Rui Costa falou no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa,  à saída para Madrid - Foto: MIGUEL NUNES
Rui Costa falou no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, à saída para Madrid - Foto: MIGUEL NUNES

Semana horribilis do Benfica

A eliminação, vejam bem, acaba por ser o mal menos mau que aconteceu às águias nesta semana horribilis e arrisco a dizer a que mais danos reputacionais causou ao maior clube português. Este é o ‘Nunca mais é sábado’, espaço de opinião de Nuno Raposo

A derrota em Madrid não terminou com a jornada europeia do Benfica. Acabou a caminhada dos encarnados na UEFA Champions League com eliminatória perdida mas o afastamento da prova, o plano desportivo, vejam bem, acaba por ser o mal menos mau que aconteceu às águias nesta semana horribilis e arrisco a dizer a que mais danos reputacionais causou ao maior clube português.

Num passado recente, casos judiciais causaram dano, revoluções internas, mas também basicamente internas foram as repercussões mediáticas. Agora, o caso Prestianni foi visto em direto em todo o mundo, mexeu com o mundo todo e o jogo, até certo ponto, passou para plano secundário. Ou seja, a excelente réplica que os encarnados deram ao Real Madrid acaba por ser um dado marginal numa eliminatória ferida de morte desde aquele momento entre Prestianni e Vinícius Júnior.

Sobre o caso já me pronuncie na passada semana e recordo: não se tolera o racismo e ponto. Presumo que o houve do camisola 25 dos encarnados para o 7 dos merengues mas se sim ou não a investigação o dirá, onde o houve sem dúvida foi em todo o lado à volta do caso, o que não me surpreende numa sociedade (a portuguesa, sim, como arriscaria dizer todas em todo o mundo) estruturalmente racista.

Mas depois e durante isto tudo ainda foi o próprio Benfica a escavar mais o buraco onde Prestianni o meteu. Em vez de sair dele, meteu-se mais fundo. Até dou de barato que naquela noite, ainda a receber as ondas de choque do acontecimento, a resposta possa não ter sido respirada a fundo. Mas do gabinete de crise (se é que o houve) não ter saído uma única medida acertada causa-me espanto. Será que estavam todos tão fechados na sua bolha do nacional futeboleirismo que não perceberam o que se dizia do Benfica por esse mundo fora, do dano reputacional causado?

Uma semana inteira para Rui Costa falar e quando o fez… fê-lo à frente da farmácia do aeroporto, com anúncios a medicamentos como pano de fundo e gente a comprar Ilvicos para a gripe. E como se fosse apenas mais um assunto qualquer que o presidente chuta à partida duma deslocação da equipa. José Mourinho, que na noite da Luz metera os pés pelas mãos, não mais apareceu, refugiou-se na BTV e no adjunto. Saiu do hotel da equipa por duas vezes, sem recato, e depois deixou todos pendurados em Espanha e isso, lá, não lhe perdoam como cá. E de todas as comunicações feitas pelos encarnados sobre o caso que realmente importa, o do racismo, nenhuma capaz de repor a imagem internacional do clube, que em oito dias sofreu mais do que nos anteriores 120 anos.

Fez mal o Benfica ao não conseguir sair da bolha do futebol quando o caso a rebentou com estrondo naquela noite no Estádio da Luz. Os encarnados não perceberam que este assunto não podia ter sido tratado como tratam outros, aqueles que têm merecido comunicados atrás de comunicados durante toda a época mas que apenas servem para entreter os programas cá do burgo. Este caso é diferente, é muito mais grave, envolve atores maiores do que o Benfica e o Benfica não percebeu que contra esses o pequeno é ele. E no fim das contas, não soube lidar com um problema que não é só do futebol, é da sociedade, e podia ter pegado nele de forma pioneira. O dano está feito e a marca vai demorar a sarar.