Três e sete
1Hoje, neste domingo, ainda teremos jogos à uma da tarde, - a Inglaterra - às quatro - Senegal e às sete - Colômbia. Assumo que o Mundial de futebol não me domina mas que me condiciona. As obrigações profissionais sempre estão, obviamente, em primeiro lugar. Mas não minto ao dizer, uma vez mais aqui neste espaço de liberdade e resistência, que gosto de futebol, que gosto de ler acerca de desporto e de futebol, que estudo o direito do desporto, mais a sociologia a e a história do desporto. Tenho centenas de livros - alguns com muitos anos - de futebol e desporto, guardei jornais marcantes e revistas emblemáticas, bilhetes singulares e galhardetes únicos, camisolas com dedicatórias e cachecóis cheios de memórias. Tenho muitas águias, quadros que retratam clubes e jogadores marcantes. Outros terão diferentes cartazes e símbolos, outros marcos e referências, outras imagens e dependências. Sou tão livre como eles mas não os acuso de menor capacidade intelectual nem, sequer, de menor envolvimento com as suas dependências. O que sei é que gosto do círculo central e me atrai o pequeno toque que dá início a mais de noventa minutos de emoção e de paixão, de atração e de atenção. Sabendo que Cristiano Ronaldo gosta da bola quase no meio círculo da grande área e que os espanhóis, em particular De Gea, não esquecem aquele terceiro golo que também transformou um empate saboroso num momento tão virtuoso quanto delicioso. Para mim o jogo é, por vezes, quase que um círculo permanente! Mas o que assumo é que este Mundial da Rússia é o meu tempo de partilha com uma das minhas paixões. Sei que a partir de amanhã terei jogos decisivos às três e às sete da tarde. Com dois jogos em simultâneo. E com certos jogos determinantes para a permanência de grandes nomes do futebol neste Mundial. De nosso Cristiano a Messi, de Neymar a Giroud, de Piqué a Quintero. E sei também que no Dia de São Pedro o Mundial da Rússia terá uma pausa. Tal como nos dias 3 e 4 de Julho. Antes dos quartos de final. E, depois, a 8 e 9 antes das meias-finais. Com a nota que a meia-final do nosso lado será a 10 de Julho às sete da tarde em São Petersburgo. Com a recordação, bem presente, da noite memorável vivida em Paris nesse mesmo dia e há dois anos. O que sei é que não escondo a minha paixão, as minhas emoções, o meu prazer. E tendo vontade de com os amigos Paulo e o Alberto - com a vigilância sempre ousada e arrojada do João Vicente - sentir, em cada momento gastronómico de eleição na Cave Real, que há instantes em que um ovo estrelado consegue ser partido… ao meio, numa singularidade baiana que não perturba a atenção ao jogo, a valoração do árbitro e a avaliação duvidosa do VAR. Mas com a permanente certeza, como Jorge Valdano, de que o futebol é um jogo que nunca nos deixa em paz!
2Amanhã frente ao Irão de Carlos Queiroz sabemos que o empate nos basta para chegarmos aos oitavos de final já sabendo a classificação final do Grupo A, ou seja, já sabendo se a Rússia conquistou, ou não, face ao Uruguai o primeiro lugar do seu grupo. E sabendo que Egito, Arábia Saudita, Costa Rica e Peru já se despediram deste Mundial. E que outras seleções estão com um pé fora! Mas o que sabemos é que temos de jogar bem mais frente a um Irão que arrasta o sonho de um País do que fizemos face a Marrocos. O Irão é bem liderado e está motivado. O Irão perturbou a Espanha e este Mundial exigiu que se abrissem, de forma singular, e pela primeira vez, as portas do emblemático Estádio Azadi - na capital do Irão - às mulheres iranianas e permitiu que sentissem, com as respetivas Famílias, a paixão do jogo e o prazer da emoção. Perceberam, muitos, que foi o futebol que permitiu - exigiu! - esta verdadeira revolução. É que o futebol, este jogo infinito que é um dos símbolos marcantes da globalização, para além da incerteza do resultado e dos instantes artísticos que proporciona, concretiza o sentido de pertença. Que se pressente em cada hino, que se sente na paixão comum, que se concretiza no abraço ao próximo, que nos liga às nossas tradições. E são esses sentimentos, o escudo que nos toca, e que nos comove e que nos faz combinar o globalismo com o localismo. Que percorre milhões e milhões de iranianos e que atravessa um País imenso, com uma história rica e que levará amanhã a minha colega Maria José a vibrar, com uma implacável serenidade, ao Portugal-Irão num hotel de Teerão. Com a certeza que na antecâmara de cada jogo os nossos sonhos são do tamanho do nosso mundo. E o nosso mundo é construído à nossa medida. E este jogo, que será complexo face ao Irão do excelente e sagaz Carlos Queiroz, é a primeira de quatro finais. Assim o espero. Assim o desejo. É que o sonho comanda a vida. Esta vida. A nossa vida.
3Por vezes o futebol ajuda a compreender a política. As rivalidades de sempre e as proclamações contemporâneas. Na Europa, nesta Europa dividida e sem rumo, há Estados que, renascidos, mostram as suas tradições. E há outros, partidos, que fomentam a divisão. Na passada sexta-feira houve imensa festa na Suíça diferenciada e intensa festa na unida Albânia… em razão da vitória suíça face à Sérvia. Os golos foram marcados por Xhaka e Shaquiri, ambos originários do Kosovo. E comemoraram os golos fazendo com as mãos o desenho da águia, o símbolo na nação albanesa. A Sérvia é a grande rival da Albânia. Sempre o foi. Ainda mais nos últimos trinta anos. E a geografia da Europa Central e Oriental - aqueles 2000 quilómetros entre o Mar Báltico e o Mar Negro - deve levar-nos a olhar para esta Europa em mudança. As comemorações albanesas pela vitória da Suíça frente à Sérvia e as saudações significantes e significativas dos autores do golo da confederação suíça ajudarão muitos que gostam de história - e que não, apenas, de estórias - a reconhecer os interessantes sinais que o futebol proporciona ao mundo da política. E, logo, em semanas de importantes cimeiras europeias e da NATO.
4Vamos começar a viver o tempo dos clubes. Apresentações e contratações, sonhos e ilusões, renovados sonhos e os nervos de sempre. Recomeça a aventura coletiva que nos mobiliza e motiva. Época a época. Em Agosto temos o Janeiro do futebol. Mas nas próximas três semanas o Mundial da Rússia condiciona-nos às três e às sete da tarde. Com a nossa esperança que a 15 de Julho mude o nosso horário. A final arranca às quatro da tarde. Até lá… há que ultrapassar, amanhã, o Irão. Vamos, Portugal!
5 O Sporting sentiu, ontem, a sua imensa força associativa. Com fervor e com dor. Com se sente e pressente!