André Villas-Boas e Frederico Varandas escolheram bem os seus administradores financeiros: Zenha e Pereira da Costa — Foto: FPF
André Villas-Boas e Frederico Varandas escolheram bem os seus administradores financeiros: Zenha e Pereira da Costa — Foto: FPF

Sem audácia, não há sorte

O sucesso de Frederico Varandas e André Villas-Boas foi forjado em percursos semelhantes. Foram corajosos quando se candidataram. 'Choques de Realidade' é o espaço de opinião quinzenal de Rui Pedro Soares, consultor

Se a nova classe média-alta da 1.ª Liga, Famalicão, Gil Vicente, Arouca, Santa Clara e Moreirense, aproveitar a divisão dos três maiores e se se juntarem num projeto comum, vão liderar o futebol profissional.

Se a sorte protegesse os audazes, então os aventureiros, os incautos e os pouco prudentes seriam bem-sucedidos. Devemos excluir os tolos, porque esses não têm consciência do que fazem — não é a coragem que explica as suas acções destemidas.

No futebol português, sem estratégia, audácia, dinheiro e muito trabalho, é impossível ter sorte. 

Em Famalicão, Miguel Ribeiro assumiu o risco de liderar uma equipa que não jogava na 1.ª Liga há décadas. Aos excelentes resultados desportivos e financeiros, junta uma relação harmoniosa com o clube, acrescentando o orgulho ao sentimento de pertença dos habitantes da cidade. O caminho começou na Liga 2, cresce sustentadamente todos os anos, apesar da enorme desvantagem que é não ter um estádio em condições.

No Gil Vicente, o regresso da figura tutelar de Francisco Dias, com ligações profundas e antigas no futebol português, permitiu resolver o caso Mateus e subir administrativamente à 1.ª Liga. Com um estádio excelente e bem dimensionado, investiu o necessário para ter uma estrutura profissional e que lhe permite vender jogadores por valores impensáveis para uma equipa da sua dimensão — tem em 2025/26 um balanço positivo de transferências de 20 milhões de euros.

O Arouca, liderado por uma família da terra, o pai Carlos e o filho Joel, são o mais resiliente projeto do futebol português — começaram nos distritais, jogaram na UEFA Europa League, desceram ao Campeonato de Portugal e voltaram à 1.ª Liga. Todo este carrossel, num concelho de 20.000 habitantes, a que não se consegue chegar numa estrada em condições e com um estádio que parece o prolongamento dessa estrada.

Bruno Vicentini, salvou da falência o Santa Clara e está a fazer nos Açores, com enormes custos de insularidade e com um estádio sem condições, um projeto desportivo sério e consistente, com a equipa A a atingir a UEFA Europa League e com equipas B e sub-23. Os sub-19 estão atualmente no 5.º lugar da 1.ª Divisão nacional!

O Moreirense, liderado pela família Magalhães durante duas décadas, é um projeto sólido, que começou por ser um clube elevador (subia e descia quase todas as épocas), e se profissionalizou, investiu na construção de uma academia e beneficia agora da relação com um investidor que escolheu demorada e criteriosamente.

O que Varandas e Villas-Boas têm em comum?

O sucesso de Frederico Varandas e André Villas-Boas foi forjado em percursos semelhantes. Foram corajosos quando se candidataram, o Sporting no caos pós-Alcochete e o FC Porto ainda liderado pelo presidente com mais sucesso da sua história (passada e futura, é impossível repetir os feitos de Pinto da Costa) mas com uma situação financeira no fio da navalha. 

Cientes da importância crucial da estabilização imediata das finanças, escolheram bem os seus administradores financeiros (Zenha e Pereira da Costa), a quem delegaram amplos poderes. Evitaram o descalabro financeiro dos seus clubes, o sucesso desportivo não podia ter sido a primeira prioridade.

No momento mais crítico das suas presidências, tomaram duas decisões contra toda a lógica futebolística — Varandas decidiu pagar ao SC Braga 10 milhões de euros pela contratação de um treinador com pouca experiência (Ruben Amorim) e Villas-Boas, a 15 jornadas do fim do campeonato e a apenas seis pontos do Sporting, vendeu Nico González e Galeno por 110 milhões de euros, sem tempo sequer para reinvestir nessa janela de mercado — sabia que não tinha equipa para ser campeão e preferiu preparar bem a época seguinte. 

O resultado destas duas decisões, tomadas num contexto de pressão extrema, demonstra que foram corretas e com base num único critério, o que acreditavam ser melhor para as suas equipas. Sendo muito competitivos, vão ser sempre adversários e exceder-se em declarações. 

O futebol português vive da rivalidade e a polémica é indispensável. A censura não faz sentido em 2026. 

O Benfica em 2026/27

Em julho de 2021, de forma abrupta e inesperada, Rui Costa assumiu a presidência do Benfica — sem tempo para se preparar. 

Em agosto, conseguiu o apuramento para a fase de grupos da UEFA Champions League, ultrapassando o Spartak de Moscovo e o PSV. À 15.ª jornada, depois de ganhar por 7-1 ao Marítimo, estar a quatro pontos do 1.º lugar e ter passado a fase de grupos da Champions, Jorge Jesus deixou-se envolver numa armadilha mediática que pode ter sido a vingança do Flamengo pela forma como tinha saído do Brasil para o Benfica

O conhecimento público da presença em Lisboa de representantes do Flamengo para falarem com Jesus e uma derrota com o FC Porto por 0-3, para a Taça de Portugal, ditaram o seu afastamento. O Benfica acabou em 3.º lugar, a 17 pontos do campeão. Nas primeiras 15 jornadas, com Jorge Jesus, o Benfica fez 37 pontos, nas restantes 19, fez os mesmos 37 pontos — piorou.

Na época seguinte, contratou Roger Schmidt e a meio da época renovou o seu contrato. É campeão. Como o despede um ano e meio depois da renovação, assume-se como certeza que esta teria sido um erro. Teria sido campeão? Teriam sido lançados João Neves e António Silva? Recuperado Florentino? Dado a titularidade e a confiança a Gonçalo Ramos? Terá sido uma decisão errada a renovação com Roger Schmidt? Ou o erro terá sido o despedimento? Ou terão sido duas decisões corretas?

A maioria dos portugueses preferem que José Mourinho não continue no Benfica na próxima época — são a soma de todos os não benfiquistas, dos benfiquistas que não apoiam Rui Costa e de alguns dos seus apoiantes. 

Depois da sua primeira época e do episódio de Jorge Jesus, o Benfica está a caminho de ser o único a fazer 80 pontos ou mais nas quatro últimas temporadas. Se somar três vitórias e um empate nos quatro jogos que restam, acabará o campeonato com 82 pontos, os mesmo com que o Sporting foi campeão na época passada.

Em 2026/27, se conseguir melhorar 10%, o Benfica vai ser o campeão. Mas sendo o Benfica, estes 10% são mesmo muito difíceis de conseguir. 

A relação perfeita só seria possível entre um presidente cego e um treinador surdo.