Entrevista a Pedro Martins, treinador português do Al Gharafa, por ocasião dos 20 anos de carreira

«Sou um treinador de projetos e conquisto o meu espaço nos clubes»

Pedro Martins, treinador português de 55 anos do Al Gharafa, do Catar, celebra em 2026 vinte anos de carreira. Pretexto para uma entrevista na qual o antigo futebolista explica a progressão ao longo das duas décadas e recorda alguns dos melhores momentos. Sem esquecer o futuro, naturalmente.

— O Pedro celebra, em 2026, 20 anos de carreira. Sempre pensou ser treinador?

— Pensei estar ligado ao futebol. A minha paixão sempre foi o futebol. Não me via de outra forma como profissional. Sabia desde tenra idade que queria estar no futebol, desde os meus cinco, seis, sete anos. Comecei no meu clube da cidade do coração, que é o Feirense, e sempre pensei ficar ligado a esta área. Gosto muito de futebol, mas nunca imaginei ser treinador. Imaginava na altura, aos meus 20, 24 anos, estar ligado a um clube numa área mais diretiva. A partir dos 27, 28 comecei a dar os primeiros passos na formação, a tirar os cursos, e senti que era por aqui o meu caminho.

— Ou seja, no seu caso, foi o curso que o motivou a continuar e não o contrário?

— Não propriamente. Foi também o tempo. Aos 28 anos já via o futebol com maior maturidade, um entendimento do jogo completamente diferente de quando tinha 21 ou 22. A partir daí, havia que definir claramente aquilo que pretendia.

— Há 20 anos, quando começou a trabalhar no União de Lamas, imaginava-se onde e como está hoje?

— Para ser sincero, digo que sim. Até algo mais. Eu sou muito positivo. Confio naquilo que faço, no meu trabalho e na minha dedicação. Fruto de algumas observações de colegas que me diziam que eu já tinha aptidão para esta área, porque via o jogo de uma forma diferente, mesmo na gestão de grupos como capitão, eu sempre achei que iria fazer uma carreira de bom nível. Aliás, considero-me hoje mais treinador do que propriamente jogador quando fui jogador profissional..

— Tinha essa pergunta mais para a frente, mas vem a talhe de foice: gostava mais de ser jogador ou gosta mais de ser treinador?

— Adorei ser jogador, mas não trocava a carreira de treinador pela de jogador. Esta é uma área absolutamente fantástica, estamos sempre em evolução. É exaustivo física e mentalmente, mas o conhecimento da área técnica, tática, o falar com a imprensa, com dirigentes, perceber a cultura do país e do clube em que se está... Como jogadores nós não passávamos um segundo a tentar perceber como era o nosso colega. Como treinador, tenho de perceber que tipo de grupo tenho à frente, conhecer as pessoas individualmente.

— E isso torna-se mais aliciante?

— Muito mais aliciante.

— E quão diferente é o Pedro de hoje em relação ao Pedro que começou a treinar há 20 anos?

— Houve uma evolução tremenda. Na altura estava a formatar o meu próprio treino, a minha metodologia e forma de pensar o jogo. Hoje sinto-me muito mais treinador do que era há 20 anos.

— Tem tido estadias médias/longas nos clubes por onde passa. Vê-se como um treinador de projeto?

— Eu sou um treinador de projeto. Sentindo-me bem e sentindo que o clube alimenta os meus objetivos, eu fico. Eu gosto de ganhar e exijo isso. Provavelmente os clubes onde entrei não foram os de maiores investimentos, mas gosto de projetos ambiciosos. E também tenho encontrado o tempo necessário para o fazer.

— E também tem encontrado, nalguns sítios, o tempo necessário para o fazer…

— Eu não digo que «encontro» o tempo, porque a competência é ter resultados, senão não há tempo. Não sou lírico. Sou muito exigente no dia a dia e é isso que me faz estar tanto tempo nos clubes, porque as pessoas confiam no trabalho. Se vissem desleixo ou falta de entrega, eu não estaria tanto tempo.

— Como caracteriza o futebol das suas equipas? Há um fio condutor ou muda consoante o contexto?

— Acho que as minhas equipas são adaptativas. Temos um processo identificado, mas quero equipas inteligentes. Gosto de posse de bola, mas há momentos em que vamos tirar mais partido da transição. Quero que a equipa perceba os momentos do jogo.

— Ao chegar a um clube, impõe o seu modelo de jogo ou adapta-se ao que já existe no plantel?

— Tento impor o meu modelo, mas por vezes o perfil dos jogadores não se enquadra. No meu primeiro ano no Al Gharafa, aconteceu isso. Eu gosto de equipas que mandem no jogo, mas para isso preciso de capacidade de pressão e centrais rápidos. Os meus centrais eram lentos. Tive de adaptar e, mais tarde, procurar centrais com essas características.

— Quem são as suas referências como treinadores?

— Tive muita gente importante. O Henrique Nunes lançou-me; o José Couceiro foi muito importante, fui assistente dele e aprendi imenso sobre planeamento e comunicação. Depois, o Carlos Queiroz veio alterar toda a metodologia do treino em Portugal. O Mourinho deu seguimento a isso. Outro foi o Quinito, uma personagem especial; para mim, era quem melhor via o jogo a partir do banco e tomava as melhores decisões.

— Surpreende-se por ainda não ter treinado um grande em Portugal?

— Não, nem faço disso um cavalo de batalha. Faço o meu caminho desde as divisões inferiores e não me arrependo. Sou fruto do meu trabalho, com poucas ajudas exteriores. É o que é.

— Mas tem essa ambição, esse desejo?

— Tenho, não escondo. Mas também digo que gostava de um dia experimentar o campeonato brasileiro e o campeonato de Inglaterra. Muito sinceramente, mais do que treinar um grande gostava de experimentar esses campeonatos.

— Pensa voltar a Portugal em breve?

— Não sei, tudo é possível. Neste momento estou bem, num projeto onde estamos a lutar para ser uma equipa que ganha títulos. Temos ganho troféus, como a Emir Cup, mas ainda não é suficiente. Quando cheguei, a diferença para os adversários era drástica; agora estamos a bater-nos taco a taco.

— O futebol do Médio Oriente ainda é visto com algum preconceito, como se as pessoas fossem para lá apenas para enriquecer. Que acha sobre o tema?

— Para contratar os melhores jogadores, que estavam em Inglaterra, a Arábia Saudita, por exemplo, teve de seduzir pela parte financeira. Mas há um preconceito europeu errado. O mundo está a mudar e há muita coisa a passar-se noutros lados. Temos uma qualidade de vida e segurança extraordinárias. A minha esposa vive lá bem, sem problemas. Vejo a Europa a retroceder em algumas coisas enquanto outros países crescem. O futebol forçosamente vai evoluir quando estão lá os melhores jogadores.

— Portanto, sente-se bastante bem no Catar…

— Sim. No Catar o processo é diferente da Arábia. O comité liderado pelo Antero Henrique é responsável pela aquisição de jogadores e pelos orçamentos. A ideia é ter equipas competitivas, onde os melhores jogadores estão distribuídos por vários clubes. Isso torna o campeonato muito competitivo — o último pode ganhar ao primeiro. O jogo está a crescer, está mais rápido e intenso.

— Acha que há uma identidade própria do treinador português?

— Felizmente, já é uma identidade com sucesso. Nota-se no planeamento e na forma de ver o jogo. É diferente dos sérvios ou dos brasileiros. Mas claro que depois entre nós há diferenças.

— Tem uma equipa técnica estável há alguns anos. Qual a importância disso?

— É gente competente e honesta. Quando me deito, sei que eles estão ali a zelar pelo que o treinador pensa. Se tenho gente com qualidade e séria, porquê mudar?

— Onde se vê dentro de 20 anos?

— Não consigo dizer-lhe isso...

— Gostava, por exemplo, de treinar uma seleção?

— Sim. Vejo-me num projeto de dois ou quatro anos numa seleção, mas não como algo que me fizesse estagnar. Hoje as carreiras não são separadas; podia treinar uma seleção e depois voltar a um clube.

— O que acha que Portugal pode fazer no Mundial?

— Podemos fazer tudo. Temos jogadores fantásticos e condições para ser campeões do Mundo. Há quatro anos não havia foco; falava-se de tudo menos da Seleção Nacional — problemas internos, vida dos jogadores fora... Sem foco não há hipótese, e a nossa Seleção não estava focada para ganhar.

— Sobre o Catar, o que é que a seleção deles pode fazer?

— É difícil. A base da seleção já tem alguma idade. Se passarem a fase de grupos já será excelente. Mas acredito que daqui a dois anos, com o desenvolvimento do projeto dos sub-21, a seleção do Catar será muito mais forte.

— O Pedro escolheu 20 momentos para simbolizar a carreira. Consegue dizer-me qual foi o mais marcante?

— Isolar um seria injusto. No Marítimo, a fase de grupos da Liga Europa; no Rio Ave, ganhar ao Elfsborg no último segundo foi assombroso; no Vitória, o 4º lugar e a final da Taça; no Olympiakos, os três campeonatos batendo recordes e o jogo contra o Arsenal em Londres. No Al Gharafa, as duas finais da Taça do Emir. São esses os momentos que me vêm mais depressa à cabeça.

— E para o futuro imediato? Tem mais dois anos de contrato e os olhos no título nacional do Catar?

— Sendo europeu e português, de facto o que dou mais importância é ao campeonato, apesar de no Catar até valorizarem mais a Emir Cup.

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