativante com os adeptos com base no que esses dados lhes dizem. Tudo isto assenta fundamentalmente nos dados. É a melhor forma de ver as coisas», garantiu.

James afirmou que existe um «interesse» em que a Mercedes tenha o desempenho que está a ter na F1, mas que o foco está apenas nos bastidores para «apoiar as suas operações». «Se não tiverem a informação certa no momento certo, não serão capazes de ter um bom desempenho na pista todos os domingos. Temos de garantir que o que lhes fornecemos responde às necessidades que têm de nós dia após dia, para que possam ter um bom desempenho no dia da corrida. Estamos orgulhosos de termos uma parceria com tantas marcas fantásticas em todo o mundo, ajudando-as a ter um bom desempenho dia após dia. E a Mercedes-Benz é apenas uma delas», completou.

Grandes desafios

Um dos grandes desafios foi durante a construção do novo Camp Nou, que vai ter lugares nas bancadas para 100 mil pessoas, uma situação incomparável na Europa, mas James Robertson lembrou que, nos Estados Unidos e principalmente no futebol americano (e universitário), já têm experiência a esse nível. «Encaramos cada estádio como uma oportunidade única, mas, ao cobrir estádios com mais de 100 mil lugares, já temos muita experiência a fazê-lo nesta altura e estamos incrivelmente confiantes nos nossos produtos e capacidades. Esses estádios, cada um deles, são incrivelmente únicos e temos de garantir que correspondemos às expectativas de cada um. Por isso, não importa se é o Barcelona ou o Atlético Madrid», atirou.

«Sabes, realmente não importa, mesmo que fosse, como fizemos este ano, ser o fornecedor de hardware para os Jogos Olímpicos de Inverno em Cortina. Cada um desses cenários é muito diferente. E temos de trabalhar com as equipas em cada um desses locais para compreender quais são as suas necessidades, quais são os desafios que estão a tentar superar e, claro, qual é a experiência que pretendem proporcionar, em última análise, para o seu envolvimento com os clientes e os adeptos. E é assim que realmente vemos as coisas, cada um sendo único», justificou.

Outro grande desafio foi o Estádio do Tottenham. Questionado sobre a possibilidade de os Spurs, que têm o «estádio mais avançado de futebol na Europa» descerem da Premier League, James garantiu que em nada terá impacto no seu acordo, embora preferisse que isso não acontecesse. «O nosso acordo com o Tottenham é plurianual e vai continuar. Vamos continuar a dar resposta às necessidades do estádio, porque isso não vai mudar, certo? Os adeptos vão continuar a ir ao estádio e vão continuar a realizar outros eventos nesse estádio. Por isso, estamos esperançados de que o Tottenham mantenha a sua posição na Premier League e estamos ansiosos por continuar a dar resposta às suas necessidades e ao estádio do Tottenham no futuro», afirmou, sendo que, caso acontecesse, resultaria num prejuízo de milhões e milhões de euros para o clube inglês.

Porém, a HPE Networking não está só nas Américas e na Europa, recentemente também começou a trabalhar no Médio Oriente e o Al Nassr, de Cristiano Ronaldo, João Félix e Jorge Jesus, é um dos seus parceiros. Robertson destacou o «crescimento» que existe na região, apesar da guerra. «O governo saudita tem realmente posto ênfase na criação de centros de entretenimento dentro do país e o Príncipe está muito focado em proporcionar essas experiências de alto nível. Passámos muito tempo na Arábia Saudita a reunir-nos com várias pessoas e a trabalhar em parceria com algumas dessas organizações para proporcionar essas experiências», disse, prometendo aumentar o número de operações, lá, no futuro.

Questionado também se Portugal poderia fazer parte dos seus planos para os próximos anos, James Robertson não descartou essa possibilidade, embora pareça ser improvável, não negando nem confirmando que já tiveram contactos com Benfica (Estádio da Luz), Sporting (Estádio José Alvalade) e FC Porto (Estádio do Dragão).

Futuro

Nos planos está sim continuar a «expandir os limites da tecnologia» no setor do desporto. «Aprendemos muito com a forma como elas pretendem impulsionar a tecnologia e elas também aprendem como nós podemos impulsioná-la. Podemos fazer avançar toda a indústria muito mais rapidamente, graças às capacidades que podemos trazer para esses diferentes cenários. Só a utilização de dados apoiados por IA permite-nos gerir estádios com equipas de tecnologia relativamente pequenas, em grande escala e de forma fiável, para qualquer tipo de evento que possa ocorrer nesses estádios.»

James Robertson prometeu continuar a estabelecer parcerias com organizações em todo o mundo com o objetivo de criar uma infraestrutura impulsionada por IA, mas que, acima de tudo, seja segura. «A segurança é um enorme esforço dentro destas organizações. Querem garantir que o evento é o foco e não a tecnologia nos bastidores, certo? Querem que a tecnologia seja o mais integrada possível. Portanto, criar o ambiente certo, que seja seguro, impulsionado por dados, que lhes dê os insights que lhes permitam impulsionar o negócio e que seja sustentado pela IA, é realmente para aí que nos dirigimos neste momento e é assim que estamos a implementar a infraestrutura para estas organizações», concluiu.