Alvaro Fidalgo com Francisco Conceição (Foto:Imago)
Alvaro Fidalgo com Francisco Conceição (Foto:Imago)

Faltaram os 'velhos' 20 metros na altitude dos 2200 metros (crónica)

Entrada muito débil da Seleção Nacional seguida por recuperação parcial. Muita bola, sim, sobretudo na segunda parte, quando entraram os mais virtuosos, mas escassas possibilidades de chegar ao golo

Há muitos anos, por volta dos anos 70 e início dos 80, dizia-se que faltavam 20 metros ao futebol português — aqueles onde tudo se decidia: as áreas, as balizas e os golos. Faltavam remates, faltavam golos, faltava talento para os últimos 20 metros. Foi o que aconteceu na madrugada deste domingo no belíssimo Azteca: remates e, sobretudo, golos. Assemelhou-se a um jogo de pré-época, e nem faltaram as inúmeras substituições...

O onze inicial de Portugal era o esperado. Aliás, com dois jogos de rajada e sem pontos envolvidos, qualquer onze seria o esperado, até porque Roberto Martínez e Javier Aguirre tinham a possibilidade de fazer 10 substituições. Provavelmente, com os Estados Unidos, a defesa será Diogo Dalot, Tomás Araújo, Gonçalo Inácio e João Cancelo; os médios serão Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes/Mateus Fernandes; e, no ataque, baseando-nos no passado de Roberto Martínez, talvez Francisco Trincão, Gonçalo Guedes e Pedro Neto.

Estas contas, porém, pertenciam a outro rosário. Agora, o que nos interessava era o rosário chamado México. E a Cidade do México, o mítico Azteca e, não menos importante, os 2200 metros de altitude. À partida, apenas dois titularíssimos no onze de Portugal para os principais jogos do Mundial-2026: Nuno Mendes e Bruno Fernandes. E Martínez a apostar num 4x2x3x1, com o capitão Bruno a jogar meia dúzia de metros à frente de Rúben Neves e Samu Costa.

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O México entrou com pressão altíssima, como se médios e avançados se transformassem numa espécie de ‘perritos’ muito agressivos na busca da bola. Portugal, fosse ou não pelo efeito da altitude, demorou algum tempo a entrar em jogo. Notou-se, desde logo, alguma variabilidade tática: Rúben Neves ou Samu Costa abriam na direita ou na esquerda para permitir a Matheus Nunes ou Nuno Mendes avançarem pelo interior e não pelos flancos.

Mesmo com a entrada mais forte do México, a primeira grande oportunidade foi de Portugal, com João Félix a fazer, aos 14’, um chapéu (‘sombrero’, no caso), com a bola a passar ligeiramente por cima da baliza de Raúl Rangel. Logo a seguir, aos 16’, Samu Costa correu, correu, correu e impediu que Álvaro Fidalgo, lançado pela esquerda, pudesse rematar. E o médio do Maiorca festejou (e bem) o corte como se tivesse marcado um golo.

Porém, o jogo continuava a ter mais bola por parte dos mexicanos. Mais bola, sim; mais agressividade, também. Mas sem talento para criar a sensação de perigo junto de Rui Silva. E, de novo, inesperadamente, apesar de, a meio do primeiro tempo, ter equilibrado muito mais o jogo, Portugal voltou a estar perto do golo, com Francisco Conceição a entrar pela direita, aos 26’, a ceder a bola, mais atrás, a Bruno Fernandes, com este, de primeira, a colocar na esquerda em Gonçalo Ramos, que rematou perto do poste esquerdo. A caminho do descanso, aos 36’, Israel Reyes rematou para defesa apertada de Rui Silva e, minutos depois, aos 45’, Samu fez o mesmo, bem de fora da área, com Raúl Rangel a parar a potente bola.

O intervalo chegou e ainda bem que chegou, pois, tirando dois ou três lances de algum perigo, a monotonia instalara-se, com Portugal e o México a jogarem quase sem foco nas balizas. Sem Vitinha e João Neves, médios de transporte e rasgo, e com Rúben Neves e Samu Costa, mais posicionais e menos criativos, Roberto Martínez via pouco poder atacante da sua Seleção.

A maior dúvida, no final dos 45 minutos, envolvia um número: quantas substituições faria Roberto Martínez para a segunda parte? Dar mais tempo aos 11 iniciais ou mudar muito para evitar grandes desgastes?

O selecionador mudou muito: João Cancelo, Diogo Dalot, Tomás Araújo, Vitinha, João Neves, Pedro Neto e Gonçalo Guedes entraram para os lugares de Nuno Mendes, Matheus Nunes, António Silva, Rúben Neves, Samu Costa, Francisco Conceição e João Félix. Sete das dez trocas permitidas surgiram após o descanso. Revolução!

Agora, por fim, no regresso dos balneários, muitos mais previsíveis titulares daqui a uns meses: João Cancelo, Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes e Pedro Neto (embora já sem Nuno Mendes). Foi logo outra música. Maior e melhor circulação de bola, mais velocidade e mais perto do golo. A única mancha negativa do arranque da segunda parte foi a agressividade de Pedro Neto e Jesús Gallardo num lance junto à linha lateral. E ambos tiveram muita sorte (mesmo muita) em só terem visto o cartão amarelo.

Por fim, aos 64 minutos, entrou o mais esperado pelos mexicanos e até talvez pelos portugueses: João Paulo Dias Fernandes. O Paulinho que, no Sporting, mostrava os dentes e marcava golos substituiu Gonçalo Ramos. E o Azteca passou a gritar: Paulinho! Paulinho! Paulinho! Paulinho! Verdadeiramente impressionante o moral que o jogador do Toluca tem no México.

Com a entrada dos mais virtuosos, a música de Portugal chegou a encantar um pouco os milhares de pessoas presentes no Azteca. Mas foi sol de pouca dura. Mais bola, sim, mas poucas bolas perigosas, que é o que mais interessa — ou quase a única coisa que interessa. Deu para Roberto Martínez avaliar melhor alguns jogadores, entre os quais Samu Costa e Paulinho, mas, sejamos justos, pareceu um jogo de pré-época. E até nem faltaram as inúmeras substituições…