Luis Mateus, editor-executivo de A BOLA, comenta as precauções que Marco Silva ao aceitar treinar o Benfica

Não havia orçamento para mais e é por isso que Marco Silva chega ao Benfica

O treinador que já ajudou a 'roubar' um título às águias em pleno Estádio da Luz e que Bruno de Carvalho «quis despedir na pré-época» no Sporting é o senhor que se segue no banco dos encarnados

Aquela última semana de setembro não foi particularmente fácil para Marco Silva. Ao fim de quatro meses como diretor desportivo, a direção do Estoril decidiu despedir Vinícius Eutrópio.

O brasileiro que, na época anterior, tinha sido o último treinador do então lateral direito, não resistiu a um ciclo de três empates, uma derrota e apenas uma vitória a abrir a época e deixou o plantel construído por Marco Silva sem líder.

A opção da direção passou então por entregar a responsabilidade ao diretor desportivo, fazendo-o descer do gabinete para o relvado. Ideia que não lhe agradou particularmente. Não e não, respondeu às duas primeiras abordagens. Mas a verdade é que também não tinha grande alternativa. Estava encostado à parede, como recordou em 2025, em entrevista à Sky Sports.

Marco Silva iniciou a carreira de treinador no Estoril - Foto: A BOLA

«Depois de ter dito que não a segunda vez, eles mostraram-me o quadro completo: ‘Se não fores tu, vai ficar exatamente como estamos agora, com o pessoal que temos. Vais ser o adjunto, porque o proprietário não quer dar-nos orçamento para ir buscar outro treinador’. Então, acabei por aceitar. Foi uma decisão difícil, provavelmente a mais difícil de tomar no momento, mas fi-lo porque acreditava nos jogadores. A confiança estava lá e sabia que não tínhamos muitas soluções distintas que me fizessem, como diretor desportivo, sentir confortável em assumir a equipa».

Longe vão esses tempos. E menos de 15 anos depois, Marco Silva prepara-se para se tornar num dos treinadores mais bem pagos da história do Benfica, depois de ter ele encostado Rui Costa à parede para não deixar a mesa de negociações, o que significaria a queda da primeira opção do presidente do Benfica para substituir José Mourinho, a caminho do Real Madrid.

Fê-lo também porque o percurso que trilhou desde esse primeiro passo (forçado) no Estoril fez dele um treinador consagrado e nome respeitado e até apontado a alguns colossos da insuspeita Premier League. Aos 48 anos, o técnico vai ter pela frente a tarefa de devolver aos títulos um clube sedento, ele que ao longo da carreira conquistou três campeonatos – a Liga 2, na estreia, o campeonato grego em 2015/16 e o Championship, em 2021/22 – além da Taça de Portugal, ao serviço do Sporting.

Título 'roubado' ao Benfica

Desde cedo a carreira de treinador de Marco Silva pareceu apontada ao sucesso. Logo na época de estreia, conduziu o Estoril ao título da Liga 2, apesar de ter pegado na equipa na segunda metade da tabela.

Marco Silva sagou-se campeão pelo Estoril na Liga 2 na estreia como treinador - Foto: A BOLA

Na época seguinte levou os canarinhos à estreia na Liga Europa, graças ao 5.º lugar. E quando poucos pensavam que daria para melhorar esse resultado, na época seguinte o Estoril acabou o campeonato no 4.º lugar.

Pelo meio, no final da época 2012/2013, Marco Silva serviu um grande dissabor ao Benfica. Na antepenúltima jornada, as águias recebiam o Estoril na Luz e uma vitória deixaria o título a um pequeno passo. Só que um golo de Jefferson perto da hora de jogo complicou as contas, apesar de Maxi ainda ter empatado esse jogo.

Na semana seguinte a equipa então orientada por Jorge Jesus visitou o FC Porto e aconteceu ‘Kelvin’. Aos 90+2. E o título fugiu para o rival.

As tensões (e um fato de treino) com Bruno de Carvalho

Alheio a isso, depois de uma última grande época no Estoril, Marco Silva seguiu com a vida. O salto aconteceu naturalmente e levou-o ao Sporting, que ficara sem Leonardo Jardim. Mas até podia ter sido o FC Porto, uns meses antes, quando o nome de Marco Silva foi falado para suceder a Paulo Fonseca.

Nos leões, apesar de ter sido sempre muito apreciado pelos adeptos, viveu uma relação sempre tensa com o então presidente, Bruno de Carvalho.

«Quis despedir Marco Silva logo na pré-época. Foi uma desilusão total. Chegou ao ponto de estar a ver os nossos jogadores à pancada sem fazer nada», relataria o dirigente no livro «Sem Filtro – As Histórias dos Bastidores da Minha Presidência», no qual assumiu que o treinador o fez viver «um terror».

Marco Silva e Bruno de Carvalho viveram uma relação tensa no Sporting - Foto: A BOLA

Porém, mesmo num ambiente tóxico, que teve até um episódio em que Marco Silva pensava que tinha sido despedido por Bruno de Carvalho, mas afinal não, o treinador terminou a época com a conquista da Taça de Portugal.

Mas nem a reviravolta épica no Jamor diante do SC Braga – aos 84’ os leões perdiam por 2-0 e venceram nos penáltis – impediu que a corda partisse entre as duas partes.

O Sporting despediu Marco Silva, alegando justa causa, «desobediência e má-fé», nomeadamente porque o técnico foi para o banco com um fato de treino – em vez do fato a que estava contratualmente obrigado – num jogo contra o Vizela.

Entrar na Premier League pela porta do fundo

Na época seguinte, o técnico rumou à Grécia, para alcançar ao serviço do Olympiakos, o único título que tem numa primeira divisão. No final da temporada rescindiu com os helénicos, alegando problemas pessoais e ficou uns meses sem treinar, até dar entrada na Premier League.

Fê-lo pela porta dos fundos. Em janeiro de 2017, assumiu o comando do Hull City, que era então o último classificado. Apesar do bom trabalho que lhe foi reconhecido, o treinador português não conseguiu evitar a descida.

Marco Silva entrou na Premier League pela porta do Hull City e defrontou Mourinho (então no Manchester United) a quem deve suceder agora - Foto: IMAGO

Isso não impediu que no início da época seguinte tivesse à espera um novo projeto no Watford. E aí acabou traído pelo bom trabalho que fez. Suscitou o interesse do Everton, os hornets rejeitaram várias abordagens do clube de Liverpool a meio da época e isso fez a relação quebrar em janeiro, quando o Watford rescindiu com o treinador por ter sentido após o assédio do Everton «uma deterioração significativa na concentração e nos resultados, comprometendo o futuro do Watford a longo prazo».

O namoro daria depois em casamento. No verão, Marco Silva assinou mesmo pelo Everton, conduzindo o clube ao 8.º lugar da Premier League. A época seguinte, porém, não correu tão bem e Marco Silva foi despedido à 15.ª jornada quando o clube estava um ponto abaixo da linha de água e imediatamente após uma goleada por 5-2 diante do grande rival da cidade dos Beatles, o Liverpool.

Apesar dos dissabores, Marco Silva não desistiu de Inglaterra. E nem se importou de dar um passo atrás na época seguinte, assumindo um Fulham que acabara de descer ao Championship.

A história do sucesso dessa relação é mais do que conhecida e só terminou oficialmente nesta terça-feira. O treinador sagrou-se campeão logo na estreia e depois consolidou um clube habituado ao sobe e desce constante na Premier League, nas quatro épocas seguintes.

Marco Silva tornou-se ídolo nas bancas de Craven Cottage

Segue-se agora o Benfica. Falta apenas para isso ser oficial que Florentino Pérez ganhe as eleições para a presidência do Real Madrid e avance com a contratação de José Mourinho.

Uns dias, portanto. Mas o que é isso para quem só se fez treinador porque não havia orçamento para contratar outro?

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