«Sporting é um adversário como outro qualquer»
Luís Tralhão projetou, em conferência de Imprensa na tarde deste sábado, a final da Taça de Portugal que vai colocar frente a frente Torreense e Sporting, no Jamor. O técnico do emblema do Oeste garante que a sua equipa está focada no duelo e que os leões devem ser encarados como qualquer outro adversário.
— Que exemplo passa para os restantes treinadores no futebol? É um exemplo de que quando temos mérito e qualidade, a oportunidade tarda mas acaba por chegar?
— Já tenho mesmo muitos anos de treinador, 27 anos. Já não sou tão jovem assim, apesar de parecer. Fico muito feliz pelas pessoas, e tenho tido muitas mensagens ao longo destas últimas semanas e meses por terem acompanhado o meu trajeto. Eu acho que, aconteça o que acontecer na minha carreira, o que mais me orgulha — independentemente de amanhã se ganharmos a Taça ou não —, é a minha marca que tem passado pelas pessoas, e acho que sou uma pessoa que tenta gerar consenso e que é agradável para quem convive comigo, e essa é a maior marca que eu tenho na minha vida. Portanto, tenho muitas mensagens de ex-jogadores de clubes que eu treinei na formação, que hoje são craques, e isso fico muito contente. Também uma palavra para todos aqueles treinadores que muitas das vezes são muito competentes e não tiveram a oportunidade para se mostrar, e acreditar naquilo que é possível fazer. Está aqui a pessoa responsável por essa vinda, foi a primeira e a pessoa mais importante neste meu trajeto nestes últimos anos, dar-lhe aqui uma palavra que agradeço, um agradecimento, porque acreditou na minha qualidade, no meu talento, e eu, independentemente do nível que esteja a trabalhar, faço sempre o meu melhor. Não tenho dúvidas nenhumas, seja neste nível, seja noutro nível qualquer, tenho muita confiança naquilo que sou capaz de fazer e amanhã cá estarei a dar o meu melhor.
— Há meia dúzia de meses, seria o treinador menos conhecido mediaticamente da sua família, o seu irmão [João Tralhão] se calhar até teria mais probabilidades de estar aqui nesta final da Taça. Lá em casa isso tem valido algumas picardias?
— Obviamente que não, já não vivemos na mesma casa há muitos anos... Sou mais velho do que ele dois anos, trabalhámos muitos anos juntos, ele é um dos meus ídolos e eu sou um dos ídolos dele, portanto, somos pessoas muito próximas. Não há esse tipo de rivalidade. Eu fico muito feliz por aquilo que ele está a fazer e pelo nível que ele está a atingir, e ele tenho a certeza absoluta, já me disse isso várias vezes, tem muito orgulho naquilo que estou a fazer. Não havia, para ele e para toda a minha família, dúvida da qualidade quer de um quer do outro. Estamos é felizes de o apelido Tralhão ser muito falado ultimamente, e é um orgulho para toda a família e para toda a gente que nos conhece ter duas pessoas que são muito conhecidas já no meio do futebol. Não é de hoje estar aqui. Acima de tudo, pelas pessoas que somos, os dois, e pela qualidade que temos vindo a demonstrar.
— O que é que mais o orgulha no grupo e no clube?
— O que eu mais me orgulho do grupo é o caráter deles, honestamente, e a força que eles têm em acreditar que são capazes de fazer coisas extraordinárias. Eu acho que fui acompanhando o início da época como treinador dos Sub-23, vi muitos jogos deles, e sempre achei que era um grupo com muita qualidade. Mas depois trabalhar com eles, para além da qualidade técnica específica do jogo que têm, eu acho que é a qualidade humana. Eu não teria pessoalmente este sucesso, e a nossa equipa técnica, se não tivéssemos as pessoas que temos à nossa volta, são gente espetacular. Temos muitas nacionalidades e conseguir agregá-los todos num objetivo comum, eu orgulho-me bastante deles, e destaco-os a eles como é óbvio. Relativamente ao clube, fazer parte da memória coletiva que estamos todos a criar nestes últimos meses, sinto-me superorgulhoso. Eu não sou de Torres Vedras, eu não cresci lá, mas estou há dois anos no clube e sei que o ano passado o carinho que tiveram com a equipa de Sub-23, que fomos ganhar a Liga Revelação e fomos finalistas da Taça, todo o carinho que tivemos. E este ano na equipa principal isso tem sido fantástico: ver a cidade a mobilizar, ver as pessoas contentes, orgulhosas por ser de Torres Vedras, por acompanharem os nossos jogos, sentir não tanto comigo porque eu não ando na rua, mas sempre que ando na rua sou abordado lá em Torres, mas eles, que vivem muitos no centro da cidade e que são autênticos heróis, ver os cartazes no final do jogo para lhes darem a camisola, isso para mim, porque eu sou uma pessoa que está neste meio por ser profissional mas sou bastante emotivo e gosto, e aquilo que me leva a trabalhar no futebol, assim como eles, é sentir este lado emotivo, sentir a emoção, que é isso que nos dá prazer. Mais do que o processo todo profissional que é importante como é óbvio, mas aquilo que nos alimenta e que nos faz estar aqui hoje e acalentar que amanhã é possível fazer qualquer coisa de bonito, é esse mesmo, ver o entusiasmo na cara das pessoas e sentir que podemos, neste momento, eles são heróis em Torres e isso para mim é fantástico.
— Uma eventual conquista da Taça de Portugal, pelo peso que o troféu tem, seria uma espécie de cereja no topo do bolo para todo o projeto que o Torreense tem tido ao longo dos últimos anos? Não só no futebol masculino, mas também no feminino, a nível de formação...
— Era importante não só para o clube, para a região, mas eventualmente também para o nosso país, porque uma equipa... Creio que é a sétima vez que uma equipa da Segunda Liga ou dos escalões inferiores chega à final, creio que nunca venceu, portanto, era uma mudança desta realidade e também demonstrar que o nível de profissionalismo que já existe não só em todos os clubes da Primeira Liga mas como também da Segunda, e já em muitos clubes da Liga 3, dá frutos. Portanto, que quando o projeto tem uma visão e que as pessoas trabalham em volta de, em torno desse, dessa visão, é sempre mais fácil chegar a esse tipo de objetivos. Agora, quando eu digo que o objetivo prioritário é o campeonato, portanto, o campeonato é só na quinta-feira, nós estamos claramente focados — e aliás acho que até já falámos demasiado aqui sobre isso —, mas estamos focados na Taça, esse é o nosso principal objetivo hoje. Quando o jogo fechar, vamos, vamos jogar na quinta-feira para podermos jogar com o Sporting mais vezes, essa é que é o grande objetivo: jogar com o Sporting, o Benfica, com o Porto, estar na Primeira Liga obviamente que é um objetivo importante. Mas quero dizer isto, que acho que às vezes pode não ficar esta mensagem bem clara: se eventualmente, o que pode acontecer, não atingirmos nem um objetivo nem outro, não deixa de ser uma época extraordinária na nossa ótica, em que nós atingimos o play-off, que é um supersofrimento na Segunda Liga, nós não temos, atingimos uma final da Taça de Portugal que é um objetivo que há muitos clubes que passam anos e anos sem poder cá estar jogadores, passam uma carreira sem poder cá estar, treinadores como eu que não sonhavam nos próximos tempos estar nesta cadeira, e há muitos a fazer carreiras muito melhores que a minha e que não se vão sentar aqui, portanto, é aproveitar tudo isso e desfrutar daquilo que nós estamos a viver no momento e aproveitar todas as hipóteses que temos para ganhar amanhã.
— A Taça está a cerca de um metro dos dois...
— Quando entrei não tinha reparado, estava tão focado no que tinha a dizer que não tinha visto. Eu quando olho para a Taça penso: há muito agora para fazer amanhã. Há mesmo muito trabalho, sou um treinador que gosta de analisar e de estudar e de me preparar, está aqui o que temos de fazer, e quando fez a pergunta pensei: o Sporting é um adversário como outro qualquer. O grupo está preparado para amanhã, para o trabalho que nós temos de fazer, e o jogo vai, de facto, pôr em campo as melhores equipas, e se nós formos melhores do que eles, ganhamos nós a Taça, se não, ganham eles.